Cotidiano

A verdadeira cara do meu País


 Presenciei, há pouco, cena que tem se tornado cada vez mais comum no cotidiano desta terra de ninguém. Refiro-me à violência, logicamente. Violência aqui disseminada e diversificada, assumindo, pois, vários aspectos, todos largamente apreciados pela parcela da sociedade, responsável pelos desmandos que ora assistimos.

Desigualdade social é tema sempre discutido nas rodas, embora pouco ou quase nada se faça para conter a fúria que condena milhões ao descaso e à desesperança. Fala-se no decreto das armas, na reforma da Previdência que deitará por terra o sonho de aposentadoria, nas novas leis do trabalho que facilitam o acesso aos semáforos das cidades... Não há dúvida de que todas são medidas eficazes quando se pretende engrossar a estatística do desespero e virar as costas para a realidade de uma existência cruel que conduz o ser à desumanização, aos porões da sociedade.

O quadro que assisti, neste dia normal de batalha pelo pão, remete-me a questionamentos acerca do ser humano e seu desapreço pelo semelhante, sobretudo, por aquele que lhe parece inferior por causa da sua situação de pobreza extrema.

Claro que nessas alturas o digníssimo leitor já está prestes a virar a página do jornal, uma vez que seu cronista enrola, enrola e não chega ao ponto crucial da coisa. Certamente há de preferir a página de esportes, com seus textos de discurso objetivo, sem rodeios, que leva ao entendimento fácil, e poupa quem aguarda o desfecho, de angústia maior.

Mas alto lá! Espere só um instante, amigo! O caso aqui é um tanto quanto grave, porque diz respeito à gente que nem de futebol se alimenta, simplesmente por ser a televisão sonho distante que não lhe vai à mesa, assim como o pão, a ela negado desde que nascera.

Todavia deixemos de lado os rodeios para ir ao fato por mim presenciado quando seguia para o trabalho, nesta linda manhã de um Sol que aparentemente nasce para todos.

Vi, pois, um tratorista esbanjando habilidade no trato com seu equipamento, que jogava terra debaixo do pesado concreto de um viaduto, em cujo vão menor algumas famílias fizeram morada. O serviço já ia adiantado, constatação a que cheguei, uma vez que trafego diariamente por ali, e me habituei com a presença de mais pessoas no local.

Entretanto, uma única moradia oferecia resistência naquele instante. Isso me chamou a atenção no segundo que gastei passando pela rua. Debaixo da nuvem de pó, a poucos metros da máquina, um casal protestava e tocia toda a amargura de uma sina de miséria. À sua direita e à sua esquerda os vãos estavam preenchidos pela terra, e o trator barulhento e ameaçador lhes indicava que era momento de partir.

De fato, foram despejados. Talvez estivesse atrasado o aluguel do viaduto, afinal. Mas não tem nada, não. Expulsos daqui, acampados ali. Novo lugar há de se arranjar, e morar até que nova ordem para sumir do pedaço venha em forma de trator ou de qualquer outro meio nada cordial.

Dignidade, nem pensar!

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