Cultura & Lazer

Hardcore para não colocar defeito


Coragem de colocar os dedos – e os riffs de guitarra e refrões – nas feridas é a marca da vez do quarteto andreense de hardcore Statues On Fire. Há seis anos na estrada e formado por veteranos do cenário musical, o grupo, que conta com Andre Alves (voz e guitarra), Lalo (contrabaixo), Régis Ferri (guitarra) e Alex Silva (bateria), apresenta seu terceiro disco, Living In Darkness, que ganha as plataformas digitais ilustrado por 13 composições autorais, resultado de oito meses de trabalho.

Alves acredita que a arte tem como papel colocar o dedo nas feridas e promover o ‘pensar’. E assim o fez. O álbum toca em diversos assuntos: política, saúde, assassinato, perda e reflete sobre outros pontos. “Como cantamos em inglês, nossas letras, apesar de servirem à atual situação política do Brasil, servem para qualquer lugar. Temas de protesto sobre nossa real situação e letras de cunho pessoal circundam este trabalho”, explica.

Uma das faixas leva o nome de Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro no ano passado. “É inacreditável que pessoas comemorem um assassinato, que comparem uma defensora dos direitos humanos com uma cadela, que criem fake news em cima disso”, diz Alves. Vivemos tempos difíceis, em que as pessoas se blindam atrás das redes sociais e dizem o que realmente pensam. Comentários racistas, homofóbicos, e quando se trata de política, não possuem embasamento algum”, reflete.<EM>

Outro alerta que a banda faz é para um problema de saúde, na faixa que dá nome ao disco (que em português significa vivendo na escuridão). “Essa letra, em específico, é sobre depressão. Perdi alguns amigos para essa doença, porém, o título faz um paralelo também com a atual situação que vivemos politicamente aqui no Brasil”, diz o compositor.

Por viajar muito e já há algum tempo ao Exterior, nem a imigração passa despercebida pelos músicas da banda. É disso que fala Rescue Me. “Vimos muitos cartazes pela Europa com o dizer: ‘Refugee Welcome’ (refugiados bem-vindos). Porém, quando inseridos na sociedade, são muitas vezes excluídos, por sua etnia, cor da pele ou cultura. Acontece aqui também, com os dizeres que eles trazem bagunça, roubam empregos, como se houvesse muitos para serem roubados”, diz o artista.

A produção, assinada por Marcello Pompeu e Heros Trench, não deve nada para a de bandas do Exterior. A receita sonora original apresentada pelo grupo é aquela já conhecida de seus fãs, com refrões grudentos e melodias bem preparadas, como em Times Stand Still. Mas agora há músicas mais rápidas, em relação aos outros álbuns, e guitarras mais aparentes também, como no tema Failure Misunderstand, que abre o trabalho.

“Fazemos as faixas inspirados em música pop, mas voltados ao hardcore. Nada melhor do que aquele melodia ‘X’ ou ‘Y’ ficar na sua cabeça por semanas. Te faz ter uma relação cognitiva com o disco, relacionando automaticamente com o nome da banda”, explica o cantor.

Prestes a embarcar para a quinta turnê na Europa – dia 29 –, para 17 apresentações que divulgam o novo disco, o Statues On Fire acha que sua música pode fazer refletir até mesmo no Exterior. “Marielle é a letra que tem mais conexão com nossos atuais problemas. Porém, esse assassinato brutal repercutiu no mundo todo. A extrema-direita tem mostrado a cara no mundo todo. Não é apenas um problema brasileiro. A falta de empatia está em todos os lugares agora”, diz Alves.

Depois da Europa, o grupo toca em São Paulo, dia 29 de junho, no The House. Na região a agenda será em setembro, em data a ser confirmada.

Além das plataformas digitais, Living In Darkness ganha vida em outro formato, o LP, pelo selo Rookie Records, de Hamburgo, Alemanha, e será distribuído mundialmente pela Snubbed Records nos Estados Unidos, Canadá e Japão. Alves acredita que esses são os formatos mais procurados no mercado da música atualmente. “Infelizmente, o CD quase ninguém tem mais onde tocar. O digital você pode conectar via bluetooth no carro, TV, ou ouvir no telefone. O vinil é formato que nunca saiu de moda na Europa. E lá é um mercado que trabalhamos bastante. No Brasil tem um grande apelo também, muitas pessoas voltaram a ter e colecionar LP”, diz. 

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