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Chega ao Brasil o cubano 'El Insaciable Hombre Araña'


Ricardo Ditchun
Do Diário do Grande ABC

10/07/2004 | 17:02


Faz tempo que Cuba não exala mais o velho charme revolucionário que encantou jovens idealistas do mundo inteiro. Hoje, a ilha é bem mais lembrada por causa dos desatinos que o regime autoritário de Fidel Castro comete contra seus opositores e em função do eterno bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. De vez em quando, também se sabe de Cuba quando uns poucos ilhéus resolvem navegar em condições precárias rumo às terras de Tio Sam. Outros conhecem as facetas exóticas, para turistas, do “paraíso socialista caribenho”. Mas conhecer as entranhas cubanas para valer, só mesmo sendo de lá.

Gente como o escritor Pedro Juan Gutiérrez, 54 anos, por exemplo, sabe bem como se dão as pulsões que estruturam a legítima cubanidad. Ele conhece a Cuba essencial, seus flagelos, vícios, vergonhas, excessos, carências e nojeiras. Mas também as suas virtudes e paixões. E quase sempre é isso tudo que lhe serve de base para a boa literatura que produz. Por meio dela, peita Fidel sem citar diretamente seu nome ou sua ditadura. E, é bom lembrar, não age de fora para dentro, como colegas de ofício que denunciam o castrismo na condição de exilados: Guillermo Cabrera Infante, por exemplo. Gutiérrez mora na ilha, gosta disso e não pretende alterar seu endereço.

Mais uma vez, o escritor é notícia no Brasil em razão de sua literatura. Agora, por meio da excelente tradução que José Rubens Siqueira fez de El Insaciable Hombre Araña, sai em português, com dois anos de atraso em relação ao original, O Insaciável Homem-Aranha (202 págs., R$ 35). A editora é a Companhia das Letras, a mesma que felizmente tem garantido aos brasileiros o acesso à arte de um dos mais instigantes autores de língua espanhola vivos: Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e Animal Tropical.

Ordenando a vida – A catalogação da obra – aquela ficha impressa logo nas primeiras páginas dos livros – informa que se trata de um romance. Mas não é isso. Gutiérrez escreveu um livro de contos (19 ao todo) e um deles, o 8º, batiza o volume. É uma coletânea que será melhor aproveitada, em termos de ritmo, se for seguida a ordem original dos textos. O leitor ganhará também em prazer intelectual, pois dessa forma O Insaciável Homem-Aranha expõe a existência cubana atual em sua forma mais comezinha na justa medida em que o narrador, em primeira pessoa, ordena – ou pelo menos tenta – sua vida.

A Habana Vieja dissecada pelo narrador é também a do autor. Gutiérrez se confunde com seu “personagem” em tudo: da aparência física às atividades que lhe garantem a vida; das assumidas taras por mulheres negras a um cuidadoso trabalho de manutenção da aura marginal; da alegria de flanar pelas ruas ao prazer de exercitar, além da literatura, também a pintura.

A Cuba do livro, vista desde Havana, é a mesma que é criticada pelo escritor em suas entrevistas. Glamour, só mesmo na cabeça dos turistas idiotizados pelas campanhas publicitárias que vendem Cuba apenas como paraíso vermelho do Caribe. O balanço que O Insaciável Homem-Aranha parece propor a respeito do ser cubano é: sobreviver por meio de ocupações cada vez mais informais e suportar tudo isso graças ao sexo e ao rum barato.

Um bom observador – “Pode até parecer, mas meu trabalho não é jornalístico ou documental. Sou um bom observador das situações experimentadas pelas pessoas mais marginalizadas de Havana, pois vivi muito tempo nesse meio. Também sou capaz de fazer análise política. Meus livros são obras de ficção, mas têm esses cortes: a observação da realidade e o viés analítico”, afirma o escritor. E o alter ego de Gutiérrez no livro, por seu turno, parece arrematar: “Ninguém mais se lembra o que é o carnaval. Agora as pessoas só bebem muito, comem pouco, fumam, andam, bebem mais e mais. As mulheres e os homens se olham nos olhos. As lésbicas. As velhas e os velhos. Enfim, respira-se luxúria. Está no ar. É evidente. Às vezes penso que a vida aqui se reduz realmente a música, rum e sexo. O resto é paisagem.” Literatura autobiográfica, em Cuba, é demonstração de coragem.

Gutiérrez fala da ausência de jornalismo em sua literatura, mas é preciso lembrar que ele já viveu dessa profissão. Também já foi soldado, cortador de cana e vendedor de sorvetes. É um cubano típico. “Não faço jornalismo, mas foi assim, sendo jornalista, que descobri que investigar é o passo inicial obrigatório. Depois vem a escrita que, também por causa do jornalismo, é bastante econômica no meu caso”, diz.

Ao fim da leitura de O Insaciável Homem-Aranha, no entanto, percebe-se que Gutiérrez não poupa palavras quando escreve sobre as negras e as mulatas, sobre o sexo em geral. Esse é um dos muitos bons escritores erotômanos espalhados pelo mundo. E é sintomático que haja tanto sexo como tempero de uma situação de absoluta carência material que, no fim, termina por corromper as chamadas “virtudes socialistas”.

As garotas mais bonitas seguem para Varadero, local de turismo estrangeiro, e por lá vendem seus corpos. Com “sorte”, conseguem um casamento e partem para o exterior. Transar, na ilha de Fidel, é mais que uma fonte de prazer físico e psicológico. É uma forma de ser cínico e driblar a mão pesada do Estado. Gutiérrez, o analista político, explica: “O desregramento generalizado é outra forma de enfrentar o abuso de poder. Muitos cubanos atuam no mercado negro de comida, de sexo, drogas e bens de consumo. Muitos outros praticam a santería (a versão cubana do candomblé) e assim, aos poucos, ajudam a derrubar as paredes de um sistema que apodrece a olhos vistos.”



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Chega ao Brasil o cubano 'El Insaciable Hombre Araña'

Ricardo Ditchun
Do Diário do Grande ABC

10/07/2004 | 17:02


Faz tempo que Cuba não exala mais o velho charme revolucionário que encantou jovens idealistas do mundo inteiro. Hoje, a ilha é bem mais lembrada por causa dos desatinos que o regime autoritário de Fidel Castro comete contra seus opositores e em função do eterno bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. De vez em quando, também se sabe de Cuba quando uns poucos ilhéus resolvem navegar em condições precárias rumo às terras de Tio Sam. Outros conhecem as facetas exóticas, para turistas, do “paraíso socialista caribenho”. Mas conhecer as entranhas cubanas para valer, só mesmo sendo de lá.

Gente como o escritor Pedro Juan Gutiérrez, 54 anos, por exemplo, sabe bem como se dão as pulsões que estruturam a legítima cubanidad. Ele conhece a Cuba essencial, seus flagelos, vícios, vergonhas, excessos, carências e nojeiras. Mas também as suas virtudes e paixões. E quase sempre é isso tudo que lhe serve de base para a boa literatura que produz. Por meio dela, peita Fidel sem citar diretamente seu nome ou sua ditadura. E, é bom lembrar, não age de fora para dentro, como colegas de ofício que denunciam o castrismo na condição de exilados: Guillermo Cabrera Infante, por exemplo. Gutiérrez mora na ilha, gosta disso e não pretende alterar seu endereço.

Mais uma vez, o escritor é notícia no Brasil em razão de sua literatura. Agora, por meio da excelente tradução que José Rubens Siqueira fez de El Insaciable Hombre Araña, sai em português, com dois anos de atraso em relação ao original, O Insaciável Homem-Aranha (202 págs., R$ 35). A editora é a Companhia das Letras, a mesma que felizmente tem garantido aos brasileiros o acesso à arte de um dos mais instigantes autores de língua espanhola vivos: Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e Animal Tropical.

Ordenando a vida – A catalogação da obra – aquela ficha impressa logo nas primeiras páginas dos livros – informa que se trata de um romance. Mas não é isso. Gutiérrez escreveu um livro de contos (19 ao todo) e um deles, o 8º, batiza o volume. É uma coletânea que será melhor aproveitada, em termos de ritmo, se for seguida a ordem original dos textos. O leitor ganhará também em prazer intelectual, pois dessa forma O Insaciável Homem-Aranha expõe a existência cubana atual em sua forma mais comezinha na justa medida em que o narrador, em primeira pessoa, ordena – ou pelo menos tenta – sua vida.

A Habana Vieja dissecada pelo narrador é também a do autor. Gutiérrez se confunde com seu “personagem” em tudo: da aparência física às atividades que lhe garantem a vida; das assumidas taras por mulheres negras a um cuidadoso trabalho de manutenção da aura marginal; da alegria de flanar pelas ruas ao prazer de exercitar, além da literatura, também a pintura.

A Cuba do livro, vista desde Havana, é a mesma que é criticada pelo escritor em suas entrevistas. Glamour, só mesmo na cabeça dos turistas idiotizados pelas campanhas publicitárias que vendem Cuba apenas como paraíso vermelho do Caribe. O balanço que O Insaciável Homem-Aranha parece propor a respeito do ser cubano é: sobreviver por meio de ocupações cada vez mais informais e suportar tudo isso graças ao sexo e ao rum barato.

Um bom observador – “Pode até parecer, mas meu trabalho não é jornalístico ou documental. Sou um bom observador das situações experimentadas pelas pessoas mais marginalizadas de Havana, pois vivi muito tempo nesse meio. Também sou capaz de fazer análise política. Meus livros são obras de ficção, mas têm esses cortes: a observação da realidade e o viés analítico”, afirma o escritor. E o alter ego de Gutiérrez no livro, por seu turno, parece arrematar: “Ninguém mais se lembra o que é o carnaval. Agora as pessoas só bebem muito, comem pouco, fumam, andam, bebem mais e mais. As mulheres e os homens se olham nos olhos. As lésbicas. As velhas e os velhos. Enfim, respira-se luxúria. Está no ar. É evidente. Às vezes penso que a vida aqui se reduz realmente a música, rum e sexo. O resto é paisagem.” Literatura autobiográfica, em Cuba, é demonstração de coragem.

Gutiérrez fala da ausência de jornalismo em sua literatura, mas é preciso lembrar que ele já viveu dessa profissão. Também já foi soldado, cortador de cana e vendedor de sorvetes. É um cubano típico. “Não faço jornalismo, mas foi assim, sendo jornalista, que descobri que investigar é o passo inicial obrigatório. Depois vem a escrita que, também por causa do jornalismo, é bastante econômica no meu caso”, diz.

Ao fim da leitura de O Insaciável Homem-Aranha, no entanto, percebe-se que Gutiérrez não poupa palavras quando escreve sobre as negras e as mulatas, sobre o sexo em geral. Esse é um dos muitos bons escritores erotômanos espalhados pelo mundo. E é sintomático que haja tanto sexo como tempero de uma situação de absoluta carência material que, no fim, termina por corromper as chamadas “virtudes socialistas”.

As garotas mais bonitas seguem para Varadero, local de turismo estrangeiro, e por lá vendem seus corpos. Com “sorte”, conseguem um casamento e partem para o exterior. Transar, na ilha de Fidel, é mais que uma fonte de prazer físico e psicológico. É uma forma de ser cínico e driblar a mão pesada do Estado. Gutiérrez, o analista político, explica: “O desregramento generalizado é outra forma de enfrentar o abuso de poder. Muitos cubanos atuam no mercado negro de comida, de sexo, drogas e bens de consumo. Muitos outros praticam a santería (a versão cubana do candomblé) e assim, aos poucos, ajudam a derrubar as paredes de um sistema que apodrece a olhos vistos.”

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