Cultura & Lazer

Peça ‘As Siamesas’ discute as tensões da convivência com o outro


Soraia (Carla Zanini) e Carmem (Carol Duarte, de São Bernardo) são gêmeas siamesas que nasceram conectadas pela bacia. Só que elas têm etnias diferentes e simbolizam a união da pátria. O parto das duas deu-se no país fictício Molvânia, onde a primeira representa a parte molva e a segunda a etnia bulga. Um golpe de estado acomete o local e o símbolo de união representado por elas perde o sentido.

Este é o enredo da peça As Siamesas – Talvez eu Desmaie no Front, que estreia sexta-feira, às 20h, no Teatro de Contêiner, em São Paulo. Com texto de Lucienne Guedes Fahrer e direção de Fernanda Carmago e Felipe Rocha, a montagem discute as tensões da convivência com o outro, situação que conversa com a realidade atual do Brasil.

O embrião da peça, cuja proposta cênica teve início em 2016, apareceu em artigo de jornal encontrado por Carol e Carla em 2015 sobre o caso das irmãs Hilton, siamesas nascidas no século XX que circularam os Estados Unidos em turnês circenses. “Uma das irmãs morreu e a outra ainda ficou viva por cerca de três dias, mas tendo a certeza que morreria em breve, já que naquela época não havia a possibilidade de alguma cirurgia separar seus corpos”, conta Carol.

Para a atriz, a primeira versão da peça chegou à sua maturidade agora, em 2019 – com um Brasil ressignificado e de tensões políticas mais acentuadas do que o País de três anos atrás. “Hoje vemos essa divisão clara, uma onda conservadora imensa chegando e que tem de conviver no mesmo lugar, andar na rua. Como a gente negocia? Como resolvemos esses problemas? Sempre, ao longo da história, uma das partes (que brigam) morre e falando delas: se uma explode outra explode junto . O que um dos lados propõe hoje no País é a extinção de certos grupos na sociedade, entre eles o LGBT, as políticas públicas para presidiários, há o racismo. Então como a gente coexiste, é possível um diálogo? É aí que o espetáculo entra, com essas perguntas”, analisa a atriz de São Bernardo, que ganhou notoriedade na TV como a Ivana, jovem transsexual da novela da Globo A Força do Querer (2017).

Para Carol, este é o papel do espetáculo: fazer refletir. “A arte tem o poder de questionar e, por isso, é vista hoje como uma inimiga. Fazer perguntas incomoda, faz pensar”, acredita.

“O astrofísico Carl Seagan declarou uma vez que estarmos sozinhos no universo ou não duas possibilidades igualmente aterrorizantes. Trouxemos essa questão para um âmbito mais próximo, onde temos de negociar o tempo todo com pessoas de perspectivas muito diferentes, sendo que muitas delas desejam anular identidades e expressões diferentes das delas”, acrescenta Carla. Mais atual impossível.

Os elementos cenográficos se resumem a um banco, duas mesas dos operadores técnicos, um microfone e as bandeiras das etnias molva e bulga. Também há um trabalho de composição sonora e musical que foi feito para a peça com o objetivo de tecer as cenas. “A música e o som servem à narrativa com a principal função de localizar o universo simbólico da encenação e criar um background expandido fabular que a peça constrói. O hino fictício da Molvânia, as músicas de programas de TV e noticiários, somados com uma sonoplastia mais realista, ajudam a materializar o país e a situação em questão”, complementa o sonoplasta da peça, André Teles.

As Siamesas – Talvez eu Desmaie no Front – Teatro. No Teatro de Contêiner Mungunzá – Rua dos Gusmões, 43, em São Paulo. Até dia 28, sexta, sábado e domingo, às 20h. Ingr.: R$ 30.  

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