Brickmann

O bode das ilusões


Conta-se que um lavrador judeu foi pedir conselho ao rabino: sua casa era minúscula, não havia espaço para nada, e a sogra, que ficara viúva, tinha ido morar com eles. Que fazer? O rabino disse: leve seu bode para dentro de casa. O lavrador obedeceu e, uma semana depois, voltou ao rabino: tudo tinha piorado. O bode ocupava boa parte do espaço já minúsculo, cheirava mal, fazia sujeira – insuportável. O rabino recomendou: tire o bode de casa.

Alguns dias depois, o lavrador se encontrou com o rabino e agradeceu o conselho. “Tirei o bode de casa. Agora temos espaço e higiene para todos!”

Os R$ 3,8 bilhões de dinheiro público que pagariam a campanha eleitoral foram o bode que os parlamentares expulsaram da casa. Querem que o eleitor fique feliz com a gentileza do Congresso, desistindo dos R$ 3,8 bilhões que geraram tanta reação e aceitando os R$ 2 bilhões propostos pelo governo no Orçamento. Parece piada: R$ 2 bilhões são bem mais que o R$ 1,8 bilhão da campanha de 2018. Já era dinheiro demais, e pagou a campanha presidencial e as estaduais. Aumentar os gastos para as eleições municipais é tungar o eleitor. É dar nosso dinheiro aos caciques dos partidos, é estimular a criação de novas legendas apenas para dar vida boa a quem não gosta de trabalhar. Que cada partido busque suas doações e sejam todos obrigados a declará-las, doadores e receptores. Nos Estados Unidos é assim. Por que só jurar amor aos americanos e rejeitar seus métodos de financiar campanhas?

Bem-vindo, seu Cabral
Até que o ex-governador fluminense Sérgio Cabral resistiu muito tempo – a ponto de o Ministério Público rejeitar sua proposta de delação premiada, por achar que ele nada poderia trazer de novo às investigações. Mas Cabral, que está condenado em tantos processos que se arrisca a nunca mais sair da prisão, resolveu agora insistir em sua delação premiada. Fez acordo com a Polícia Federal, contra o parecer do Ministério Público. E a decisão sobre os eventuais benefícios que possa receber será dada pelo Supremo Tribunal Federal, onde está nas mãos do ministro Edson Fachin.

Tiro ao alvo
Dizem que Cabral, em sua delação, atingirá não apenas os que já foram atingidos pela Lava Jato: o que se comenta é que entregará juízes, ministros, até diretores de meios de comunicação. Sempre sobrará, claro, para Lula; para Pezão, seu vice e sucessor; e para outros governadores que teriam atuado em conjunto com ele. Há empreiteiros que receberiam deduragem especial, e não são os mais conhecidos, mas o que eram mais amigos, que viajavam com ele, davam bons presentes ao então governador e sua família.

Questão de fé
Se Cabral promete denunciar quem ainda não foi denunciado, após tantos anos de Operação Lava Jato, e devolver centenas de milhões de reais ganhos ilicitamente, por que o Ministério Público se oporia ao acordo de delação? O procurador-geral Augusto Aras diz que Cabral, enquanto negociava delação premiada com a Lava Jato, ocultava informações e protegia aliados. Em resumo, não estaria convencido da boa-fé do ex-governador. De acordo com O Globo, que noticiou a possibilidade de acordo de delação com a PF, desta vez ele promete apontar o dedo até para ministros do Superior Tribunal de Justiça.

...e o óleo esfriou
As toneladas de petróleo que invadiram a costa Nordeste do País levaram o ministro do Meio-Ambiente a acusar o Greenpeace (que a guerrilha dos bolsonaristas na Internet chamou de “greenpiche”). Houve falatório sobre a Shell; sobre um navio grego; sobre o modo pelo qual o petróleo, identificado como venezuelano, tinha chegado até o Brasil; e sobre uma misteriosa fonte de óleo sul-africano. A preocupação foi tamanha que a Câmara abriu uma CPI sobre o tema, com o pomposo e vasto título de “Comissão Parlamentar de Inquérito com a finalidade de investigar as origens das manchas de óleo que se espalham pelo litoral do Nordeste, bem como avaliar as medidas que estão sendo tomadas pelos órgãos competentes, apurar responsabilidades pelo vazamento e propor ações que mitiguem ou cessem os atuais danos e a ocorrência de novos acidentes”. Pois ontem havia reunião da CPI, às15h. Vazia, vazia. Suas Excelências assistiam ao jogo do Flamengo.

Pobres togados!
Excelente jornalista e fiel leitor desta coluna, Mário Marinho mostra o outro lado dos salários pagos a juízes e desembargadores baianos – muitas vezes maiores que vencimentos de ministro do Supremo, teto definido pela Constituição para qualquer tipo de funcionário público. Lembra Marinho que, além dos penduricalhos habituais, deveria haver os bônus peru de Natal, uísque de Natal, frutas natalinas (caríssimas!), champanhe, vinhos com premiação internacional, ceia, tudo caro. E não se pode esquecer que, uma semana depois, essas despesas se repetem. Coitados dos desembargadores que tiveram de se contentar com pouco mais de R$ 200 mil mensais! 

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