Cotidiano

A menina e o cachorrinho


 Precisava pensar numa crônica bem bonitinha para a minha coluna. Um texto que falasse somente de coisas boas como o sol da manhã de inverno que vem para aquecer a Terra, fustigada pelo frio da noite. Um texto em que o feio e o tosco não encontrassem espaço para se expressar. Somente isso!

Tenho escrito muito nos últimos tempos, mas percebo nas minhas palavras um semblante de desencanto frente a esta sociedade embrutecida. E sentimentos duros assim acabam, volta e meia, por sabotar a minha inspiração e impedir-me de encontrar o tom exato do discurso, que confere à minha crônica o sabor poético das coisas simples da vida. E o desalento para com tudo isso tem relação com a poesia que anda mesmo arredia, e me foge como o diabo foge da cruz. E por que me escapa pelos vãos dos dedos, se a percebo por toda a parte, a espiar-me de soslaio? Talvez seja culpa da atmosfera tóxica que respiramos nos dias de hoje, esse desassossego do meu coração, que a mantém longe.

Confesso que não é fácil lidar com o lado cruel dessa existência de percalços, já que falar sobre ela e expor sua face, é o meu ofício quando tomo nas mãos a pena ávida que uso para colocar nesta atraente e branca folha digital, toda a minha inquietação.

Mas onde está a poesia, afinal de contas? O que será de tudo isso se ela e os poetas se forem? Eles sabem como traduzir a linguagem das águas, dos ventos, do sol, das rochas desgastadas pela ação do tempo... E o mar? Ah! O mar! Este que bate incansavelmente contra o maciço terrestre, rugindo feito fera que brada o seu inconformismo com a atuação humana na Terra.

Entretanto, paradoxo dos paradoxos, fui surpreendido, durante este torvelinho de pensamentos, pela poesia, matreira como só ela, que brindou-me com uma cena num cruzamento movimentado da cidade, em que motores, buzinas e pressa conduzem o cotidiano das pessoas. De um lado e de outro, somente a frieza do concreto que se ergue às alturas, impondo respeito e se contrapondo ao próprio conceito de vida.

Uma menininha que, de súbito, emergiu em meio ao frenesi de gente grande, encheu-me de encantamento e botou em xeque a minha constatação de que a poesia se fora para sempre. Por certo que a divina providência se compadecera de mim e me presenteara com aquele quadro.

Bem agasalhada por causa do frio, ela descia com dificuldade, do alto de uma sarjeta para o meio fio. Segurava a mão de um homem, ao que tudo indica, seu pai. Na outra mão, uma pesada mochila de escola, com rodinhas, era de fato um desafio para alguém do seu tamanho. Por isso, ao descer, perdeu o controle, e a fez capotar. Nem se deu conta do sinistro, a pequena. Talvez tivesse consciência do papel de pai, que consiste em cuidar de filhas e de mochilas acidentadas. Continuou, pois, a andar, indiferente aos tropeços que só começam. Só lhe interessava, naquele momento, o cachorrinho que ia à frente, conduzindo pai e filha.

Correndo para lá e para cá, esticando a corda, em tudo ornava com a figura humana, no frescor da idade, que aparentava ser a dona do próprio narizinho. Um completando o outro, e ambos trazendo o ensejo de dias melhores.

Pronto! Encontrei ali a poesia da vida! Há muito escondida, com medo do mundo.

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