ABC da Economia

A conjuntura automotiva


Os números recentemente divulgados pela Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) mostram que a produção nacional de veículos leves, caminhões e maquinas agrícolas e rodoviárias, no primeiro semestre de 2019, comparado com o primeiro semestre de 2018, cresceu 2%. O crescimento é positivo, embora tímido. Ele foi favorecido pela produção de caminhões (13,1% no período), mas prejudicado pela forte queda das exportações em geral (-37,9%), com destaque também para a redução das vendas externas de caminhões (-52,6%).

A forte retração das exportações tem relação com a crise do maior mercado consumidor da produção automotiva brasileira, que é a Argentina. Outro fator é o acirramento dos conflitos internacionais, que impacta negativamente a cadeia de valor global automotiva. As empresas têm hoje mais dificuldades de organizarem seus fluxos de suprimentos em um mundo em crise. Carros, peças, insumos e outros produtos manufaturados de países que não possuem empresas multinacionais próprias – como o Brasil – terão dificuldades de entrar em diversos mercados em razão do crescimento das barreiras não tarifárias, em virtude da expansão dos conflitos.

Dificilmente ações nacionais conseguem reverter o cenário de crise internacional. O grau de controle de um país em relação às suas exportações é limitado, especialmente no curto prazo. Já ajudaria bastante se o governo brasileiro buscasse minimizar os conflitos e valorizar a diplomacia. O Brasil sempre foi muito respeitado no campo da relações internacionais, por sua postura independente e pela busca da harmonização das relações com diversos países. Estamos perdendo o legado construído ao longo de décadas nesta área.

O Grande ABC, grande polo exportador automotivo do País, deveria aproveitar o momento para discutir uma agenda de trabalho envolvendo empresas, Consórcio Intermunicipal, Agência de Desenvolvimento Econômico, governo do Estado, sindicatos de trabalhadores, universidades, entre outros, que favoreça a ampliação das exportações, sobretudo as de média e alta complexidade tecnológica. Estas requerem maior inovação e tecnologia, investimento em P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), novos laboratórios, equipamentos e capacitação de mão de obra.

No que se refere às vendas internas, houve crescimento de 9,9% dos licenciamentos de autoveículos no primeiro semestre, também com caminhões se sobressaindo (expansão de 41,4%). No caso dos veículos leves, a expansão foi de 11,7%. No entanto, o emplacamento de agosto sofreu queda em relação a julho (-0,7%), o que pode sinalizar uma inflexão e nova retração das vendas internas nos próximos meses. As medidas relativas ao FGTS não devem ter impacto nas vendas internas de veículos, em razão do baixo valor envolvido em comparação com os valores referentes ao financiamento de um automóvel. As taxas de juros caíram, mas ainda estão muito altas e a queda está muito aquém do esperado pelo mercado. As incertezas reinantes acabam inibindo as decisões de consumidores.

Há um processo de reestruturação da produção em todo o mundo. O conflito entre Estados Unidos e China ‘bagunça’ bastante as cadeias globais de valor. Ainda não está claro a resultante deste processo. Os projetos de indústria 4.0 (combinação de uma série de tecnologias como robótica, internet das coisas, inteligência artificial, impressão 3D, big data) vêm sendo implementados gradativamente. Há mudança de perfil do mercado consumidor. Os mais jovens preferem o uso compartilhado do veículo à ‘propriedade’ e à ‘posse’ do veículo. Debate-se a mobilidade nas cidades. No mundo, as empresas industriais têm perdido espaço para as empresas da área de informação e comunicação, como Google, Microsoft, Apple, Facebook, entre outras, assim como para o mercado financeiro.

O Grande ABC está novamente no olho do furacão das mudanças. O fechamento da fábrica da Ford expressa um resultado dessas mudanças. Mas o processo é contraditório. A adoção da indústria 4.0 pode apresentar uma saída para a indústria brasileira, inclusive no Grande ABC. A logística, que é um diferencial competitivo da região, precisa sofrer investimentos de modernização. É essencial uma política industrial local baseada no modelo de tríplice hélice, no qual empresas, universidades e governos participam em conjunto de projetos estratégicos. Temos uma inteligência importante na área automotiva. É importante intensificar a aproximação entre as universidades, as empresas e a gestão pública, para potencializar as soluções. 

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