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Suspense 'Reencarnação' pede boa-fé


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

24/03/2005 | 12:09


O suspense Reencarnação foi escalado para estrear durante a Semana Santa, época em que os católicos celebram a ressurreição de Cristo, dogma crucial do cristianismo. Mas o ponto de vista religioso, crucial para espíritas, budistas ou hinduístas, não é o enfoque desse filme. Há duas maneiras de encará-lo: com a razão ou com a emoção. Com a primeira, atenção para detalhes que o conduzirão à idéia cética de que depois da vida nada mais existe. Com a segunda, atenção para os mesmos detalhes que darão margem a um talvez. O filme, que em inglês se chama Birth (nascimento), requer mesmo é boa-fé para ser visto.

Sean (Cameron Bright), 10 anos, aparece na festa de aniversário de Eleanor (Lauren Bacall), mãe de Anna (Nicole Kidman). O menino diz que é Sean, o marido de Anna morto há dez anos, e afirma que por isso a moça não poderá se casar com seu atual noivo Joseph (Danny Huston). No começo, parece brincadeira de mau gosto e a família não leva a sério. A insistência do menino, que por isso nem se considera mais filho de seus pais, mexe com os sentimentos de Anna, que passa a crer na possibilidade de reencarnação. Por isso, sua família resolve testar o garoto com perguntas que só Sean saberia. As respostas corretas deixam Anna mais convencida. Seu futuro casamento se abala, pois ela até cogita fugir com o menino até ele completar 21 anos quando poderão legalmente se casar.

O problema deste filme era amarrar tudo isso de forma a convencer o público de uma coisa ou de outra. Tarefa que o diretor Jonathan Glazer, com experiência em videoclipes e no mediano longa Sexy Beast, executou com brios alheios. A história de uma pessoa que afirma ser outra já foi filmada (vide K-Pax – O Caminho da Luz, com Kevin Spacey, sobre um lunático que deixa em dúvida seu psiquiatra afirmando ter vindo mesmo de outro planeta, e vide Sommersby – O Retorno de um Estranho, remake de O Retorno de Martin Guerre, escrito pelo mesmo Jean-Claude Carrière, co-roteirista de Reencarnação). E tem mais: o menino Cameron já interpretou um garoto que volta à vida em O Enviado; o cabelo curto de Nicole Kidman lembra o de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary; cenas interiores têm a marca registrada das de Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados, por acaso também estrelado por Nicole. O diretor se enrolou nas próprias amarras, deixando a trama inconsistente.

Sugestão de pedofilia é remota, pois nas duas cenas com componente sexual Anna está convencida de que seu marido realmente reencarnou no menino. Na primeira, Sean tira a roupa no banheiro e entra na banheira onde está a mulher e diz "Estou olhando para minha esposa". É uma criança nua diante de uma adulta nua, que logo pede que o menino saia. Na segunda, Sean dá um leve beijo em Anna – ele segura seu rosto e aproxima lentamente a boca de seus lábios. A delicadeza com que foram tratadas não dá margem a segundas intenções.

As atuações sustentam o que há de destacável. Lauren Bacall ganha o filme quando desdenha dessa situação: chama o menino de "Mr. Reencarnação", diz a ele que não gostava de Sean, o genro, e comenta sobre o nascimento de seu neto: "Será que é o Sean?". Nicole tem sua melhor cena num único plano, com quase cinco minutos. Seu belo rosto estalado na tela, ao som de Wagner durante um concerto, retesa-se de tensão e dúvidas sobre as coisas que o menino dizia. Já Cameron Bright, tem uma única expressão, taciturna e imutável o filme inteiro, exceto pelo único sorriso, forçado para uma foto.

Anna tem razões para acreditar que o menino de 10 anos que bateu à sua porta é Sean, seu marido morto há dez anos. As famílias dela e do garoto têm razões para crer que ele está aprontando uma. Ao público restará a sensação de que a razão de ser do filme não justifica a que veio, pois esta depende muito mais do dogma de fé de cada um do que da narrativa.



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Suspense 'Reencarnação' pede boa-fé

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

24/03/2005 | 12:09


O suspense Reencarnação foi escalado para estrear durante a Semana Santa, época em que os católicos celebram a ressurreição de Cristo, dogma crucial do cristianismo. Mas o ponto de vista religioso, crucial para espíritas, budistas ou hinduístas, não é o enfoque desse filme. Há duas maneiras de encará-lo: com a razão ou com a emoção. Com a primeira, atenção para detalhes que o conduzirão à idéia cética de que depois da vida nada mais existe. Com a segunda, atenção para os mesmos detalhes que darão margem a um talvez. O filme, que em inglês se chama Birth (nascimento), requer mesmo é boa-fé para ser visto.

Sean (Cameron Bright), 10 anos, aparece na festa de aniversário de Eleanor (Lauren Bacall), mãe de Anna (Nicole Kidman). O menino diz que é Sean, o marido de Anna morto há dez anos, e afirma que por isso a moça não poderá se casar com seu atual noivo Joseph (Danny Huston). No começo, parece brincadeira de mau gosto e a família não leva a sério. A insistência do menino, que por isso nem se considera mais filho de seus pais, mexe com os sentimentos de Anna, que passa a crer na possibilidade de reencarnação. Por isso, sua família resolve testar o garoto com perguntas que só Sean saberia. As respostas corretas deixam Anna mais convencida. Seu futuro casamento se abala, pois ela até cogita fugir com o menino até ele completar 21 anos quando poderão legalmente se casar.

O problema deste filme era amarrar tudo isso de forma a convencer o público de uma coisa ou de outra. Tarefa que o diretor Jonathan Glazer, com experiência em videoclipes e no mediano longa Sexy Beast, executou com brios alheios. A história de uma pessoa que afirma ser outra já foi filmada (vide K-Pax – O Caminho da Luz, com Kevin Spacey, sobre um lunático que deixa em dúvida seu psiquiatra afirmando ter vindo mesmo de outro planeta, e vide Sommersby – O Retorno de um Estranho, remake de O Retorno de Martin Guerre, escrito pelo mesmo Jean-Claude Carrière, co-roteirista de Reencarnação). E tem mais: o menino Cameron já interpretou um garoto que volta à vida em O Enviado; o cabelo curto de Nicole Kidman lembra o de Mia Farrow em O Bebê de Rosemary; cenas interiores têm a marca registrada das de Stanley Kubrick em De Olhos Bem Fechados, por acaso também estrelado por Nicole. O diretor se enrolou nas próprias amarras, deixando a trama inconsistente.

Sugestão de pedofilia é remota, pois nas duas cenas com componente sexual Anna está convencida de que seu marido realmente reencarnou no menino. Na primeira, Sean tira a roupa no banheiro e entra na banheira onde está a mulher e diz "Estou olhando para minha esposa". É uma criança nua diante de uma adulta nua, que logo pede que o menino saia. Na segunda, Sean dá um leve beijo em Anna – ele segura seu rosto e aproxima lentamente a boca de seus lábios. A delicadeza com que foram tratadas não dá margem a segundas intenções.

As atuações sustentam o que há de destacável. Lauren Bacall ganha o filme quando desdenha dessa situação: chama o menino de "Mr. Reencarnação", diz a ele que não gostava de Sean, o genro, e comenta sobre o nascimento de seu neto: "Será que é o Sean?". Nicole tem sua melhor cena num único plano, com quase cinco minutos. Seu belo rosto estalado na tela, ao som de Wagner durante um concerto, retesa-se de tensão e dúvidas sobre as coisas que o menino dizia. Já Cameron Bright, tem uma única expressão, taciturna e imutável o filme inteiro, exceto pelo único sorriso, forçado para uma foto.

Anna tem razões para acreditar que o menino de 10 anos que bateu à sua porta é Sean, seu marido morto há dez anos. As famílias dela e do garoto têm razões para crer que ele está aprontando uma. Ao público restará a sensação de que a razão de ser do filme não justifica a que veio, pois esta depende muito mais do dogma de fé de cada um do que da narrativa.

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