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Culto ao ódio


Rodolfo de Souza

29/11/2018 | 07:00


Quando se experimenta uma dor na alma por questão qualquer, além dos remédios faixa preta, com alguma frequência busca-se nas prateleiras de livrarias e de hipermercados aqueles livros que ensinam a conquistar amigos, ganhar dinheiro facilmente, arrumar um bem-querer, mil formas, enfim, de ajudar o sujeito a não se entupir de antidepressivos ou dar cabo da vida. Há também as edições de cunho religioso que não deixam por menos ao levar consolo ao leitor cheio de amargura, para quem só resta aguardar um milagre. Sem dúvida, uma infinidade de métodos de tratamento à disposição.

Não bastasse tudo isso, porém, e, recentemente descobri outra forma de lavar a alma inquieta, carregada de aporrinhação: submeter-se a doses cavalares de normalidade que constantemente nos levam a acreditar que tudo segue numa calmaria tediosa e sonolenta, pode ser a saída. Basta ligar a TV e pronto. Falo com conhecimento de causa, tendo em vista o sentimento que me brota no peito quando assisto a um telejornal das grandes redes de televisão, abertas ou a cabo. São noticiários que falam de futebol, de economia, de estabilidade, de proteção aos ecossistemas, de votação para aprovação de leis, sempre para o bem do povo... Falam ainda do comando que segue tranquilo, aprovando medidas de incentivo ao trabalhador de toga, só para bajular aquele que amanhã pode livrá-lo das grades. Tudo visto, claro, com absoluta naturalidade.

Entretanto, por não engolir a lenga-lenga diária que acaba por me cansar, troco de canal para ver se o jornalismo de lá segue noutra linha. Decepciono-me, contudo, ao perceber que a conversa fiada é a mesma. Desanimado, decido, então, beber de outras fontes para saber do frescor de suas águas. E é aí que chego à desconcertante conclusão de que o tempo anda mesmo fechado nesta terra de meu Deus, e que é sombrio o clima, e que a normalidade que ora se experimenta é bem outra.

A gente desta Pátria Tupinambá sempre contou com o apreço dos povos do mundo por ser composta de pessoas alegres e cheias da musicalidade e do colorido dos trópicos. No entanto, o povo começa a ver com apreensão esse conceito cair por terra, consequência dos últimos acontecimentos que abalaram as estruturas deste País mais do que os terremotos abalam as terras orientais. E tudo isso deu origem a um fenômeno que começou quando um segmento desta população se viu repentinamente ameaçado por outro que, do nada, se proclamou senhor da verdade e da justiça, tolhendo o direito do primeiro de manifestar a sua opinião a respeito de assuntos passíveis de discussão numa roda de amigos, no trabalho, na escola...

E foi a partir daí que a força bruta tomou o lugar do bom senso para impor uma vida toda ela pautada na estupidez que cerceia os movimentos e as expressões. A moda, então, passou a ser a opressão ao semelhante que tenta se fazer ouvir, ou mesmo aquele que segue calado, mas, cujo andar ou indumentária utilizada talvez não agrade ao agressor.

Preocupa, inclusive, a recente onda de ódio que contamina a gente de parco saber, que vê agora como inimigo a ser combatido com paus e pedras um determinado profissional, um trabalhador assalariado. Talvez porque usa da palavra para levar o conhecimento e elucidar fatos, é que ele esteja sendo perseguido agora. 

“É preciso calar a sua boca!” – brado retumbante, cheio de medo de ver finalmente acordada a população sonolenta que, sem perceber, caminha perigosamente para o abismo. 



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Culto ao ódio

Rodolfo de Souza

29/11/2018 | 07:00


Quando se experimenta uma dor na alma por questão qualquer, além dos remédios faixa preta, com alguma frequência busca-se nas prateleiras de livrarias e de hipermercados aqueles livros que ensinam a conquistar amigos, ganhar dinheiro facilmente, arrumar um bem-querer, mil formas, enfim, de ajudar o sujeito a não se entupir de antidepressivos ou dar cabo da vida. Há também as edições de cunho religioso que não deixam por menos ao levar consolo ao leitor cheio de amargura, para quem só resta aguardar um milagre. Sem dúvida, uma infinidade de métodos de tratamento à disposição.

Não bastasse tudo isso, porém, e, recentemente descobri outra forma de lavar a alma inquieta, carregada de aporrinhação: submeter-se a doses cavalares de normalidade que constantemente nos levam a acreditar que tudo segue numa calmaria tediosa e sonolenta, pode ser a saída. Basta ligar a TV e pronto. Falo com conhecimento de causa, tendo em vista o sentimento que me brota no peito quando assisto a um telejornal das grandes redes de televisão, abertas ou a cabo. São noticiários que falam de futebol, de economia, de estabilidade, de proteção aos ecossistemas, de votação para aprovação de leis, sempre para o bem do povo... Falam ainda do comando que segue tranquilo, aprovando medidas de incentivo ao trabalhador de toga, só para bajular aquele que amanhã pode livrá-lo das grades. Tudo visto, claro, com absoluta naturalidade.

Entretanto, por não engolir a lenga-lenga diária que acaba por me cansar, troco de canal para ver se o jornalismo de lá segue noutra linha. Decepciono-me, contudo, ao perceber que a conversa fiada é a mesma. Desanimado, decido, então, beber de outras fontes para saber do frescor de suas águas. E é aí que chego à desconcertante conclusão de que o tempo anda mesmo fechado nesta terra de meu Deus, e que é sombrio o clima, e que a normalidade que ora se experimenta é bem outra.

A gente desta Pátria Tupinambá sempre contou com o apreço dos povos do mundo por ser composta de pessoas alegres e cheias da musicalidade e do colorido dos trópicos. No entanto, o povo começa a ver com apreensão esse conceito cair por terra, consequência dos últimos acontecimentos que abalaram as estruturas deste País mais do que os terremotos abalam as terras orientais. E tudo isso deu origem a um fenômeno que começou quando um segmento desta população se viu repentinamente ameaçado por outro que, do nada, se proclamou senhor da verdade e da justiça, tolhendo o direito do primeiro de manifestar a sua opinião a respeito de assuntos passíveis de discussão numa roda de amigos, no trabalho, na escola...

E foi a partir daí que a força bruta tomou o lugar do bom senso para impor uma vida toda ela pautada na estupidez que cerceia os movimentos e as expressões. A moda, então, passou a ser a opressão ao semelhante que tenta se fazer ouvir, ou mesmo aquele que segue calado, mas, cujo andar ou indumentária utilizada talvez não agrade ao agressor.

Preocupa, inclusive, a recente onda de ódio que contamina a gente de parco saber, que vê agora como inimigo a ser combatido com paus e pedras um determinado profissional, um trabalhador assalariado. Talvez porque usa da palavra para levar o conhecimento e elucidar fatos, é que ele esteja sendo perseguido agora. 

“É preciso calar a sua boca!” – brado retumbante, cheio de medo de ver finalmente acordada a população sonolenta que, sem perceber, caminha perigosamente para o abismo. 

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