Cultura & Lazer

Batida da periferia


O domingo dos moradores do Conjunto Habitacional IAPI, na Vila Guiomar, em Santo André, não vai ser um dia qualquer. A rotina dos cerca de 1.300 habitantes, distribuídos em 384 apartamentos alocados em 30 prédios locais, deve ser alterada desde as primeiras horas, quando o rapper Afro-X e o seu parceiro Jhef começarem a gravar o clipe da música que fizeram em parceria, Pretos no Topo.

Os dois, junto a uma equipe de 50 pessoas, devem estar até o meio da tarde no local, fazendo o som da música, que tem uma batida pesada, com influências do g-funk (tipo de música do hip hop que emergiu do gangsta rap da costa Oeste dos Estados Unidos no início da década de 1990) e elementos do trap (subgênero do rap que ganhou notoriedade em 2007), uma mistura do clássico com o moderno. “Acredito que a periferia está em ascensão, mostrando o seu lado da luta, das conquistas e da cultura. Por isso decidi gravar este clipe em Santo André e nesta comunidade, que é muito acolhedora. A identifico como se fosse um Harlem ou Bronx (bairros periféricos dos Estados Unidos), e quis fazer uma interação com a comunidade”, explica o músico, que é de São Bernardo e faz parte do grupo 509-E.

Tanto que, além da equipe já mencionada, os músicos contarão com os moradores, que agirão como figurantes, mostrando a sua rotina. “A comunidade está ansiosa para ver mais uma vez nós em uma obra importante musical. Nós já somos referência de alguns projetos culturais e também no projeto de moradia popular nacional, desde que foi implantados na década de 1940 por Getúlio Vargas”, comemora a vice-presidente da Amprevia (Associação dos Moradores dos Prédios Velhos do IAPI), Tania Regina Lacerda, que nasceu no local há 63 anos e de lá nunca saiu. Segundo ela, o projeto pioneiro implementado em Santo André depois seguiu para outros lugares como Porto Alegre, Salvador e Manaus.

“Nossa proposta é mostrar o lado bom da comunidade, repleta de pessoas lutadoras, com uma energia muito boa, cheia de esperança. Existe algo diferenciado dentro da periferia diante de todas as mazelas do sistema, de certa forma existe uma resistência e muita diversidade, lá você encontra negros, brancos, japoneses, todas as etnias e a ideia foi compartilhar isso, mostrar esse lado”, explica o rapper.

A música fala sobre a luta do negro, do povo periférico, para se desvencilhar dessas mazelas. Propõe a autovalorização e o empoderamento e não há limites para os sonhos. “Vai mostrar bem o dia a dia dessas pessoas com a gente cantando sobre onde podemos chegar com os nossos sonhos, a nossa esperança e foco”, completa Afro-X. Depois da gravação na Vila Guiomar, o clipe será finalizado na comunidade Tamarutaca, também em Santo André. 

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