Cultura & Lazer

O caminho do espiritismo


Foram quase dois anos debruçado em cima de uma mesa, à espera que os ‘intermediários’ – ou médiuns – trouxessem para os encarnados uma publicação que mudaria o rumo da história do espiritismo no mundo. Allan Kardec, pseudônimo do professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, lançou O Livro dos Espíritos em abril de 1857 e, desde então, teve de arcar com a sua missão de trazer para a Terra tudo o que tinham a dizer os mensageiros celestiais.

Mas não pense que tomar essa decisão – corajosa, diga-se – foi fácil. Isso é criteriosamente mostrado no longa Kardec, que estreia quinta nos cinemas. Dirigida por Wagner de Assis (Nosso Lar), a produção é baseada no livro Kardec – A Biografia, de Marcel Souto Maior.

No papel do ‘pai do espiritismo’ está o ator Leonardo Medeiros, que convence de maneira singular a crescente trajetória do homem cético para o espiritualizado. É que Rivail era um renomado educador francês, que já havia publicado cerca de 20 livros didáticos (física, química e matemática), e só acreditava no que os olhos alcançavam e no que era comprovado pela ciência.

Tanto que o chamado ‘fenômeno das mesas girantes’, que viraram uma febre na Paris da época – muito bem recriada no longa –, nunca foi encarado por ele como real, mas sim objeto de charlatanismo e encenação. Até que Rivail foi convidado por espíritas a participar de uma sessão em que duas meninas, que viriam a se tornar algumas das intermediárias de O Livro dos Espíritos – Julie (Letícia Braga), 14 anos, e Caroline Baudin (Júlia Svacinna), 16 – psicografarem na sua frente. Detalhe: as cartas descreviam uma conversa que ele havia tido com sua mulher, Amelie Gabrielle Boudet (Sandra Corvelone), na sala de sua casa.

Isso o impressionou, mas não convenceu. Depois de fazer a mesma pergunta a alguns médiuns diferentes, e obter a mesma resposta, ele mudou seus ideais, muito por conta do incentivo da mulher, e resolveu dedicar-se à doutrina.

“Quando presencia um fenômeno com a mesa, se permite embarcar numa aventura poderosa, a ponto de vir a ser um novo homem naquela fase de sua vida. Isso tudo com um preço muito alto: perder amigos, perder o próprio nome, ser questionado, expulso das sociedades científicas, tudo para dar voz aos mortos, aos espíritos, e mostrar a imortalidade da alma. Isso é muito surpreendente, demanda muita coragem, resiliência, heroísmo essencial”, diz o diretor.

Rivail só viria a se tornar Kardec com o lançamento do primeiro livro espírita (ele descobriu, durante as sessões mediúnicas, que havia sido em uma de suas encarnações um druida na sociedade celta que tinha este nome). Embora sua obra tenha tomado repercussão internacional, foi no seu país onde fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, que sofreu o drama da intolerância religiosa – latente ainda hoje, infelizmente –, mas ganhou a certeza de que estava no caminho da luz. Ele não errou, portanto, em, no alto dos seus 50 anos, rever as suas ‘verdades absolutas’ e mudar.

O longa torna-se um baita exemplo para uma sociedade que vem se tornando cada vez mais maniqueísta, composta por indivíduos que têm ‘a certeza’ de que o outro está sempre errado.  

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