Setecidades

Orgulho de ser alfabetizador


Nascido em Água Branca, cidade da Paraíba com aproximadamente 10 mil habitantes, José Alex Trajano dos Santos, 24 anos, se mudou para Mauá em 2004, quando a mãe se divorciou do pai agressor. No município, o menino aprendeu a “ver o mundo”, ou seja, a ler e a escrever, aos 9. E, aos 14, incomodado com a realidade do entorno, começou a alfabetizar pessoas da região. Até hoje, pelo menos 500 passaram pela sala de aula do educador.

“Analisei o cenário da minha casa, onde minha mãe e meu padrasto não sabiam ler, e decidi ajudar as pessoas, já que a alfabetização leva autonomia aos cidadãos”, conta o professor. “No começo, poucos acreditavam no meu trabalho, mas com a ajuda do meu padrasto construí um pequeno espaço de madeira para funcionar como sala de aula, onde, no início, ensinava no chão”, lembra.

Com o passar do tempo, a demanda aumentou e, em 2012, o jovem de então 16 anos pediu emancipação para que pudesse montar a Associação Comunitária Educacional Cícera Tereza dos Santos. “Com a ajuda de uma professora de matemática muito querida, montei um estatuto e pude formalizar a entidade que, nesta época, já tinha duas salas de 20 alunos cada”, relata. Graças à doação de uma unidade de ensino do município, a escola de Trajano passou a contar com mobiliário.

Curiosidade é que a associação foi batizada com o nome da avó de Trajano, que foi “uma mulher espetacular que lutava pelo que acreditava”. Sem nunca ter aprendido a ler ou escrever, a paraibana teve dez filhos que não concluíram os estudos. “Vivíamos da roça, então, ou eles trabalhavam na lavoura para não morrer de fome ou estudavam”, relata.

Ainda que o pedagogo lecione para jovens e adultos, ele observa que a média de idade dos seus estudantes aumentou. “O público envelheceu e tem entre 60 e 85 anos. Eles enxergam na alfabetização oportunidade para se reintegrar na sociedade”, afirma. “Imagina passar a maior parte da vida sem conseguir pegar um ônibus, sem conseguir ler a Bíblia e, em um mundo informatizado, como viver sem saber ler?”, questiona. “Ao assinar o nome, a pessoa ganha identidade e poder para cobrar direitos e fazer a própria leitura do mundo.”

Por causa do envelhecimento dos alunos, o educador começou a realizar trabalhos diferenciados, por meio de palestras e oficinas com temas variados. “Convido profissionais da saúde e advogados para tratar de assuntos relevantes, como Previdência e qualidade de vida”, assinala. Inclusive, o Seminário da Pessoa Idosa foi criado e a quarta edição será neste ano.

Mesmo alfabetizando há quase oito anos, Trajano se formou em pedagogia apenas em 2018, aos 23 anos, pelo Centro Universitário Anhanguera, em Santo André. “Fui um menino pobre, o primeiro da família a terminar o ensino médio e foi a realização de um sonho me formar na faculdade”, assegura ele, que atingiu o objetivo graças à bolsa de estudos.  E, segundo o professor, o mestrado já está nos planos.

Neste ano, as atividades da associação foram interrompidas, pois o imóvel onde as aulas eram ministradas foi desapropriado. Por este motivo, Trajano está se dedicando a buscar parceiros para que possa continuar o trabalho. Ele assegura que os alunos seguem ligando para saber se há previsão de retorno das atividades e que novos interessados surgem diariamente. “Temos que lutar por uma País mais justo, onde a educação dá forma a toda sociedade.”

Quase 15% dos professores da região não têm ensino superior

Dados do Censo da Educação de 2019 compilados pelo Observatório da Educação da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) mostram que quase 15% dos 30.927 professores da educação básica das redes pública e privada do Grande ABC não têm ensino superior completo. Entre os que são licenciados em alguma disciplina ou bacharéis, 54,9% têm apenas graduação.

A lei brasileira determina que todos os profissionais tenham curso superior e que os alunos que não contam com professores com a formação adequada estão em situação de desigualdade. Pesquisadores da área de educação observam, ainda, que a atualização constante é vital no processo de aprendizagem dos estudantes, mas que faltam tempo e recursos para que os educadores possam se capacitar.

As mulheres são o maior contingente entre os profissionais de educação básica na região, e respondem por 83,4%. 

DESAFIO

A região tem 66.030 pessoas sem saber ler e escrever. Embora existam iniciativas voltadas aos moradores que desejam aprender o básico, como é o caso da EJA (Educação de Jovens e Adultos), o poder público tem dificuldade em atrair e manter os alunos.

Comentários


Veja Também


Orgulho de ser alfabetizador

Nascido em Água Branca, cidade da Paraíba com aproximadamente 10 mil habitantes, José Alex Trajano dos Santos, 24 anos, se mudou para Mauá em 2004, quando a mãe se divorciou do pai agressor. No município, o menino aprendeu a “ver o mundo”, ou seja, a ler e a escrever, aos 9. E, aos 14, incomodado...

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:
Voltar