Cultura & Lazer

Programa de Gilberto Gil volta em nova temporada


Quando foi chamada para apresentar pela primeira vez um programa infantil na extinta TV Manchete, Xuxa Meneghel estranhou. Eram os anos 1980, vivia-se no Brasil a abertura política do finzinho da ditadura, e a loura tinha posado nua para as principais revistas masculinas brasileiras. Isso, avaliava, não a credenciava junto aos pequenos. "O (então diretor da TV Manchete) Maurício Sherman me viu no programa ETC, do Ziraldo, e me chamou para fazer um programa infantil", conta ela. "Pensei: ''Esse cara está doido, eu estou numa revista masculina''. E perguntei para ele: ''Você está brincando?'' E ele respondeu: Não. Você tem uma mistura de Peter Pan com sorriso de Doris Day e sensualidade de Marilyn Monroe. Acho que tanto as crianças quanto os adultos vão gostar''."

A entrevista na qual Xuxa conta sua estreia no Clube da Criança será a primeira da 2ª temporada do programa de entrevistas de Gilberto Gil no Canal Brasil. Amigos, Sons e Palavras volta ao ar na segunda-feira, 9, às 22h30, dando início a uma nova sequência de treze entrevistas - uma por semana. A partir desta sexta, 6, os cinco primeiros programas estarão disponíveis no Canal Brasil Play e no Now.

Gil aproveitou a entrevista com Xuxa para esclarecer uma estranheza do passado: "Falei (com ela) de um certo mal-estar que anos atrás acabou se colocando entre nós por causa da música Neve na Bahia, onde faço um discurso de ''Xuxa bruxa, ducha de água fria no fundo do meu plexo solar''." Segundo Gil, tratava-se de uma crítica ao personagem encarnado pela apresentadora e não sobre ela mesma. "Me lembro de uma criança naquela época, filha de um amigo, dizer ''como você chama a Xuxa de bruxa?''. O mesmo tipo de sombra que se colocou entre mim e Xuxa. Algumas coisas da conversa remontam a isso, uma visão crítica que poderia se colocar em relação à figura dela, não à pessoa dela", afirmou Gil.

Depois de Xuxa, os entrevistados serão o jornalista Pedro Bial (em 16 de setembro), Preta e Bem Gil, dois dos oito filhos do cantor (23 de setembro), a atriz Lilia Cabral (30 de setembro), o músico Arnaldo Antunes (7 de outubro), o político Alfredo Sirkis (14 de outubro), a atriz Patricia Pillar (21 de outubro), o diretor de teatro José Celso Martinez Correa (28 de outubro), a jornalista Flavia Oliveira (4 de novembro), o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (11 de novembro) e a jornalista Andrea Sadi (18 de novembro).

As duas últimas entrevistas ainda não foram gravadas, e os convidados não estão confirmados, mas devem ser a cantora Ivete Sangalo e o rapper Emicida.

Gil elogiou a liberdade que o Amigos, Sons e Palavras lhe permitiu, sem um roteiro e temas predefinidos. "Fiquei muito satisfeito com minha possibilidade de flutuar, levar a conversa para onde eu quiser, explorar assuntos próprios de cada entrevistado, ficar à vontade."

Cada programa tem 25 minutos e começa com Gil interpretando uma música que tem relação com o entrevistado - a canção é o ponto de partida para as perguntas. Para Xuxa, Gil cantou Sítio do Picapau Amarelo.

Entre os entrevistados estão amigos de longa data de Gil, como Pedro Bial e Patricia Pillar, e personalidades com quem o cantor não tem ligação pessoal, como Lilia Cabral. As entrevistas, segundo Gil, são conversas sobre temas "existenciais", diferentes da maioria dos programas do gênero, em que há um interesse "jornalístico".

"A Andrea Sadi, por exemplo, é jornalista e, quando faz entrevistas, direciona as perguntas conforme o interesse jornalístico. Meu foco é diferente", afirma. O foco distinto não impede Gil de extrair confissões curiosas, como Bial dizendo que sonhou com um embate entre o presidente Jair Bolsonaro, que representava "o profano", e Gil, que surgia no sonho representando "o sagrado". "Não sei fazer a leitura do meu próprio mundo psíquico, imagine fazer o do Bial", despistou Gil.

Quanto ao atual presidente, aliás, Gil se mostra resignado. "Não me surpreende, Bolsonaro continua sendo quem ele é, quem ele sempre teve interesse em demonstrar ser", afirma. Mas Gil pondera que a situação pode mudar "conforme a maré da política".

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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