Cultura & Lazer

Tiro disparado há 110 anos cessou a vida de Euclides da Cunha


A história mais emblemática e trágica envolvendo a literatura brasileira tem nome e sobrenome: Euclides da Cunha. Foi na manhã do dia 15 de agosto de 1909 que ele saiu de casa com o objetivo de lavar sua honra. Pegou um revólver Smith & Wesson calibre 22 emprestado e seguiu de trem rumo à estação de Piedade, onde buscaria seu ‘inimigo’. Como registraram os jornais da época, dizia estar disposto ‘a matar ou morrer’.

Apenas a segunda parte da sua frase se concretizou. O escritor entrou de súbito na casa de Dilermando de Assis, cadete do Exército que era amante de sua mulher, Ana, com a intenção de acabar com sua vida – a ocasião o levou a atirar também no irmão do militar, Dinorah, que perdeu os movimentos. Mas terminou a história morto por quatro tiros – o fatal no pulmão –, aos 43 anos. O episódio ficou conhecido como Tragédia de Piedade e completa hoje 110 anos.

“É desnecessário dizer que essa tragédia abalou o círculo dos amigos, familiares e literatos porque perdemos naquela ocasião um brilhante autor de 43 anos. Uma perda logicamente irreparável para uma pessoa do talento intelectual de Euclides. Ali também começa uma certa mitologia em torno da vida dele que até hoje se explora, como foi feito em séries televisivas e em alguns livros de integrantes da família da mulher dele. Esse episódio tão trágico ainda volta a ser repetido toda vez que fazemos alguma homenagem para esse grande autor nacional”, diz o professor de estudos latino-americanos na Universidade da Califórnia-Davis, dos Estados Unidos, Leopoldo Bernucci, especialista na obra de Euclides. Inclusive, recentemente, ele lançou a quinta edição comentada e a mais completa do clássico Os Sertões (Sesi SP Editora, 928 páginas, R$ 120).

A vida do escritor, no momento em que foi cessada, diz o especialista, passava por uma fase muito delicada. “Digo isso porque estava desencantado com a República (que havia defendido), também com o que o progresso estava fazendo. Para dar um exemplo, a cidade, para ele, já se tinha tornado insuportável, inóspita e degradada. Euclides então fala de deixar a cidade e morar no sertão, ir para a zona rural”, explica Bernucci. Quatro anos antes de morrer, ele já se se sentia melhor na natureza: ficou um ano na Amazônia.

E essa proximidade com o meio ambiente é um dos fatores, segundo o professor, que torna sua obra tão atual – não só o monumental Os Sertões, como também Contrastes e Confrontos (1907), À Margem da História (1909) –, mesmo após mais de um século de sua partida. “Nos ensaios e nos Sertões a gente percebe, de um modo geral, a sua defesa dos ideais democráticos. Folheando (o livro) vamos ver a crítica que ele faz ao Tenente Moreira César, por exemplo, bastante truculento, cruel, autoritário. Com ele, logicamente, vai uma crítica dirigida a Floriano Peixoto (segundo presidente do Brasil). também aparece no ensaio O Marechal de Ferro.”

A outra atualidade discursiva do autor é a preservação do meio ambiente. “Em um ensaio chamado As Cartas, de 1904, ele trata das ruínas deixadas pela indústria da mineração em Minas Gerais. Passando alguns meses em Campanha, em 1894, ele testemunha ao vivo como o lugar estava em estado lamentável. Essa visão nos faz lembrar algo que aconteceu há pouco em Mariana e mais recentemente em Brumadinho.” Euclides também publicou um ensaio chamado As Secas do Norte em que mostrava a preocupação com o desequilíbrio climático e como as condições atmosféricas que estavam influindo na vida dos indivíduos. “Essa crítica aos desastres ambientais é muito forte e atual porque está muito perto de nós ainda. E também esta muito próxima a questão do fanatismo religioso, que é central na figura de Antonio Conselheiro.”

Os Sertões foi escrito em 1902, cinco anos após o término da Campanha de Canudos (1896-1897), ocorrida no interior da Bahia, que opôs o Exército e o Governo brasileiros ao movimento de cunho social, político e religioso liderado por Conselheiro. Foi bastante discutida durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), ocorrida em julho e que teve como homenageado Euclides.

CLÁSSICO
A quinta edição deste livro possui cerca de 3.000 notas, que auxiliam no esclarecimento do difícil vocabulário euclidiano. “A ideia inicial dessa publicação foi de alguma forma facilitar para leitores menos especializados a leitura de um texto que não é muito palatável. Os Sertões sempre foi um clássico, mas apresenta alguns desafios”, explica Bernucci.

Outro livro que ajuda a elucidá-lo é A Terra, o Homem, A Luta – Um Guia para a Leitura de Os Sertões de Euclides da Cunha (Três Estrelas, 103 páginas, R$ 37), de Roberto Ventura.  

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