Palavra do Leitor

Quando o muro caiu


Era 9 de novembro e o Brasil se preparava para o segundo turno das eleições entre Lula e Collor, quando a televisão anunciou a queda do muro de Berlim – o fim da parede de concreto e da divisão simbólica que separava o ‘paraíso’ comunista do ‘inferno’ capitalista. No entanto, as pessoas que queriam romper o muro, fazer desaparecer o muro, apagar o muro (mas não esquecer do muro), viam isso como a vitória da liberdade contra a violência brutal e desumana do totalitarismo. Mesmo assim, os capitalistas comemoraram como se fosse por eles (e para eles) que o muro caiu. Há 30 anos. 

Hoje, diante dos recordes de desigualdade social, nada do que vemos permite dizer que foi isso que realmente aconteceu. Da mesma forma que a vitória das ideias de Collor não sobreviveu a uma investigação do Congresso, a queda do muro só foi capaz de trazer novas perguntas ao mundo. 

E agora, sem muro, o que fazer para que a grande praça pública abrigue a todos, atenda a todos com o mínimo de dignidade? Pois é sabido que os países chamados de comunistas proporcionavam o mínimo de bens, embora seja óbvio que pão é fundamental para a fome, mas a fome de ninguém acaba com o pão. Continua com a vontade de criar, expressar-se, viajar, maravilhar-se, discursar, inventar, criticar, manifestar, ou mesmo ficar quieto em seu canto. 

Acontece que sem o pão, com a barriga roncando, e sem saúde, com o corpo todo doendo, aí as outras fomes se calam. O desafio do mundo é o da liberdade com garantias mínimas de vida digna. E nesse aspecto há ainda muitos muros levantados, muros verdadeiros como os da Cisjordânia e da fronteira do México, muros invisíveis como os que separam a pobreza da cidadania, a cidadania dos serviços públicos, os talentos da boa escola, os gênios do apoio, os cientistas de verbas e as minorias de reconhecimento.

Há 30 anos, o muro de Berlim caiu e Francis Fukuyama disse que não haveria mais conflitos capazes de transformar o mundo e que, ‘agora’, navegaríamos em mar de economias liberais contínuas. 

E 30 anos depois, nenhuma paisagem é mais conhecida do que a do mar revolto da economia mundial, da ascensão dos governos nacionalistas, dos discursos autoritários contra imigrantes fugidos das guerras em seus países. Também há fortes ventos no comércio, com novas medidas protecionistas, sobretaxas, acordos bilaterais, guerra comercial. Tudo aquilo que o capitalismo negava e pregava ser coisa do outro lado do muro. Mas o muro caiu. Mas o muro não caiu. Ou são as pedras do muro caído ainda a atravancar o caminho.

Daniel Medeiros é doutor em educação histórica e professor de história.


Pardos e pretos – 1

Parabenizo este Diário pela importante reportagem sobre a ausência de negros no primeiro escalão nas prefeituras da região: ‘Pretos e pardos são apenas 4% do secretariado do Grande ABC’ (Política, dia 24). Ao serem indagados sobre a falta de secretários negros, os chefes de Executivo normalmente argumentam que não se preocupam com a cor da pele, mas, sim, com a competência técnica. No entanto, os que estão no poder deveriam compreender que a sociedade como um todo só tem a ganhar quando há diversidade étnica nas empresas e nas administrações públicas.

Neusa Maria Pereira Borges

São Bernardo

Pardos e pretos – 2

Confesso que não gostei da reportagem intitulada “Grande ABC tem apenas sete negros entre 158 secretários’ (Política, dia 24). Devo adiantar que não sou preconceituoso e muito menos racista. Até porque sou casado há quase 50 anos com uma mulher da raça negra. Não concordo, em parte, com o pensamento da eminente professora de direito Marilene de Mello. No caso do secretariado focado pelo repórter Júnior Carvalho, lendo atentamente o texto, não acredito que isso represente racismo. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a respeito do quesito ‘cor e raça’, no Brasil existem as categorias brancos, pardos, negros, amarelos e indígenas. Os sete prefeitos foram eleitos democraticamente pelo voto popular. E cada um tem pleno direito de escolher para seu secretariado a pessoa de sua legítima confiança, que julgar ter competência para exercer a função, seja ela negra, branca, parda ou amarela. 

Arlindo Ligeirinho Ribeiro

Diadema

Mal-agradecido

O cara que do nada, alérgico ao trabalho e à leitura, sem eira nem beira, enricou e chegou ao topo. Em vez de agradecer a Deus e ao País, que lhe permitiram tal ascensão, cospe no prato que comeu. Ao invés de respeito, abertamente conspira contra os poderes constituídos e a ordem pública, inclusive incitando a desordem e o faz acintosamente, sem que seja sequer molestado. Tal despautério percorrendo o Brasil é tunga oficial aos impostos arrecadados, sob a rubrica de fundo eleitoral (R$ 2,5 bilhões) e fundo partidário (R$ 1 bilhão), enquanto faltam recursos para educação, saúde, segurança, infraestrutura e até para o 13º do Bolsa Família.

Humberto Schuwartz Soares

Vila Velha (ES)

2ª instância

A CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara Federal aprovou – por maioria dos seus integrantes – a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) para prisão em segunda instância. Isso é tudo o que a maioria absoluta dos brasileiros quer e exige dos seus parlamentares. Certamente estaremos contando com a extrema boa vontade dos presidentes da Câmara, deputado Rodrigo Maia, e do Senado, senador Davi Alcolumbre, ambos de consciência limpas e sem mácula alguma em seu passado que possa lhes preocupar. Que venha essa aprovação o mais rápido possível, para felicidade, alegria e segurança da Nação.

Benone Augusto de Paiva

Capital

Gleisi

O PT deve ser partido que fala aos surdos. Ao propor a construção de novo Brasil, está fazendo sua autocrítica, onde reconhece que foi ele que o destruiu. A eleição de Gleisi Hoffman confirma o seu papel de papagaio de pirata. Ela é a língua de aluguel de Lula, visto que, como deputada, está apagada e o cargo de presidente do PT lhe dá a visibilidade para se manter na mídia, perante seus militantes, mas é somente isso, produz apenas fumaça. Em que país se vê ministro da Justiça ser tão afrontado por essa senhora, que sabe estar enrolada pela Justiça? Gleisi tem foro privilegiado e está blindada. Se o PT é tão corajoso e se acha ético e moralista, por que não defende o fim do foro e a prisão em segunda instância? Mas não, prefere criticar os liberais, que entregam resultados, enquanto populista e esquerdistas jogam para a plateia. Quem não deve não teme, não é, senhora deputada? 

Izabel Avallone

Capital

Projeto

Como nem sempre só o Judiciário é lento para decidir neste País, também os governadores sofrem desse mal, quando protelam a perder de vista ações de reintegração de posse de áreas no campo, mesmo com determinação judicial. E Bolsonaro promete enviar ao Congresso projeto de GLO (Garantia da Lei e da Ordem), que permite que o próprio presidente da República acelere a decisão judicial e encaminhe a reintegração de posse. Será considerada constitucional essa lei? Não vai ferir a soberania dos governadores? E quem garante que esse governo vai cumprir como manda a lei a reintegração dessas áreas? Tomara que seja para valer.

Paulo Panossian

São Carlos (SP)

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