Palavra do Bispo

Confiança na Justiça


 Neste último mês pudemos ver a notícia do linchamento de um jovem de 18 anos. Segundo a reportagem, ele foi cercado por um grupo de pessoas em um terreno baldio, interrogado, em seguida, julgado culpado e executado. Tudo isso nos choca.

Recordei-me de fato, quando, ao chegar em uma capela de um bairro da paróquia onde era pároco, me inteiraram de fato semelhante, ocorrido ali mesmo, ao lado da capela. Diante de meu espanto e minha reprovação me responderam: fizemos justiça, porque, se não fizermos, quem vai fazer? Essa falta de confiança na Justiça prejudica a evolução de nossa sociedade, não raro faz involuir para a lei da selva. A impunidade é alavanca para a violência, que só faz aumentar.

A percepção de que o Brasil é dividido em dois andares, o de cima, no qual a lei é branda; e o de baixo, no qual a lei é rigorosa, se expressa em um ditado popular irônico: ‘A quem rouba um milhão: mil anos de perdão; a quem rouba um tostão: mil anos de prisão’.

A Operação Lava Jato e os projetos do atual Ministério da Justiça e Segurança Pública acendem uma luz no fim deste túnel escuro.

É preciso recuperar a confiança da população na administração da Justiça. Todos ganharão com isso. Com certeza a maioria dos magistrados é exemplar e se esforça para que isto aconteça. No entanto, a morosidade da Justiça, o excesso de recursos e foro privilegiado sem critério deixam um misto de decepção e até confirmação desta maneira distorcida como parcela da população vê a Justiça.

“Infelizmente a corrupção também existe no Judiciário e no Ministério público”, declarou certa vez, ao ser entrevistado, o ministro G. Dipp, do STJ. O mesmo ministro também afirmava que o Judiciário trabalhava para separar suas “maçãs podres” (cf. Folha de S. Paulo 23 de abril de 2007).

É alentadora a franqueza e humildade destas declarações, que expressam realismo e bom-senso. Despertam esperança de termos no futuro uma Justiça cada vez mais ‘justa’ para todos. Nesta busca é inegável o préstimo que a imprensa exerce em favor da verdade.

Fazer justiça é um atributo divino, pois só Deus é perfeitamente justo e administra a justiça com perfeição, porque só Ele é saber total e absoluto. Deus é o “Sol da justiça”, diz a Bíblia (Ml 3,20). Assim como o Sol tudo penetra e faz nascer, crescer, além de aquecer, a justiça bem distribuída traz vida à Nação.

Devemos confiar na Justiça e ajudar para que seja administrada cada vez mais com propriedade. Nada de justiça com as próprias mãos. Confiemos na Justiça, nos juízes e rezemos por eles, para que sejam iluminados pelo Sol da justiça que é Deus, e sejam dignos de nossa confiança.

 

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