Economia

Sobre a baixa produtividade


Após a divulgação dos resultados do PIB para o terceiro trimestre de 2019, podemos afirmar com maior assertividade que em 2019 a economia brasileira deverá apresentar crescimento em torno de 1% ou pouco mais.

Depois das retrações de 3,5% e 3% em 2015 e 2016, respectivamente, o triênio 2017, 2018 e 2019 deverá acumular crescimento próximo a 3,5%. Ou seja, terminado este ano, a economia brasileira ainda não estará produzindo o mesmo volume de riqueza que antes de 2015.

Uma das questões fundamentais a serem avaliadas quando se discute crescimento econômico é se este movimento ocorre com a melhora na eficiência do uso dos recursos e esforços produtivos ou se é fruto do maior volume de utilização desses recursos e esforços produtivos, resultando em mais crescimento, mas não necessariamente com maior eficiência. Ou seja, não necessariamente com maior riqueza gerada por insumo produtivo utilizado e esforço produtivo empregado.

Recentemente o Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), vinculado à Fundação Getulio Vargas, lançou o Observatório da Produtividade. Seus dados demonstram que ao longo de 2019 a produtividade por hora trabalhada no Brasil diminuiu no primeiro, segundo e terceiro trimestres, revertendo a trajetória de melhora da produtividade registrada entre a segunda metade de 2016 e 2018. O que mais chama atenção nos dados do Ibre, além da redução da produtividade no setor industrial, é a queda da produtividade no setor de serviços, que se mostra muito mais intensa e mais prolongada se comparada aos demais setores da economia.

A perda de produtividade resulta em menor riqueza gerada por insumo produtivo e por esforço de trabalho empregado. Ou seja, aponta menor eficiência na utilização dos insumos produtivos empregados. Esse movimento caminha na contramão do que é apresentado por países como Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, China e Coreia do Sul, entre outros.

A explicação dessa diferença, em boa parte, está na especialização regressiva da economia brasileira, que tem ampliado a atuação em setores caracterizados por baixa incorporação tecnológica, em detrimento de setores com maior potencial de incorporação tecnológica e ampliação da produtividade, conforme explica o professor Paulo Gala em seu blog.

E como esta questão se reflete no Grande ABC?

Embora não tenhamos até o momento nenhum trabalho para calcular e acompanhar a produtividade da economia regional, as variações observadas no mercado de trabalho trazem algumas pistas.

Entre 2006 e 2018, segundo dados da Rais, os setores que mais geraram emprego no Grande ABC foram serviços de média-baixa e baixa intensidade tecnológica e os de construção civil e comércio, ambos de pequena intensidade tecnológica, segundo classificação da OCDE. Na outra ponta, os setores que mais perderam postos de trabalho foram os de serviços de média e alta intensidade tecnológica e a indústria de alta, média-alta e alta intensidade tecnológica.

Ou seja, a movimentação no mercado de trabalho do Grande ABC nos últimos 14 anos aponta para expansão dos segmentos com menor capacidade de promover a expansão da produtividade e redução daqueles com maior potencial de ampliá-la.  

* Coordenador de estudos do Observatório Econômico da Faculdade de Administração e Economia da Metodista

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