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Bar do Chorinho é patrimônio cultural da cidade


Everaldo Fioravante
Do Diário do Grande ABC

05/02/2006 | 08:20


Chorinho ao vivo, bonito e bem-feito, mesinhas na calçada, cerveja bem gelada, porções apetitosas. Em torno, a reunião de amigos, gente de todas idades. Conversa para lá e para cá. É o Bar do Chorinho, em Santo André, um verdadeiro patrimônio cultural e histórico da cidade. Boteco sim, mas de ambiente familiar, lugar de respeito, para se divertir e, se quiser, também dançar. Todo domingo, religiosamente, esse simpático e descontraído conjunto de elementos garante casa lotada.

O bar existe há cerca de 30 anos e quem embala o domingão é o grupo Chorinho Amizade, numa tradicional mesa de choro que ocorre há uns 25 anos – começa às 11h e vai até às 15h. A casa fica na rua Ricardo de Lemos, 5, perto da avenida Firestone (tel.: 4972-5900). “Já estamos atendendo a terceira geração de clientes, pai, filho e neto. Aqui é bem tranqüilo, nunca houve uma confusão sequer”, diz Toninho, 57 anos, o dono do estabelecimento.

Aos interessados em garantir mesa e cadeira, a dica é chegar cedo, pois o local lota mesmo. Por domingo, cerca de 300 pessoas circulam por lá, quando o tempo ajuda – leia-se dia sem chuva. Já com o bar e a calçada repletos, o jeito é ocupar a rua mesmo (exceto a agitação do bar, a via tem pouco movimento). E para quem gosta de beber em copo de vidro, o negócio é garantir um e não largar mais, porque chega uma hora em que só restam os de plástico.

A cerveja, de garrafa, sempre está bem gelada – os engradados ficam pela calçada mesmo. São preenchidos conforme os vasilhames são esvaziados. As porções, deliciosas, são preparadas na hora. Tem inclusive frango assado, aquele da popular “televisão de cachorro”. Os preços praticados são justos. Melhor que isso...

Choro vivo – No repertório do grupo Chorinho Amizade consta música brasileira das antigas, composições cheias de poesia de mestres do porte de Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Adoniran Barbosa.

Na teoria, o grupo que toca no bar é o mesmo de sempre. Só que, daqueles que começaram com as apresentações ainda com o nome de Os Boêmios, só resta um integrante, o pandeirista Nelson, 61 anos. “Dos fundadores, só sobrou eu. Os outros morreram”, afirma o veterano músico. O chorinho, porém, continua para lá de vivo. Autêntico.

Outro integrante antigo do grupo é o “Seu” Ditinho, bandolinista de 81 anos. “Toco com o grupo aqui e em outros lugares. Todo mundo gosta das apresentações, recebemos muitos aplausos”, diz. E se engana quem pensa que “Seu” Ditinho esbanja saúde só no chorinho. “Dirijo carro, ando de moto e tenho mulher mais nova que eu, a Dulcinéia, de 70 anos”, diz. Em meio à roda de choro, ele ainda beberica uma cervejinha.

Mimi, 70 anos de vida e 55 de carreira, além de tocar percussão, cede seu vozeirão à interpretação das pérolas do repertório, músicas boas que infeliz e dificilmente se ouve hoje nas rádios. Segundo ele, o Bar do Chorinho faz as vezes até de cupido. “Tem moça que conheceu namorado aqui e depois casou”, afirma ele, figura conhecida no Grande ABC.

Quem manda ver no cavaquinho é José Pereira, o Zóiudo, 77. Ele dá a receita particular para manter a forma: “Música e cachaça conserva. Tô jóia, meu!”.

Qualidade de vida – Para o professor universitário José Carlos Maziero, o Zequinha, 51, responsável pelos sopros, o sucesso do Bar do Chorinho é devido sobretudo a dois fatores: o repertório de qualidade e a constância. “Pode estar frio ou calor, qualquer dia, até véspera de feriado, que o choro não falta”, explica.

Para Zequinha, a dedicação ao choro tem a ver com sua qualidade de vida. “Eu cursava o doutorado em Comunicação Social, mas estava insatisfeito, desanimado. Optei então por trancar o doutorado e começar a estudar flauta. Decidi projetar minha vida para me aposentar tocando choro. Resolvi cuidar da cabeça”, afirma.

Del 7 Cordas, 48, Marcílio, 67, e Ricardo, 33, completam o time mais ou menos fixo de músicos. “Sou o mais novo do Chorinho Amizade, mas também gosto de música boa. Com a convivência com as pessoas do grupo e os freqüentadores do bar, aprendo muito, adquiro experiência musical e de vida”, afirma Ricardo.

Nega maluca – Hilda Amorim, 60, vai ao Bar do Chorinho há uns dez anos, “para sambar e brincar”. Amiga dela, Vali Danielle, 63, diz que o bar é o melhor do Grande ABC, “e o resto é resto”. “Venho aqui e danço como uma nega maluca. Se Deus quiser, nesse pique chego aos 99 anos”, completa Vali.

Patrícia Couto Soares, 22, que freqüenta o bar há três anos, agora marca presença com uma nova companheira, a filha Laysa Eduarda Couto de Assis, de 11 meses. “A Laysa vem desde a barriga”, diz Patrícia.



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Bar do Chorinho é patrimônio cultural da cidade

Everaldo Fioravante
Do Diário do Grande ABC

05/02/2006 | 08:20


Chorinho ao vivo, bonito e bem-feito, mesinhas na calçada, cerveja bem gelada, porções apetitosas. Em torno, a reunião de amigos, gente de todas idades. Conversa para lá e para cá. É o Bar do Chorinho, em Santo André, um verdadeiro patrimônio cultural e histórico da cidade. Boteco sim, mas de ambiente familiar, lugar de respeito, para se divertir e, se quiser, também dançar. Todo domingo, religiosamente, esse simpático e descontraído conjunto de elementos garante casa lotada.

O bar existe há cerca de 30 anos e quem embala o domingão é o grupo Chorinho Amizade, numa tradicional mesa de choro que ocorre há uns 25 anos – começa às 11h e vai até às 15h. A casa fica na rua Ricardo de Lemos, 5, perto da avenida Firestone (tel.: 4972-5900). “Já estamos atendendo a terceira geração de clientes, pai, filho e neto. Aqui é bem tranqüilo, nunca houve uma confusão sequer”, diz Toninho, 57 anos, o dono do estabelecimento.

Aos interessados em garantir mesa e cadeira, a dica é chegar cedo, pois o local lota mesmo. Por domingo, cerca de 300 pessoas circulam por lá, quando o tempo ajuda – leia-se dia sem chuva. Já com o bar e a calçada repletos, o jeito é ocupar a rua mesmo (exceto a agitação do bar, a via tem pouco movimento). E para quem gosta de beber em copo de vidro, o negócio é garantir um e não largar mais, porque chega uma hora em que só restam os de plástico.

A cerveja, de garrafa, sempre está bem gelada – os engradados ficam pela calçada mesmo. São preenchidos conforme os vasilhames são esvaziados. As porções, deliciosas, são preparadas na hora. Tem inclusive frango assado, aquele da popular “televisão de cachorro”. Os preços praticados são justos. Melhor que isso...

Choro vivo – No repertório do grupo Chorinho Amizade consta música brasileira das antigas, composições cheias de poesia de mestres do porte de Cartola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Adoniran Barbosa.

Na teoria, o grupo que toca no bar é o mesmo de sempre. Só que, daqueles que começaram com as apresentações ainda com o nome de Os Boêmios, só resta um integrante, o pandeirista Nelson, 61 anos. “Dos fundadores, só sobrou eu. Os outros morreram”, afirma o veterano músico. O chorinho, porém, continua para lá de vivo. Autêntico.

Outro integrante antigo do grupo é o “Seu” Ditinho, bandolinista de 81 anos. “Toco com o grupo aqui e em outros lugares. Todo mundo gosta das apresentações, recebemos muitos aplausos”, diz. E se engana quem pensa que “Seu” Ditinho esbanja saúde só no chorinho. “Dirijo carro, ando de moto e tenho mulher mais nova que eu, a Dulcinéia, de 70 anos”, diz. Em meio à roda de choro, ele ainda beberica uma cervejinha.

Mimi, 70 anos de vida e 55 de carreira, além de tocar percussão, cede seu vozeirão à interpretação das pérolas do repertório, músicas boas que infeliz e dificilmente se ouve hoje nas rádios. Segundo ele, o Bar do Chorinho faz as vezes até de cupido. “Tem moça que conheceu namorado aqui e depois casou”, afirma ele, figura conhecida no Grande ABC.

Quem manda ver no cavaquinho é José Pereira, o Zóiudo, 77. Ele dá a receita particular para manter a forma: “Música e cachaça conserva. Tô jóia, meu!”.

Qualidade de vida – Para o professor universitário José Carlos Maziero, o Zequinha, 51, responsável pelos sopros, o sucesso do Bar do Chorinho é devido sobretudo a dois fatores: o repertório de qualidade e a constância. “Pode estar frio ou calor, qualquer dia, até véspera de feriado, que o choro não falta”, explica.

Para Zequinha, a dedicação ao choro tem a ver com sua qualidade de vida. “Eu cursava o doutorado em Comunicação Social, mas estava insatisfeito, desanimado. Optei então por trancar o doutorado e começar a estudar flauta. Decidi projetar minha vida para me aposentar tocando choro. Resolvi cuidar da cabeça”, afirma.

Del 7 Cordas, 48, Marcílio, 67, e Ricardo, 33, completam o time mais ou menos fixo de músicos. “Sou o mais novo do Chorinho Amizade, mas também gosto de música boa. Com a convivência com as pessoas do grupo e os freqüentadores do bar, aprendo muito, adquiro experiência musical e de vida”, afirma Ricardo.

Nega maluca – Hilda Amorim, 60, vai ao Bar do Chorinho há uns dez anos, “para sambar e brincar”. Amiga dela, Vali Danielle, 63, diz que o bar é o melhor do Grande ABC, “e o resto é resto”. “Venho aqui e danço como uma nega maluca. Se Deus quiser, nesse pique chego aos 99 anos”, completa Vali.

Patrícia Couto Soares, 22, que freqüenta o bar há três anos, agora marca presença com uma nova companheira, a filha Laysa Eduarda Couto de Assis, de 11 meses. “A Laysa vem desde a barriga”, diz Patrícia.

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