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‘A Mosca Azul’ que mordeu o PT


Marisa Marega
Do Diário do Grande ABC

12/03/2006 | 09:07


Frei Betto, crítico intransigente do neoliberalismo e da política econômica do governo Lula, lança esta semana em várias capitais brasileiras seu 52º livro, muito aguardado em razão do tema explosivo nesses tempos de mensalão. Mosca Azul trata das entranhas dos palácios e da ascensão do PT ao poder.

Religioso dominicano, Frei Betto estudou filosofia, teologia e jornalismo. Como escritor, recebeu diversos prêmios nacionais e internacionais por sua luta em defesa dos direitos humanos. Em 1985, foi eleito Intelectual do Ano e recebeu o Prêmio Juca Pato da União Brasileira de Escritores.

Adepto da Teologia da Libertação (ala da Igreja Católica que acredita no trabalho dos religiosos junto aos pobres), o teólogo começou sua trajetória junto aos movimentos populares no fim da década de 70, numa favela em Vitória (ES). Ele acabara de deixar a prisão após cumprir pena como preso político da ditadura militar. No início dos anos 80, veio para São Bernardo trabalhar na Pastoral Operária e, no ABC, conheceu Lula e os metalúrgicos que começavam a mudar a história do sindicalismo no país. Organizou, ao lado de dom Cláudio Hummes, na Igreja Matriz de Santo André, os fundos de greve que sustentaram as famílias dos trabalhadores enquanto duraram as paralisações. Começou naquele período a longa amizade com o casal Marisa-Lula, que dura até hoje.

A partir daí, não sossegou. Frei Betto foi assessor da maioria dos movimentos sociais nas décadas seguintes, acompanhou de perto a criação do PT e passou a ser reconhecido internacionalmente pela atuação na defesa dos sem-teto, sem-terra e outros sem algum direito básico. Desde então, viaja pelos continentes fazendo palestras ou lançando livros. Somadas as viagens, passa boa parte do ano em aviões e fora do Brasil. Mas, quando está no país não descuida do trabalho nas Comunidades Eclesiais de Base, que acompanha de norte a sul.

Avesso a cargos e pompas, sucumbiu diante do convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para ser assessor especial da Presidência da República. Aceitou o cargo para estar à frente do Fome Zero, considerado o maior programa social do governo federal. Ficou no poder por apenas dois anos. Saiu atirando na política econômica do governo e decepcionado pela ausência da reforma agrária. Foi quando resolveu a escrever A Mosca Azul, sobre sua passagem pelo poder, falando ainda sobre o PT, a esquerda brasileira e mundial com reflexões a partir de Platão, Sócrates, Maquiavel, Hegel etc.

Quando escrevia a história, estourou o escândalo do mensalão. E Frei Betto teve tempo de incluir no texto sua decepção com parcela da esquerda do PT, que foi mordida pela ‘mosca azul’. A obra mostra como o partido foi criado, se organizou e chegou ao poder até ser protagonista do maior vexame político dos últimos anos. O escritor analisa o esfacelamento da ética e da credibilidade da legenda política que foi criada para realizar mudanças e acabou espalhando lama.

Nesta semana, em que lança o livro em várias capitais do país, o escritor falou com exclusividade ao Diário. E abriu o jogo: acredita na reeleição de Lula e aponta o que deu errado no governo. Quanto ao PT, “...haverá o julgamento dos eleitores nas urnas de outubro”.

DIÁRIO – Durante toda sua vida pública, o sr. sempre auxiliou movimentos populares, mas nunca exerceu cargos públicos. No início do governo Luiz Inácio Lula da Silva  aceitou o cargo de assessor do presidente. O que mudou?
FREI BETTO – Acompanho Lula e o PT desde 1980. Achei que não poderia me negar ao convite de trabalhar com os mais pobres deste país, através do Fome Zero. Porém, concluí que não tenho vocação para o poder público. Minha trincheira é a literatura.

DIÁRIO – Dois anos depois, o sr. deixou o programa Fome Zero. O que aconteceu, o que deu errado?
FREI BETTO – O Fome Zero é melhor do que o próprio governo federal divulga. Através do Bolsa Família se faz a maior distribuição de renda da história do país, e hoje o programa beneficia 8,5 milhões de famílias. Mas, para ter porta de saída e evitar que essas mesmas famílias voltem à miséria no futuro é preciso realizar a reforma agrária e mudar essa política econômica recessiva.

DIÁRIO – Tão logo o sr. deixou o governo federal veio o escândalo do mensalão. Como encarou as denúncias?
FREI BETTO – Com muita tristeza, o que me levou a escrever uma análise profunda de tudo isso no livro A Mosca Azul, onde analiso a história do PT, a trajetória da esquerda brasileira, a questão do poder, que em tantos inocula o veneno da ‘mosca azul’.

  

DIÁRIO – Havia algum tipo de informação anterior sobre esses bastidores das votações? Houve decepção em relação às pessoas com quem convivia?
FREI BETTO – Não tive a menor desconfiança de tudo que veio à tona a partir de maio de 2005. Sim, me decepcionei com os líderes do Campo Majoritário, que dirigiam o PT. Jamais imaginei que poderiam se envolver em maracutaias, comprometendo a imagem ética da esquerda brasileira. Resta agora ao novo PT resgatar suas origens e sua ética.

DIÁRIO – Como surgiu a idéia de fazer o livro?
FREI BETTO
– Sou um memorialista. Assim como transformei minha experiência de prisão em livro, em Batismo de Sangue, que, filmado por Helvecio Rattom chega às telas em agosto, também procurei compreender melhor os intestinos do poder a partir da releitura de clássicos da política, como Platão, Aristóteles, Maquiavel e Max Weber. E fiz a minha própria reflexão sobre o poder, contida em A Mosca Azul.

  

DIÁRIO – No livro, o sr. faz uma análise da ascensão do PT ao poder, crítica pesada à esquerda e a setores do partido. Ainda convive com eles?
FREI BETTO – Nunca fui filiado a partido político, mas é claro que, sendo de esquerda e participando de assessoria a movimentos populares, convivo com aquela parcela de militantes petistas mais próxima dos pobres.

  

DIÁRIO – Qual a sua análise sobre os cassáveis, acordão, enfim, que resultados devem vir pela frente?
FREI BETTO – O Congresso é expressão da sociedade brasileira, no quem tem de positiva e negativa. Agora cabe ao PT apurar internamente as responsabilidades e punir os culpados. Haverá também o julgamento dos eleitores nas urnas de outubro.

  

DIÁRIO – Quando saiu do governo, o sr. criticou com veemência a política econômica. Mas ela não foi adotada pelo governo Lula?
FREI BETTO – Sim, e é prejudicial à Nação, basta verificar o pífio crescimento do Brasil em 2005, apenas 2,3%. Espero que, no segundo mandato, Lula livre a nossa política econômica do controle dos tucanos.

  

DIÁRIO – Como eleitor, vai mudar o voto?
FREI BETTO – Voto Lula, é o melhor entre os candidatos.

  

DIÁRIO – Nunca ficou claro o que motivou, de fato, sua saída do governo e seu posterior silêncio. Aliás, como um dos grandes alicerces da carreira política de Lula, o sr. desde então, não saiu na defesa nem no ataque a ele. O que houve, afinal? E por que um silêncio tão profundo?
FREI BETTO – O que eu tinha a falar está em A Mosca Azul. Saí do governo para retornar à literatura e por discordar da política econômica, embora considere positivas as políticas social e externa.

  

DIÁRIO – O que deu certo e o que deu errado neste governo?
FREI BETTO – Deram certo a política externa, o Fome Zero, os benefícios sociais aos mais pobres, a reforma da Educação. Deram errado a política econômica recessiva, a falta da reforma agrária e de combate à violência urbana.

  

DIÁRIO – Voltaria a integrar uma equipe de Lula?
FREI BETTO – Jamais voltarei a fazer outra coisa na vida senão orar, escrever e assessorar movimentos populares.



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