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40 anos da greve que começou a abrir ditadura

Banco de Dados/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Paralisação dos metalúrgicos da Scania em 12 de maio surpreendeu até líderes sindicais


Fábio Martins
Do Diário do Grande ABC

13/05/2018 | 07:00


  O Brasil vivia, em 1978, o fim do governo do general Ernesto Geisel, no período da ditadura (1964-1985), quando propagava-se um milagre econômico. O momento, por outro lado, era de arrocho salarial – os reajustes não acompanhavam a inflação. Em 12 de maio daquele ano, os metalúrgicos da Scania, em São Bernardo, iniciaram, numa manhã de sexta-feira, a primeira grande greve do regime militar. A paralisação, proibida à época, surpreendeu até mesmo os líderes sindicais da categoria e deu início ao processo de redemocratização do País.

Na ocasião, foram 3.200 operários de braços cruzados. Não havia sinais externos de greve. Não se viam piqueteiros, sequer cartazes. Ninguém fazia discurso na porta. A ordem para parar saltava de ouvido em ouvido. Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, hoje do ABC, o ferramenteiro da Scania Gilson Menezes – que mais tarde tornou-se prefeito de Diadema, o primeiro eleito pelo PT no País – avisou sobre a paralisação na véspera ao então presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, o Lula, já no segundo mandato à frente da entidade.

Os metalúrgicos da montadora chegaram às 7h para trocar o turno. Bateram o ponto, vestiram o macacão e foram para os locais de trabalho, mas não ligaram as máquinas. Foi, de fato, a primeira greve que acontecia desde 1968, ano em que o Planalto havia baixado o AI-5 (Ato Institucional número 5), suspendendo os direitos civis fundamentais. O País era sustentado por uma teia de leis de exceção. Uma delas justamente a lei de greve (4.330), na prática, impedia a realização de greves.

“Estávamos muito bem organizados. A fábrica inteira parou. Pegamos a empresa, a imprensa, todo mundo de surpresa. A partir da greve da Scania começou a pipocar greve no Brasil inteiro. Teve no Grande ABC e no País todo. Queríamos questionar o sistema, a ditadura militar, isso se deu a partir da paralisação e veio a anistia, por exemplo, e começou a conquistar outros acontecimentos importantes, na política, nos meios sindicais”, avaliou Gilson, que, posteriormente, elegeu-se deputado e foi prefeito por dois mandatos.

O movimento, que começou na sexta-feira, seguiu durante todo o dia, e atingiu também os trabalhadores do turno da noite. No dia 15, a greve se expandiu e chegou à Ford, que produzia, na época, 500 Corcéis por dia. Eram 9.000 metalúrgicos até então. Ganhou repercussão nacional. Na data seguinte, foi a vez dos operários da Volkswagem, endossada por mais 12 mil pessoas. O Departamento de Polícia Federal buscava censurar emissoras de rádio e TV a divulgar o episódio. No dia 17, atingiu a Philips e à Cofap. Foram 20 dias que abalaram o Brasil. Quase 40 mil envolvidos.

“Pedimos a reposição salarial. O acordo foi feito. A Ford veio na sequência. Levamos o índice a todas as empresas automobilísticas. Depois, começamos a mostrar (a reivindicação) para a de autopeças, de diversos setores. Qualquer fábrica, a gente ia e parava. Acho que 90% da categoria teve aumento”, alegou Expedito Soares, 65 anos, também segundo tesoureiro do sindicato, que mais tarde seria eleito deputado. “Ali se viu que, unido, era possível lutar e conseguir avanços. Era uma sentimento acumulado de ir para as ruas”, emendou.

Em março de 1979, os três sindicatos da categoria no Grande ABC sofrem intervenção. O metalúrgico Augusto Portugal frisou que a greve despertou forte descontentamento com a situação do País. “Foi uma centelha que caiu no mato seco”, comparou. “A sociedade estava ávida por mudança, mas acho que ninguém esperava, em sã consciência, que havia tanta energia reprimida.”

Delfim manipulou índices sobre perda salarial e criou ambiente

A história da greve começou quatro anos antes, quando o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, maquiou índices da inflação e provocou um perda de 34,1% nos salário dos trabalhadores. Em 1978, quando o governo divulgou, no dia 2 de abril, o índice de reposição, não era feita menção da perda real. No mês seguinte, diante do holerite, veio a decisão de se cruzar os braços. A paralisação acabou provocando um efeito cascata, dando sinais concretos da insatisfação com o momento político.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema deu pontapé inicial, em 1977, à campanha para recuperar as perdas salariais. Em março do exercício seguinte, operários da Mercedes-Benz paralisam quatro setores. Em 10 de maio de 1978, 100 trabalhadores de um departamento da Ford seguiram essa linha, e pediram reajuste. Inspetor de qualidade da Scania, Augusto Portugal alegou que o “fator da manipulação nos números foi determinante” para se começar esse movimento de revolta do setor com o sistema. “Existia um clima de alteração na temperatura. Apesar da repressão, não se conseguia frear, dar conta de resolver o incômodo.”

A partir do recebimento do holerite, e constatação do reajuste fixado pelos militares, o movimento eclodiu. “(A greve) Não começou em 1978, somente explodiu. O Delfim tinha fraudado os índices. Nós resolvemos ir para o enfrentamento”, pontuou.

O jornalista Ademir Medici, já pelo Diário, fez a cobertura jornalística da paralisação, e contou que a ação chamou atenção para a necessidade de organização da sociedade. “Despertou para esse ponto, não esperar por decisões do governo, assim como aconteceu alguns anos depois no Centreville (ocupação de residências em Santo André), com o pró-Paranapiacaba.” 

PT e CUT se formaram do movimento

Embora já se discutisse antes sobre o cenário político criado com as greves, o movimento começa a se politizar, principalmente a partir de 1979, forjando lideranças para brigar pelo voto nas urnas. A criação do PT, por exemplo, se deu no ano seguinte. Logo na primeira eleição municipal, em 1982, Diadema elegeu Gilson Menezes, líder da greve na Scania, para ocupar o cargo do chefe do Executivo. O primeiro prefeito petista do Brasil. Em agosto de 1983, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em São Bernardo, tendo Jair Meneguelli na presidência.

Outra mobilização simbólica depois da protagonizada na Scania se deu no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo, em 1980. Foi a greve de 41 dias dos metalúrgicos, reprimida com violência pelo governo. Durante a assembleia, helicópteros apontavam metralhadoras para os participantes.

Em entrevista ao Diário, em 1998, para analisar 20 anos da greve da Scania, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – atualmente preso no âmbito da Operação Lava Jato – afirmou que o ano de 1978 “produziu muito mais do que novas lideranças”. “Produziu uma nova consciência. Os metalúrgicos ganharam uma nova importância, passaram a ter orgulho de pertencer à categoria, conquistaram amor próprio. A nossa autoestima estava a mil por hora. Este sindicato fervilhava. Quem trabalhava à noite não deixava de passar por aqui. Eles colocavam material do sindicato debaixo da blusa, botina. Aqui parecia a Rua Direita, em São Paulo.”

A entrevista exclusiva de Lula, na oportunidade, foi concedida justamente na sala que ele ocupava quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, o mesmo local que o abrigou por quase três dias após a decretação de prisão expedida pelo juiz federal Sérgio Moro. “Foi um ano rico, muito rico. O ano de 1978 produziu a CUT, o PT, uma nova opção política de esquerda, e colocou a classe trabalhadora no palanque, não como coadjuvante, mas como personagem principal.”



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40 anos da greve que começou a abrir ditadura

Paralisação dos metalúrgicos da Scania em 12 de maio surpreendeu até líderes sindicais

Fábio Martins
Do Diário do Grande ABC

13/05/2018 | 07:00


  O Brasil vivia, em 1978, o fim do governo do general Ernesto Geisel, no período da ditadura (1964-1985), quando propagava-se um milagre econômico. O momento, por outro lado, era de arrocho salarial – os reajustes não acompanhavam a inflação. Em 12 de maio daquele ano, os metalúrgicos da Scania, em São Bernardo, iniciaram, numa manhã de sexta-feira, a primeira grande greve do regime militar. A paralisação, proibida à época, surpreendeu até mesmo os líderes sindicais da categoria e deu início ao processo de redemocratização do País.

Na ocasião, foram 3.200 operários de braços cruzados. Não havia sinais externos de greve. Não se viam piqueteiros, sequer cartazes. Ninguém fazia discurso na porta. A ordem para parar saltava de ouvido em ouvido. Diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, hoje do ABC, o ferramenteiro da Scania Gilson Menezes – que mais tarde tornou-se prefeito de Diadema, o primeiro eleito pelo PT no País – avisou sobre a paralisação na véspera ao então presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, o Lula, já no segundo mandato à frente da entidade.

Os metalúrgicos da montadora chegaram às 7h para trocar o turno. Bateram o ponto, vestiram o macacão e foram para os locais de trabalho, mas não ligaram as máquinas. Foi, de fato, a primeira greve que acontecia desde 1968, ano em que o Planalto havia baixado o AI-5 (Ato Institucional número 5), suspendendo os direitos civis fundamentais. O País era sustentado por uma teia de leis de exceção. Uma delas justamente a lei de greve (4.330), na prática, impedia a realização de greves.

“Estávamos muito bem organizados. A fábrica inteira parou. Pegamos a empresa, a imprensa, todo mundo de surpresa. A partir da greve da Scania começou a pipocar greve no Brasil inteiro. Teve no Grande ABC e no País todo. Queríamos questionar o sistema, a ditadura militar, isso se deu a partir da paralisação e veio a anistia, por exemplo, e começou a conquistar outros acontecimentos importantes, na política, nos meios sindicais”, avaliou Gilson, que, posteriormente, elegeu-se deputado e foi prefeito por dois mandatos.

O movimento, que começou na sexta-feira, seguiu durante todo o dia, e atingiu também os trabalhadores do turno da noite. No dia 15, a greve se expandiu e chegou à Ford, que produzia, na época, 500 Corcéis por dia. Eram 9.000 metalúrgicos até então. Ganhou repercussão nacional. Na data seguinte, foi a vez dos operários da Volkswagem, endossada por mais 12 mil pessoas. O Departamento de Polícia Federal buscava censurar emissoras de rádio e TV a divulgar o episódio. No dia 17, atingiu a Philips e à Cofap. Foram 20 dias que abalaram o Brasil. Quase 40 mil envolvidos.

“Pedimos a reposição salarial. O acordo foi feito. A Ford veio na sequência. Levamos o índice a todas as empresas automobilísticas. Depois, começamos a mostrar (a reivindicação) para a de autopeças, de diversos setores. Qualquer fábrica, a gente ia e parava. Acho que 90% da categoria teve aumento”, alegou Expedito Soares, 65 anos, também segundo tesoureiro do sindicato, que mais tarde seria eleito deputado. “Ali se viu que, unido, era possível lutar e conseguir avanços. Era uma sentimento acumulado de ir para as ruas”, emendou.

Em março de 1979, os três sindicatos da categoria no Grande ABC sofrem intervenção. O metalúrgico Augusto Portugal frisou que a greve despertou forte descontentamento com a situação do País. “Foi uma centelha que caiu no mato seco”, comparou. “A sociedade estava ávida por mudança, mas acho que ninguém esperava, em sã consciência, que havia tanta energia reprimida.”

Delfim manipulou índices sobre perda salarial e criou ambiente

A história da greve começou quatro anos antes, quando o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, maquiou índices da inflação e provocou um perda de 34,1% nos salário dos trabalhadores. Em 1978, quando o governo divulgou, no dia 2 de abril, o índice de reposição, não era feita menção da perda real. No mês seguinte, diante do holerite, veio a decisão de se cruzar os braços. A paralisação acabou provocando um efeito cascata, dando sinais concretos da insatisfação com o momento político.

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema deu pontapé inicial, em 1977, à campanha para recuperar as perdas salariais. Em março do exercício seguinte, operários da Mercedes-Benz paralisam quatro setores. Em 10 de maio de 1978, 100 trabalhadores de um departamento da Ford seguiram essa linha, e pediram reajuste. Inspetor de qualidade da Scania, Augusto Portugal alegou que o “fator da manipulação nos números foi determinante” para se começar esse movimento de revolta do setor com o sistema. “Existia um clima de alteração na temperatura. Apesar da repressão, não se conseguia frear, dar conta de resolver o incômodo.”

A partir do recebimento do holerite, e constatação do reajuste fixado pelos militares, o movimento eclodiu. “(A greve) Não começou em 1978, somente explodiu. O Delfim tinha fraudado os índices. Nós resolvemos ir para o enfrentamento”, pontuou.

O jornalista Ademir Medici, já pelo Diário, fez a cobertura jornalística da paralisação, e contou que a ação chamou atenção para a necessidade de organização da sociedade. “Despertou para esse ponto, não esperar por decisões do governo, assim como aconteceu alguns anos depois no Centreville (ocupação de residências em Santo André), com o pró-Paranapiacaba.” 

PT e CUT se formaram do movimento

Embora já se discutisse antes sobre o cenário político criado com as greves, o movimento começa a se politizar, principalmente a partir de 1979, forjando lideranças para brigar pelo voto nas urnas. A criação do PT, por exemplo, se deu no ano seguinte. Logo na primeira eleição municipal, em 1982, Diadema elegeu Gilson Menezes, líder da greve na Scania, para ocupar o cargo do chefe do Executivo. O primeiro prefeito petista do Brasil. Em agosto de 1983, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em São Bernardo, tendo Jair Meneguelli na presidência.

Outra mobilização simbólica depois da protagonizada na Scania se deu no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo, em 1980. Foi a greve de 41 dias dos metalúrgicos, reprimida com violência pelo governo. Durante a assembleia, helicópteros apontavam metralhadoras para os participantes.

Em entrevista ao Diário, em 1998, para analisar 20 anos da greve da Scania, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – atualmente preso no âmbito da Operação Lava Jato – afirmou que o ano de 1978 “produziu muito mais do que novas lideranças”. “Produziu uma nova consciência. Os metalúrgicos ganharam uma nova importância, passaram a ter orgulho de pertencer à categoria, conquistaram amor próprio. A nossa autoestima estava a mil por hora. Este sindicato fervilhava. Quem trabalhava à noite não deixava de passar por aqui. Eles colocavam material do sindicato debaixo da blusa, botina. Aqui parecia a Rua Direita, em São Paulo.”

A entrevista exclusiva de Lula, na oportunidade, foi concedida justamente na sala que ele ocupava quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, o mesmo local que o abrigou por quase três dias após a decretação de prisão expedida pelo juiz federal Sérgio Moro. “Foi um ano rico, muito rico. O ano de 1978 produziu a CUT, o PT, uma nova opção política de esquerda, e colocou a classe trabalhadora no palanque, não como coadjuvante, mas como personagem principal.”

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