Política

Candidatos são mais escolarizados e do gênero oposto ao do eleitor


Levantamento feito pelo Diário com base em dados fornecidos pela Justiça Eleitoral revela que as características sociais da maioria dos candidatos do Grande ABC aos cargos de deputado estadual e federal deste ano passam longe do atual perfil médio do eleitor da região.

Em suma, parcela significativa de quem concorre às vagas na Câmara dos Deputados ou na Assembleia Legislativa e que tem base eleitoral em uma das sete cidades é mais escolarizada e do gênero oposto ao da maioria dos eleitores do Grande ABC. Enquanto a maior parte dos títulos de eleitores na região pertence às mulheres (53%), de 45 a 59 anos (25,5%) e com Ensino Médio completo (27,7%), predominam candidatos homens (73%), com diploma de Ensino Superior (61,9%) e com média 47 anos e dez meses de idade. A maioria é de brancos (65,8%), casados (65,1%) e empresários (13,5%). Essas estatísticas são disponibilizadas pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e levam em consideração as informações pessoais declaradas pelos próprios candidatos no ato do registro de suas candidaturas.

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Apenas 11,4% (238.402) dos moradores das sete cidades aptos a votar no mês que vem (total de 2,1 milhões de inscritos) estão em igualdade de condições com a maioria dos candidatos no quesito Educação, ou seja, possuem diploma universitário assim como boa parte dos políticos que estão pedindo votos nesta eleição.

Do total de 126 candidatos da região a uma das vagas aos Legislativos federal e paulista, apenas 23 (18,2%) possuem somente o Ensino Médio, escolaridade majoritária do eleitorado do Grande ABC, como já revelou o Diário, na edição do dia 20.

A cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), avalia que a distância entre o eleitor e o candidato da região se assemelha aos padrões nacionais, que, segundo ela, precisam mudar. “Os números revelam que a democracia brasileira ainda não resolveu os problemas de representação. É desejável, para sermos uma democracia pluralista de qualidade, que os segmentos sociais relevantes de uma região tenham condições de se fazer representar nas esferas de poder onde as prioridades em termos das políticas são decididas”, pontua.

PESO DOS PARTIDOS
Maria do Socorro alerta que esse cenário não reflete necessariamente no desinteresse do eleitor mais humilde e menos escolarizado em integrar a política e figurar as urnas. “Esse perfil social das candidaturas está relacionado com a oferta de candidaturas selecionadas previamente pelos partidos. A maior parte (dos projetos partidários) visa a reeleição, devido às novas regras de desempenho (reforma eleitoral aprovada em 2017 pelo Congresso Nacional impôs um teto, chamado de cláusula de barreira, para calcular a distribuição do fundo partidário e a propaganda na TV e no rádio), num cenário sem recursos de empresas, ao menos legalmente”, salienta.

PROGRAMAS
A especialista destaca ainda que, “em geral”, o eleitor é “menos influenciado” na hora do voto por características sociais que se assemelham às suas, mas pelas políticas públicas que determinado candidato apresenta. “É determinante a avaliação do eleitor quanto à capacidade do candidato de maximizar suas chances de melhorar sua qualidade de vida, ou seja, melhorar seu acesso a bom e eficiente atendimento médico, ter Educação de qualidade para seus filhos, emprego decente, entre outros direitos que o nosso contrato constitucional visa e a classe política, enquanto corpo responsável, deveria administrar republicanamente. Somente assim penso ser possível que os nossos atuais políticos, ao menos em grande parte, vão restabelecer a confiança do eleitorado.”

GÊNERO
No que se refere ao gênero, a discrepância é ainda maior. O número de homens que pretendem representar o Grande ABC nos parlamentos é bem superior ao de mulheres, maioria do eleitorado: são 92 candidaturas masculinas, contra 34 projetos femininos – o que representa apenas 27% de todas as opções para o eleitor.

Embora a legislação eleitoral determine que os partidos e coligações reservem pelo menos 30% das vagas às candidaturas femininas, essa cota não é garantida se calculados todos os projetos eleitorais de uma mesma região, como o Grande ABC. Individualmente, o teto eleitoral pode até garantir a representatividade feminina mínima em um determinado partido ou em uma coligação, mas quando se observa o conjunto de candidaturas das sete cidades, a presença das mulheres nas cédulas é desigual.

Como remédio para essas diferenças, Maria do Socorro sugere a criação de cotas nos próprios parlamentos. “Infelizmente, apenas as cotas (nos partidos e coligações) não resolvem essa questão da sub-representação feminina no processo eleitoral. Medidas mais efetivas têm sido a reserva de vagas efetivas nas casas legislativas. Assim, os dirigentes partidários terão mais incentivos para de fato investirem na formação de candidaturas femininas”, avalia. 

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