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Pandemia rouba sonhos de refugiados

Nario Barbosa/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Covid-19 criou ainda mais dificuldades às pessoas que deixaram seus países e adotaram o Brasil


Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

31/08/2020 | 00:01


A pandemia do novo coronavírus tornou-se uma obstáculo a mais para refugiados e imigrantes que escolheram o Grande ABC para recomeçar a vida. Longe da terra natal, eles encaram desafios que vão além dos já estabelecidos pelo atual cenário. Têm de aprender o novo idioma, conhecer os costumes e driblar o preconceito. E o surgimento da Covid-19 fez com que tudo isso ficasse ainda mais difícil, pois reduziu sobremaneira as oportunidades de emprego.

Foi justamente a falta de trabalho que motivou Paulete Isophe, 42 anos, a deixar Aquin, no Haiti, e mudar-se para o bairro de Utinga, em Santo André. Nos quatro em que vive na região, já fez bicos como auxiliar de limpeza, até ser contratada para atuar na mesma área por uma empresa de São Caetano. Mas o sonho do emprego fixo, que durou dois anos, chegou ao fim. Foi demitida há quatro meses, no ápice da crise financeira ocasionada pelo novo coronavírus, e ainda não se recolocou. 

Paulete e o marido (que pede para não ser identificado por ainda aguardar a regulamentação dos documentos) pagam R$ 400 de aluguel para viver com a filha Tainá, de 8 meses, em um cortiço com dois cômodos. “Nos viramos como podemos. Meu marido continua a fazer bicos, mas a situação piorou muito. A esperança agora é arrumar outro emprego para que entre mais dinheiro em casa. Por enquanto, dependemos de muitas doações e da solidariedade”. conta. Ao abrir sua geladeira com Tainá no colo, pouco havia ali. apenas uma panela e frutas que havia ganhado da Casa de Apoio ao Imigrante (leia mais abaixo).

Situação é parecida com a enfrentada por Kettia Merisier, 30. Também desempregada, ela, o marido (que igualmente ainda aguarda regulamentação) e o filho, Luckenail Sanon, 3, vivem no mesmo bairro há dois anos, quando vieram de Petit Gouvea, também no Haiti.

A vida é dura, diz Kettia,ainda com dificuldades para pronunciar o português, que entende bem. Ela afirma que não deixa de crer em um futuro melhor. “Sempre há esperança. Acreditamos que quando a pandemia acabar, possamos voltar a trabalhar. Pois, hoje, as pessoas ainda estão inseguras”, lamenta a refugiada. “(Quero) Que meu filho possa frequentar as escolas daqui e que as condições para nós (refugiados) melhorem cada dia mais”, projeta.

MELHORA DE VIDA

A crise venezuelana fez com que a família da dona de casa Yannely Aguilera, 40, deixasse a cidade de Bolivar com destino ao Brasil há quatro anos. Em seu país, faltava quase tudo. Emprego, dinheiro e até comida. Em busca de sobrevivência, fixou residência em Diadema, no bairro Amuhadi.

Na casa de Yannely e do marido, Javier Bellorin, 43, moram os dois filhos, Gerald, 17, e Hendrick, 11 e mais dois sobrinhos Jefferson Nunes, 21, e Fabíola Nunes, 20.

Até o início da pandemia, os ventos da mudança eram favoráveis. A família conseguia se manter financeiramente bem e ainda projetava iniciar a fabricação e venda de tequeños, que são salgados típicos da Venezuela, mas o sonho teve de ser adiado por causa da Covid-19. “Não vamos desistir, seguimos na esperança por dias melhores”, diz.

Apesar da reviravolta nos planos, que foi causada pelo vírus, a dona de casa não se abate. E quando compara a situação atual com a que vivia em seu País, encontra motivos de sobra para comemorar. “Nosso objetivo era encontrar oportunidades de trabalho, estudo e também melhorar nossa alimentação. Com um salário mínimo aqui (no Brasil), por exemplo, nos ajeitamos muito bem. Mas lá não dava para quase nada, isso quando, encontrávamos comida para comprar”, lembra.

A crise venezuelana impunha situações severas. Yannely conta que sua família realizava apenas uma refeição por dia. “Lá, um pacote de arroz de um quilo, por exemplo, custava em média R$ 25, convertendo na moeda daqui”, conta. Para efeito de comparação, um pacote de cinco quilos é vendido em torno de R$ 17 aqui, ou seja, o quilo sai por R$ 3,40, valor sete vezes menor. Por isso ela, o marido e os filhos não se arrependem de ter deixado tudo para trás.

Antes da pandemia, Gerald e Jefferson estavam empregados. Mas a chegada da doença custou seus empregos e, consequentemente, a diminuição na renda familiar.

Em comum, as três famílias têm a coragem de se aventurar em um país desconhecido e terem sido surpreendidos por uma pandemia no meio do caminho. Com a cara e a coragem, elas jamais deixaram de acreditar em dias melhores.

Centro de Apoio é o porto seguro

Criado em 2014, o Centro de Apoio ao Migrante, que também atende imigrantes e refugiados em Utinga, Santo André, proporciona acolhimento a quem vem de outros países. Mantido pelos padres scalabrinianos da Diocese de Santo André e por doações, o espaço auxilia na regularização de documentos, oferece aulas de português, ajuda a conseguir trabalho e entrega cestas básicas que são doadas por moradores do bairro ou encaminhadas por programas sociais. 

Segundo a coordenadora diocesana da Pastoral do Migrante e voluntária no Centro de Apoio, Helena Teodoro, antes da Covid-19, o espaço abrigava, em média, 150 refugiados. Esse número mais que triplicou recentemente, chegando a quase 600 pessoas.

“Com a pandemia, os trabalhos ficaram mais intensos por conta dessas pessoas terem perdido seus trabalhos e sua renda para sobreviver. Então, cada vez mais precisamos receber doações de alimentos e destinar para essa população”, afirma Helena.

O padre Pierre Dieucel, vigário da Igreja Matriz e coordenador da Centro de Apoio destaca que o local oferece computadores para que os refugiados possam entrar em contato com os familiares que ficaram no país de origem. “A fé e a cultura eles nunca se esquecem. Tentamos deixar esse espaço cada vez melhor para atendê-los e dar todo suporte que eles precisam”, comenta. 

Questões políticas, desemprego, guerras e crise econômica, segundo o religioso, são os principais motivos que fazem as pessoas deixarem suas pátrias e migrarem para outros lugares do mundo.

O Centro de Apoio passa por uma reforma. Após a conclusão da obra, vai oferecer espaços para a realização de bazares, seminários e também uma rádio, com conteúdo destinado aos imigrantes. 

Interessados em realizar doações podem entrar em contato pelo telefone 9 7354-8615. Mais informações podem ser obtidas por meio da página da instituição no Facebook (Centro de Apoio ao Migrante Diocese Santo Andre) ou pelo Youtube (Centro de Apoio ao Migrante)



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Pandemia rouba sonhos de refugiados

Covid-19 criou ainda mais dificuldades às pessoas que deixaram seus países e adotaram o Brasil

Yasmin Assagra
Do Diário do Grande ABC

31/08/2020 | 00:01


A pandemia do novo coronavírus tornou-se uma obstáculo a mais para refugiados e imigrantes que escolheram o Grande ABC para recomeçar a vida. Longe da terra natal, eles encaram desafios que vão além dos já estabelecidos pelo atual cenário. Têm de aprender o novo idioma, conhecer os costumes e driblar o preconceito. E o surgimento da Covid-19 fez com que tudo isso ficasse ainda mais difícil, pois reduziu sobremaneira as oportunidades de emprego.

Foi justamente a falta de trabalho que motivou Paulete Isophe, 42 anos, a deixar Aquin, no Haiti, e mudar-se para o bairro de Utinga, em Santo André. Nos quatro em que vive na região, já fez bicos como auxiliar de limpeza, até ser contratada para atuar na mesma área por uma empresa de São Caetano. Mas o sonho do emprego fixo, que durou dois anos, chegou ao fim. Foi demitida há quatro meses, no ápice da crise financeira ocasionada pelo novo coronavírus, e ainda não se recolocou. 

Paulete e o marido (que pede para não ser identificado por ainda aguardar a regulamentação dos documentos) pagam R$ 400 de aluguel para viver com a filha Tainá, de 8 meses, em um cortiço com dois cômodos. “Nos viramos como podemos. Meu marido continua a fazer bicos, mas a situação piorou muito. A esperança agora é arrumar outro emprego para que entre mais dinheiro em casa. Por enquanto, dependemos de muitas doações e da solidariedade”. conta. Ao abrir sua geladeira com Tainá no colo, pouco havia ali. apenas uma panela e frutas que havia ganhado da Casa de Apoio ao Imigrante (leia mais abaixo).

Situação é parecida com a enfrentada por Kettia Merisier, 30. Também desempregada, ela, o marido (que igualmente ainda aguarda regulamentação) e o filho, Luckenail Sanon, 3, vivem no mesmo bairro há dois anos, quando vieram de Petit Gouvea, também no Haiti.

A vida é dura, diz Kettia,ainda com dificuldades para pronunciar o português, que entende bem. Ela afirma que não deixa de crer em um futuro melhor. “Sempre há esperança. Acreditamos que quando a pandemia acabar, possamos voltar a trabalhar. Pois, hoje, as pessoas ainda estão inseguras”, lamenta a refugiada. “(Quero) Que meu filho possa frequentar as escolas daqui e que as condições para nós (refugiados) melhorem cada dia mais”, projeta.

MELHORA DE VIDA

A crise venezuelana fez com que a família da dona de casa Yannely Aguilera, 40, deixasse a cidade de Bolivar com destino ao Brasil há quatro anos. Em seu país, faltava quase tudo. Emprego, dinheiro e até comida. Em busca de sobrevivência, fixou residência em Diadema, no bairro Amuhadi.

Na casa de Yannely e do marido, Javier Bellorin, 43, moram os dois filhos, Gerald, 17, e Hendrick, 11 e mais dois sobrinhos Jefferson Nunes, 21, e Fabíola Nunes, 20.

Até o início da pandemia, os ventos da mudança eram favoráveis. A família conseguia se manter financeiramente bem e ainda projetava iniciar a fabricação e venda de tequeños, que são salgados típicos da Venezuela, mas o sonho teve de ser adiado por causa da Covid-19. “Não vamos desistir, seguimos na esperança por dias melhores”, diz.

Apesar da reviravolta nos planos, que foi causada pelo vírus, a dona de casa não se abate. E quando compara a situação atual com a que vivia em seu País, encontra motivos de sobra para comemorar. “Nosso objetivo era encontrar oportunidades de trabalho, estudo e também melhorar nossa alimentação. Com um salário mínimo aqui (no Brasil), por exemplo, nos ajeitamos muito bem. Mas lá não dava para quase nada, isso quando, encontrávamos comida para comprar”, lembra.

A crise venezuelana impunha situações severas. Yannely conta que sua família realizava apenas uma refeição por dia. “Lá, um pacote de arroz de um quilo, por exemplo, custava em média R$ 25, convertendo na moeda daqui”, conta. Para efeito de comparação, um pacote de cinco quilos é vendido em torno de R$ 17 aqui, ou seja, o quilo sai por R$ 3,40, valor sete vezes menor. Por isso ela, o marido e os filhos não se arrependem de ter deixado tudo para trás.

Antes da pandemia, Gerald e Jefferson estavam empregados. Mas a chegada da doença custou seus empregos e, consequentemente, a diminuição na renda familiar.

Em comum, as três famílias têm a coragem de se aventurar em um país desconhecido e terem sido surpreendidos por uma pandemia no meio do caminho. Com a cara e a coragem, elas jamais deixaram de acreditar em dias melhores.

Centro de Apoio é o porto seguro

Criado em 2014, o Centro de Apoio ao Migrante, que também atende imigrantes e refugiados em Utinga, Santo André, proporciona acolhimento a quem vem de outros países. Mantido pelos padres scalabrinianos da Diocese de Santo André e por doações, o espaço auxilia na regularização de documentos, oferece aulas de português, ajuda a conseguir trabalho e entrega cestas básicas que são doadas por moradores do bairro ou encaminhadas por programas sociais. 

Segundo a coordenadora diocesana da Pastoral do Migrante e voluntária no Centro de Apoio, Helena Teodoro, antes da Covid-19, o espaço abrigava, em média, 150 refugiados. Esse número mais que triplicou recentemente, chegando a quase 600 pessoas.

“Com a pandemia, os trabalhos ficaram mais intensos por conta dessas pessoas terem perdido seus trabalhos e sua renda para sobreviver. Então, cada vez mais precisamos receber doações de alimentos e destinar para essa população”, afirma Helena.

O padre Pierre Dieucel, vigário da Igreja Matriz e coordenador da Centro de Apoio destaca que o local oferece computadores para que os refugiados possam entrar em contato com os familiares que ficaram no país de origem. “A fé e a cultura eles nunca se esquecem. Tentamos deixar esse espaço cada vez melhor para atendê-los e dar todo suporte que eles precisam”, comenta. 

Questões políticas, desemprego, guerras e crise econômica, segundo o religioso, são os principais motivos que fazem as pessoas deixarem suas pátrias e migrarem para outros lugares do mundo.

O Centro de Apoio passa por uma reforma. Após a conclusão da obra, vai oferecer espaços para a realização de bazares, seminários e também uma rádio, com conteúdo destinado aos imigrantes. 

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