Cotidiano

A era do medo


O medo está nos comentários das pessoas, nos gestos, no olhar. Não posso culpá-las. Não estamos imunes à praga do vírus nem ao medo. Faz parte da natureza humana sentir-se inseguro diante de algo que não se pode enfrentar, algo que foge à compreensão. Mesmo porque, jamais vivemos situação semelhante. Sequer imaginamos vivê-la um dia. Mas ela está aí, de corpo e alma, com a sinistra intenção de dar cabo da gente que habita este planeta azul e redondinho. Também não é possível ver solução imediata para a questão que nos impede de viajar, andar para lá e para cá ou simplesmente sair de casa, como sempre fizemos. 

A era do medo determina que nos resguardemos e que não tiremos a cara de sob as cobertas. Só o nariz deve ficar de fora e respirar com cuidado. Os olhos perscrutam o invisível na escuridão dos tempos.

Dizem que o mundo que nós conhecíamos até que ocorresse o sinistro, acabou. Que outro virá em seu lugar. Estão corretos, penso eu. Afinal, novo sentimento por certo que habitará os corações da população, assim como outro pensamento ganhará espaço em suas mentes. Hábitos de higiene e cautela com a saúde continuarão a fazer parte da vida das pessoas, mas de forma mais enfática. Até para sair às ruas, se cercarão de cuidados, nunca antes experimentados. Nem quero pensar nas manias que virão... E quanto às viagens? Muitos países deixaram de ser paraísos do turismo e, só depois de tudo acabado, o visitante começará a voltar timidamente para esses lugares. Quem sabe levem meses ou anos para que alcancem a normalidade vivida antes.

Mas não é momento para se pensar em turismo e sim na sobrevivência em nossos próprios domicílios que, aliás, não oferecem lá tanta segurança, tendo em vista o número de pessoas que se expõem diariamente ao perigo. Parece que o planeta gira distraído, indiferente mesmo aos pesares de quem sobre ele caminha. Talvez tenha finalmente cansado do seu habitante mais nobre. Mesmo porque, de que serve o ser humano ao mundo senão para acabar com a sua serena existência? Se o bicho-homem fosse aniquilado, talvez tudo voltasse a funcionar como antes, embora eu não possa compactuar com tal perspectiva terrestre, já que faço parte da massa humana que perambula por este solo.

Mas há uma esperança no ar, talvez uma salvação: a humanidade, de repente, voltou seu olhar para a solidariedade. Isso! Assistindo aos telejornais, tenho visto muita gente doando parte de seu tempo e de seus recursos para auxiliar, de alguma forma, na luta contínua para se conter o diabo da doença. Falo de pessoas daqui e de outras paragens, mundo afora. A pandemia, subitamente, parece que fez emergir um sentimento contido no cerne humano: o desejo de auxiliar. Sentimento este que não imaginávamos existir, uma vez que convivemos pouco com ele.

Tenho visto também ideias brotando aqui e ali, que levam alguns profissionais a contornarem, de forma criativa, o holocausto que se avizinha, e colaborar, de alguma forma, com o seu ofício.

Sim! É possível que a era do medo tenha vindo justamente para despertar no ser humano um pouco de humanidade.

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