Cotidiano

Crise em solo tupinambá


Parece mesmo sina ou talento nato desta vasta Nação se apegar a uma crise. Talvez encontre aí uma forma de não permitir que a vida se torne assim tão monótona, como se vê em países socialmente equilibrados, de economia estável.

Por isso é que aqui estamos sempre às voltas com transtornos de ordem política, social, moral e tal. Um espetáculo circense que busca se diversificar sempre, em nome da aventura de se sentir brasileiro da gema.

Antigamente Carnaval e futebol davam conta de tão nobre missão. Até novelinhas e programas ordinários de auditório faziam a vez quando o assunto era o bem-estar de um povo que vivia altas amperagens de emoção no dia a dia diante da TV. Era o campeonato regional, o Nacional, a Libertadores, a Copa do Mundo... Ah! A Copa do Mundo que desviava o olhar do público para voltá-lo exclusivamente para o certame e para o possível campeão.

Quem fora o criminoso que dera cabo da Odete era outra questão que dividia o País, assim como fazia a torcida e as lágrimas frente a um auditório tenso, na expectativa de ver a pessoa ganhar ou não o carro ou a casa na TV. E assim, a vida transcorria cheia de sentimento bom e adrenalina, preenchendo o coração da gente sofrida pelos percalços de uma desigualdade social mastodôntica, maquiada pela mídia, sobretudo a televisiva, que sempre mostrou um cotidiano feliz debaixo desta imensa lona verde-amarela.

Mas aí, em dado momento, as coisas se tornaram sombrias, à medida em que novas lideranças assumiram o poder e passaram a propagar o ódio, permitindo que hordas humanas, afins no mesmo sentimento, deixassem a escuridão e viessem para as redes sociais e para as ruas se deleitar com a nova palavra de ordem. Então, o que passou a ser alegria para alguns, tornou-se inquietação nas mentes das pessoas de paz.

Logicamente que, com tal espírito no comando, outro não poderia ser o resultado senão a caminhada rumo à antievolução do ser, natural deste vasto e, antes alegre, território.

Conheceu, pois, o povo desta Nação a violência discursiva, quase sempre eloquente, que se espalhou e virou moda numa terra em que o mau gosto sempre foi destaque, dada a afinidade nenhuma da gente do lugar com os livros.

De qualquer forma, tudo seguia aos trancos e barrancos no seio de uma sociedade, muitas vezes, esperançosa no tocante à busca de uma Nação melhor, mais justa, até o momento em que a tranquilidade aparente foi arrebatada pela pandemia. Ela veio tão rápida que não houve tempo para percebê-la bem nos nossos calcanhares, nos calcanhares do mundo, aliás. E no meio de um povo nada afeito às regras e que demora em aceitar a realidade dos fatos, a coisa ganhou ares de um desastre sem precedentes.

Não bastava, pois, todas as crises a que estávamos submetidos neste imenso território Tupinambá, e algo aterrador e inusitado, protagonista das telas de cinema, se materializou para botar em xeque toda a nossa crença num futuro melhor. 

Pensou-se, inclusive, que a cara feia, cheirando a enxofre, já cumpria direitinho o seu papel de nos arrancar o fiapo de esperança que restava, quando o diabo do vírus se apresentou para nos esfregar na cara a fragilidade do fio que sustenta esta vida. 

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