ABC da Economia

Indústria aeronáutica, Embraer e região


Temos tratado de temas relativos ao desenvolvimento do Grande ABC e da Grande São Paulo no Observatório da USCS (Universidade Municipal de São Caetano). Entre eles, a questão das potencialidades ligadas à indústria aeronáutica. Neste artigo, queremos chamar a atenção também para alguns riscos, como o da venda da Embraer para a Boeing.

A indústria aeroespacial é complexo produtivo que envolve desde a fabricação de aeronaves e motores, passando por equipamentos de navegação, até projetos de satélites, armamentos guiados e propulsores. O segmento aeronáutico (receita de US$ 5,6 bilhões ao ano) responde por 80% do que é produzido pela indústria aeroespacial brasileira (2015) e sua produção é quase toda dirigida à exportação (83%). Os segmentos de Defesa e espacial respondem, juntos, por 14% do restante (US$ 980 milhões por ano).

Leia Mais

As principais fabricantes de aeronaves no mundo são Boeing, Airbus, Bombardier e Embraer. Em 2005, juntas elas geravam US$ 123 bilhões. Em 2015, as receitas dessas empresas alcançaram US$ 185 bilhões (respectivamente, US$ 96 bilhões, US$ 64,5 bilhões, US$ 18,2 bilhões e US$ 5,9 bilhões). Em 2025, a receita deverá atingir US$ 277,5 bilhões (estimativa). A Embraer responderia por 3,3% (US$ 9,2 bilhões contra os US$ 5,9 bilhões atuais). As cifras são significativas.

Ainda que tenha ampliado sua presença neste mercado, o Brasil não possui protagonismo no domínio da matriz tecnológica. Parte expressiva dos componentes utilizados na fabricação de suas aeronaves (fuselagem, sistemas eletrônicos e motores) é importada. A indústria aeroespacial brasileira abrange 25 mil trabalhadores. A produtividade média (receita por trabalhador) é de US$ 288 mil por ano. Há potencial para dobrar o total de empregos para 50 mil trabalhadores. Para isso, é necessário que a cadeia produtiva local de insumos seja mais integrada às cadeias produtivas globais.

Isto nos coloca perante o desafio da escolha: a) ter protagonismo no domínio de inovações, fabricação e comercialização de componentes aeronáuticos, buscando fortalecer as instituições de pesquisa e desenvolvimento locais (centros de pesquisa, universidades, empresas e governos locais); b) ou consolidar o País (apenas) como plataforma exportadora de aeronaves comerciais (os jatos da Embraer) e de alguns equipamentos de Defesa e espacial.

A primeira pergunta exige a compreensão da geopolítica global e os movimentos protecionistas dos países desenvolvidos, visando gerar emprego e renda em seus mercados, a exemplo do que ocorreu recentemente com as decisões do presidente Donald Trump de impor taxações sobre o aço importado de países como Brasil e China.

A segunda – manter-se apenas como uma plataforma exportadora – implicaria aceitar as condições de dependência tecnológica do País e admitir a incapacidade de nos tornarmos um participante dos ganhos de produtividade e das oportunidades em escala global (demandas por eficiência energética, custos de produção mais competitivos, atuação nos mercados emergentes). Tais questões são o pano de fundo para se compreender os interesses envolvidos na recente aquisição da Embraer pela Boeing.

A proposta de criação de nova empresa, com participação acionária de 80% pela Boeing e 20% pela Embraer, consistirá na opção pelo segundo caminho. Especialmente se o acordo não garantir o fortalecimento da empresa brasileira em âmbito local (com a geração de emprego qualificado para os brasileiros) e global (apropriação dos avanços tecnológicos distribuídos pelas cadeias globais de valor).

Desde os anos de 1950, políticas governamentais deram início à fabricação de aeronaves de uso civil (ITA em 1950, Embraer em 1969 e Helibrás nos anos 1970). Em 1994, com a privatização da Embraer, esta se reestruturou e se preparou para ampliar seu portfólio de produtos, com novas aeronaves, beneficiando-se da curva de aprendizado gerada pelo aparato tecnológico desenvolvido pelo País no período. Esta trajetória de sucesso exige que nos debrucemos sobre o tema para compreender o que está em jogo.

É urgente pensar estratégias que coloquem o Brasil como competidor nesta indústria, e expandam a produção e o emprego. No caso particular do Grande ABC, experiências recentes mostram a existência de novos caminhos e oportunidades, como a instalação da nova fábrica de componentes aeronáuticos da sueca SAAB, a busca de adensamento de elos desta indústria na região via APLs (Arranjos Produtivos Locais) e a criação do curso de Ciências Aeronáuticas da USCS.


* Gestor do curso de Ciências Aeronáuticas e integrante do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da USCS (Universidade Municipal de São Caetano)

Comentários


Veja Também


Voltar