Setecidades

Andreense ainda carrega as marcas de uma tentativa de feminicídio


O dia deveria ser de festa e comemoração. Nanci Aparecida Rosa completava 53 anos em 26 de outubro do ano passado e escolheu o bar na Rua Guadalupe, no Parque das Nações, em Santo André, onde trabalhava com o marido, o comerciante Francisco Everardo Felex Quirino, 54, para celebrar. Mas, conforme a noite foi avançando, bêbado, Kapote, como era conhecido, viria a atingir a mulher com quatro tiros, dirigir até um bairro próximo e, segundo testemunhas, matar o chaveiro Francisco Pinheiro dos Santos, 56, com três tiros.

Nanci sobreviveu a uma tentativa de feminicídio – crime que em 2018 fez 32 vítimas e neste ano ao menos oito no Grande ABC –, mas vai carregar para sempre no corpo e na alma as marcas do episódio. Atingida na mão, no pé, na perna e na virilha, a comerciante tem dificuldades para andar e movimentar a mão esquerda, além de ter perdido parte da audição. Passou dez dias internada, entre a vida e a morte. Usou fralda, cadeira de rodas, muleta e bengala. Apesar do trauma, seu desejo não é de vingança. “O que mais quero é me libertar disso tudo. Dessa calúnia tão grande que fizeram contra mim. A dor dos tiros só senti depois. Mas a dor dessa mentira ainda sinto”, comentou.

A mentira à qual Nanci se refere foi também o motivo do atentado que sofreu. A acusação de que mantinha com o chaveiro, morto pelo seu marido, relacionamento extraconjugal. “Nos conhecíamos há mais de 30 anos, éramos amigos, ele também era amigo do meu marido. Nunca houve nada entre a gente e ele morreu inocente”, lamentou. Kapote, com quem foi casada por 12 anos, segue foragido e está respondendo a processo por homicídio qualificado e tentativa de feminicídio. O MP (Ministério Público) pediu em 12 de setembro a suspensão do processo e do prazo prescricional e está aguardando decisão do TJ (Tribunal de Justiça). Ele era assessor do vereador de Santo André Sargento Lobo (SD).

A comerciante lembrou que, quando foi acusada de ter um caso, pela mulher do seu suposto amante, saiu de casa. Na ocasião, foi agredida fisicamente e passou a ser difamada pelo bairro. Algumas semanas depois, no entanto, a mesma mulher retornou ao bar e desmentiu a história para Kapote, que, arrependido, pediu que Nanci voltasse para casa. “A gente estava bem, mas sempre que bebia, jogava isso na minha cara. Sempre foi muito ciumento e fechado, dava mais ouvidos aos amigos e conhecidos do que à própria família”, completou.

Desde quando foi baleada, Nanci não viu mais seu agressor. Com o auxílio de um filho adulto que mora no Interior, entregou a casa onde o casal morava e o imóvel onde mantinham o bar, ambos alugados. Alguns pertences foram vendidos para pagar a medicação que agora precisa utilizar. Ainda não há previsão para alta médica, pois quase um ano depois, segue em tratamento.

Foi por meio do bar, inclusive, que os dois se conheceram. Nanci estava desempregada e aceitou fazer um bico como atendente. A relação profissional virou um casamento. “Também tivemos bons momentos. Mas ele sempre foi muito fechado e muito ciumento. Era difícil fazer algumas coisas, almoçar com a minha família”, citou. “Em nenhum momento falei mal dele. O amor era tanto que não quero vingança. Só quero que ele saiba do erro que cometeu. O rapaz que morreu inocente e sempre me respeitou e à mulher. Não quero que ninguém me olhe como a errada dessa história”, finalizou. 

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