ABC da Economia

Leituras da pesquisa socioeconômica


A Pesquisa Socioeconômica, do Inpes/USCS (Instituto de Pesquisas da Universidade Municipal de São Caetano), é uma pequena joia para pesquisadores e interessados na economia regional do Grande ABC. Tem uma série histórica longa e revela aspectos bastante interessantes, como hábitos de consumo, renda e outras variáveis relativas aos habitantes da região. A pesquisa embasou uma nota técnica que publiquei recentemente no Observatório Conjuscs, em que fiz uma leitura dos efeitos da crise econômica (2014/2017) sobre a região.

A desaceleração da economia brasileira começa ainda no biênio 2011/12. No terceiro trimestre de 2011, o crescimento foi de quase 4% em comparação com o mesmo trimestre do ano anterior. Em 2012, o mesmo indicador apresentou crescimento inferior a 2%. Nos dois últimos trimestres de 2014, as variações passaram ao campo negativo, e o Brasil entrou em recessão técnica. No ano seguinte, a desaceleração converteu-se em crise, com longa duração.

Apenas no primeiro trimestre de 2017, depois de oito trimestres consecutivos de queda, a variação da produção voltou a ser positiva.

Como esperado, o mercado de trabalho também foi duramente atingido pela crise econômica. O desemprego na Região Metropolitana de São Paulo aumentou de 10%, em setembro de 2014, para 17%, no mesmo mês de 2017, segundo dados oficiais da Fundação Seade. O efeito mais perverso da crise fez-se sentir no aumento da pobreza, o professor Marcelo Neri estimou um aumento de 33% no número de pobres no Brasil, alcançando 23 milhões de pessoas.

Esta coluna retoma parte da discussão sobre os efeitos da crise, mas também especula sobre a evolução dos principais indicadores econômicos no futuro próximo. Por exemplo, a taxa de desemprego saltou de 8% para 16%, entre agosto de 2014 e o mesmo mês de 2015. Quando o emprego irá retomar o patamar pré-crise? Considerando que a taxa caiu 1% ao ano nos dois anos seguintes, mas que o cenário mais provável é de uma retomada lenta da atividade econômica, o patamar de 8% não será alcançado antes de agosto de 2021.

Entretanto, assinala o IBGE, a maior parte das contratações foi realizada no mercado informal. Isso também é verdade para a região. No Grande ABC, a informalidade, que era de 34% em 2013, passou a 40% dois anos depois. A evolução desta variável depende das condições econômicas, mas também está relacionada ao cumprimento da legislação. E como houve mudanças recentes na legislação trabalhista, espera-se um melhor desempenho tão logo a economia recupere fôlego.

É claro, o comportamento negativo do mercado de trabalho fez cair o nível de renda. Em 2017, quando a crise terminou, o rendimento bruto do trabalho principal ainda era inferior àquele de 2011, isso é, R$ 1.911 contra R$ 2.185. Quando comparado ao pico da série, em 2014 (R$ 2.825), a queda alcançou assustadores 33%. A mediana também caiu; em fevereiro de 2014, metade dos rendimentos era menor que R$ 1.870, três anos depois, a metade não alcançava R$ 1.512,45.

Além da recuperação da atividade econômica, outro fator deve ser considerado para a recuperação do rendimento do trabalho, a mudança estrutural no Grande ABC. Se em fevereiro de 2014 a parcela do pessoal ocupado na indústria era quase um terço do total (32%), em fevereiro de 2017, essa parcela atingia 27%. O Grande ABC experimenta uma redução relativa da sua indústria. É sabido que este setor remunera melhor que o comércio ou os serviços, daí que a retomada da economia pode não significar uma retomada simultânea do rendimento.

Há muito tempo, é detectada uma mudança qualitativa na ocupação regional, com perda relativa da indústria. No horizonte próximo, nada autoriza supor que as novas ocupações virão em serviços mais sofisticados e mais bem remunerados – políticas públicas poderiam ser implementadas para a atração destes segmentos para o Grande ABC. Tampouco que o investimento industrial será suficientemente grande para inverter a tendência das últimas décadas. Assim, a recuperação do rendimento ao ponto pré-crise deverá levar mais tempo do que o nível de emprego, talvez em meados dos anos 2020. Vislumbra-se uma década perdida, desde 2011, neste indicador.

Durante a crise, o percentual daqueles que declaravam que a renda nunca era suficiente mais do que dobrou, passando de 3,8% para 9,9%.

O período agudo da crise passou, mas como a retomada é lenta, o momento é de perseverar, talvez com menor rendimento, em ocupação informal. Não há sinais de que a economia, no futuro bem próximo, amplie significativamente nosso leque de oportunidades. 

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