Cotidiano

Sina de morte


Pedinte é termo que serve para definir qualidade de pessoa que pede esmolas. Ser humano igual aos outros, que se espalha aos montes por esta vasta Nação de vastíssima desigualdade, povoando suas esquinas, sempre de chapéu na mão. O porquê de sua existência caótica em meio à sociedade da qual deveria fazer parte remete a um conjunto de circunstâncias que o condenaram a passar a vida na sarjeta, se alimentando de restos e de caridade. Logicamente que não cabe aqui elaborar pensamento mais detalhado sobre a origem de toda essa tragédia, que remonta tempos antigos.

A Nação, que muito lhe deve, por ora lhe dá as costas talvez no afã de vê-lo morto e, portanto, afastado de vez do seio da gente que de fato merece um lugar ao sol. Pelo menos é assim que me parece quando dou de cara com eles nos semáforos da vida, e inevitavelmente acabo por me sentir privilegiado, alguém que, de alguma forma, é parte de um meio que os exclui.

Mas logo caio em mim, desperto dos meus devaneios e decido que devo seguir em frente, já que o sinal acaba de abrir e o povo de trás está impaciente nesta hora da manhã. De qualquer forma, não me sinto confortável diante de quadro que não deixa a menor dúvida quanto à sanidade desta complexa estrutura formada por indivíduos, à qual se dá o nome de poder. Organização com autoridade para, numa simples assinatura, começar a mudar a vida de pessoas que perambulam pelas ruas, porque delas são filhas, uma vez que seus pais e até mesmo avós também jamais souberam o que é desfrutar da proteção de teto de verdade, ainda que humilde. São seres errantes, cujo entendimento acerca do que lhes vai ao redor é mais nítido e cruel do que percebe aquele que somente assiste de longe.

Portanto, nada há de mais trágico numa sociedade do que o tamanho da mendicância. Isso é sempre sintoma de doença grave que acomete a economia de um país. E a miséria aqui caminha de mãos dadas com o sujeito que, uma vez de posse da caneta, utiliza-a somente para fazer sorrir aquele que está nos bastidores do comando. A miséria anda, pois, na contramão da vida e é suja, é indecente, é imoral. E quando ela se abre num sorriso banguela e suplicante, não tem como não pensar em um ser humano igualzinho a mim e a você, tão digno quanto nós de desfrutar das boas coisas desta vida, que ora se prostra para suplicar uma moeda.

Mas não tem nada não. Inventaram agora uma maneira de se conter a pobreza extrema debaixo desta vasta lona. Pelo menos é o que registraram as câmeras de plantão recentemente. Câmeras que espiavam de alguma parede e flagraram um homem empunhando uma arma de fogo e utilizando-a contra uma moradora de rua que o abordou para pedir um dinheirinho qualquer. Isso mesmo! Como esmola recebeu dois tiros! 

Pronto. É assim que se resolvem os problemas nesta terra esquecida. E o caso nem fora noticiado como feminicídio, termo tão em moda nos dias de hoje, mas que não se aplica obviamente a mulheres cuja morte não desperta consternação ou revolta, uma vez que não fazem parte da sociedade.

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