Cotidiano

Em nome da liberdade


Brian tem nome de gringo, mas é brasileiro. Carioca, para ser mais exato. Mora na favela, vive de biscates e não se dobra ao crime, de jeito nenhum, apesar do assédio constante daquele que necessita de alguém ágil, negro e menor, para distribuição de drogas. Em nome da liberdade, no entanto, ele segue altivo, determinado.

Brian é o caçula de uma mulher de fibra que perdeu seu primogênito, filho honesto, trabalhador, bom-moço, que a polícia matou antes mesmo de lhe pedir documentos. As explicações de sempre: algo deu errado na averiguação, o suspeito empreendeu fuga, e por aí vai.

Isabel tem outro filho. Este pegou cadeia, porque sucumbiu à pobreza e se rendeu à conversa fiada de quem lhe prometeu mundos e fundos. Não foi julgado ainda, por isso, não tem a menor ideia de quando deixará o inferno em que se meteu.

Mas Brian segue ao lado da mãe. É o seu orgulho. Sonha ser advogado um dia, embora o desânimo cale fundo quando pensa no quanto é difícil isso de ser advogado. Sabe que a realidade não há de contribuir muito para o sucesso de sua empreitada. A escola onde cursa o ensino médio está fechada, e não há previsão para a retomada das aulas, considerando que professor é figura escassa no pedaço. Brian não os culpa, afinal, quem haveria de enfrentar bandido em escola eternamente depredada só para faturar o pão de cada dia?

Mas o menino anda mais triste agora. Perdeu a conta de quantos jovens como ele desapareceram em meio ao torvelinho de ódio que permeia seus dias e suas noites, ali no seu mundo. Mundo diferente, mundo distante daquele que desfila de iate pelas águas da baía. 

E o estampido das armas é presença constante em sua cabeça. Desde pequeno, convive com ele e com os corpos que vão ficando pelo caminho. Semana passada, por exemplo, ajudou a sepultar uma amiga querida, com quem conviveu na escola desde o fundamental I. Uma bala perdida deu cabo da pobre. Lembrou-lhe, inclusive, o dia em que, ele mesmo, teve de se esconder atrás de uma velha máquina de lavar, abandonada no meio-fio, para tentar escapar da chuva de balas que vinham de todas as direções. 

Ontem soube do garoto que ia para o treino de futebol quando a polícia o deteve. Não se sabe ao certo o que aconteceu, somente que o menino acabou baleado. Brian não foi ao enterro. Conhecia-o de vista.

Não é difícil, pois, compreender o medo que Brian carrega de andar pelas vielas da comunidade. Sente verdadeiro pavor de helicópteros. Na verdade, não suporta o ruído de seus rotores. Ruído da morte, que vem de máquina que carrega gente que tem a sua aparência, embora não o mesmo coração. 

E, por causa do perigo que vem do ar, há escolas que colocam em seus telhados letreiros que informam que ali funciona a educação. Meio desesperado de se manter funcionando o ensino, que vai de mal a pior lá e em todo o País. E Brian não entende o porquê de ser necessário informar que naquele lugar correm crianças, que não têm a menor ideia do significado de políticas públicas, guerras e pessoas que matam pessoas, porque possuem armas e o direito de usá-las no lombo de qualquer um que caminhe no solo triste daquele lugar. 

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