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Diagnóstico tardio
prejudica transplante

Médicos têm dificuldade em identificar a morte encefálica,
isto é, a perda definitiva e irreversível das funções cerebrais


Angela Martins

25/03/2012 | 07:00


As estratégias para diminuir a fila de espera por transplante vão além da rápida comunicação de óbito e cirurgia. Um dos principais problemas enfrentados hoje pelas equipes que fazem a captação de órgãos é o diagnóstico de morte encefálica – perda definitiva e irreversível das funções cerebrais. Apenas pacientes nessas condições podem ser doadores.

 

De acordo com a coordenadora do Spot (Serviço de Captação de Órgãos e Tecidos para Transplante) da Unifesp, Ana Paula Batista, muitas vezes o tempo levado para identificar o quadro significa a perda de órgãos para transplante. O serviço é responsável pelo trabalho em unidades de saúde de São Bernardo e São Caetano.

“O número de notificações por parte dos médicos aumentou nos últimos dois anos, mas ainda é preciso melhorar. Desde 2010 temos ministrado cursos para ajudar médicos a identificar os principais sintomas da morte encefálica, exatamente para reverter esse problema”, explica.

 

Em 2011, o Spot recebeu 40 notificações de possíveis doadores em São Bernardo e São Caetano. Apenas nove foram considerados viáveis. Em 2010, o número de notificações foi ligeiramente maior: 45. Destes, 15 doadores foram considerados aptos para transplante.

 

O Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, responsável pela captação de órgãos em outros hospitais da região, não respondeu aos questionamentos do Diário sobre o número de notificações e doadores viáveis.

Segundo o presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), José Medina Pestana, os números do Grande ABC são baixos, mas isso não acontece apenas na região. “É uma situação que precisa ser trabalhada em todo Brasil, de maneira gradativa. Em média, o número de doadores cresce 10% no País, por ano. No entanto, é possível aumentar ainda mais”, diz.

 

Após o diagnóstico de morte encefálica feito pelo médico, é aberto protocolo e são realizados dois exames clínicos e um complementar para confirmar o quadro do paciente. Este processo dura cerca de seis horas. A família é acionada para responder se concorda ou não com a doação. “Em geral, o índice de recusa tem se mantido baixo, em torno de 20%”, revela Ana Paula.

 

 

De maneira geral, todos os hospitais do Grande ABC estão aptos para manter um paciente com morte encefálica estável até a retirada dos órgãos. “Entretanto, o quadro é imprevisível e depende muito das condições gerais do organismo. Os médicos podem conseguir mantê-lo por horas, dias ou semanas, mas quanto antes for feita a cirurgia para retirada dos órgãos para transplante mais chances temos de sucesso”, conclui Ana Paula.

 

EM ALTA

O número de transplantes de órgãos em todo Estado passou de 360 em 2012 para 420 em 2011. Destaque também para o crescimento de 20,3% de transplantes de rim no primeiro bimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2011. Outro aumento foi registrado no número de transplantes de pulmão, que passou de três no primeiro bimestre do ano passado para 13 neste ano. Houve, ainda, em janeiro e fevereiro, 16 de coração, 14 de pâncreas e 105 de fígado.

O Estado de São Paulo registra taxa de doação de 21,2 por milhão de habitantes. Na Grande São Paulo essa taxa é de 31,8, comparável ao da Espanha, país considerado referência em doação de órgãos.

 

Região faz cirurgias de córnea e rim

Desde julho de 2011, o Hospital Estadual Mário Covas está autorizado a realizar transplantes de córnea. Atualmente, até quatro cirurgias por semana são realizadas no complexo hospitalar. É o único serviço público do Grande ABC a realizar o procedimento.

 

Já o Hospital de Ensino Anchieta, de São Bernardo, está credenciado para transplantes de rim e também retirada de órgãos.

 

Em 2011, foram feitos três transplantes renais, todos de doadores vivos. Não houve nenhum caso registrado em janeiro de 2012. A primeira cirurgia de retirada de órgão realizada no hospital foi feita em janeiro de 2010, em uma paciente de 76 anos que faleceu no Pronto-Socorro Central, sendo que foram aproveitados córnea e fígado para a realização do transplante no Hospital São Paulo. O procedimento foi realizado pela equipe de cirurgiões da Unifesp. Foram feitas sete captações de órgãos em 2010, com a retirada de coração, fígado, córnea e rins.

 

De acordo com a Prefeitura de São Bernardo, o Hospital de Ensino Anchieta recebe os munícipes encaminhados principalmente pelo Pronto-Socorro Central, estabelecimento que recebe todos os pacientes que requisitam atendimento, independentemente de seu local de residência.

O Hospital Assunção e o Hospital São Bernardo também encaminharam pacientes. A fila de espera é controlada pela Opos (Organização de Procura de Órgãos), que é um organismo ligado à Secretaria de Saúde do Estado.

 

Grande ABC tem 712 pessoas à espera de doador

Atualmente, 712 moradores do Grande ABC aguardam na fila por transplante. Em todo Estado, esse número chega a 12.213. Somente na espera por um rim são 635 pessoas na região. “Não existe tempo médio de espera, cada caso é diferente. O rim, por exemplo, pode vir de um doador vivo e, em geral, tem 80% de aproveitamento. Mas o pulmão não chega a 2%, por conta da fragilidade do órgão e das condições gerais do organismo do doador”, explica o coordenador da Central de Transplantes do Estado, Luiz Augusto Pereira.

 

Em 2011, foram realizados 418 transplantes em pacientes do Grande ABC. O número foi ligeiramente maior em 2010, quando foram realizadas 445 cirurgias. Naquele ano, a comerciante Inácia Antunes Nascimento de Paula, 51 anos, moradora de Diadema conseguiu se submeter a transplante de rim após espera de três anos e meio. “Apesar de fazer hemodiálise três vezes por semana, nunca parei de trabalhar e não perdi as esperanças. Minha fé me manteve de pé, à espera do doador”, relata.

 

Quando um sobrinho se ofereceu para doar o rim, Inácia não gostou da ideia. “Achava perigoso, preferia que fosse de uma pessoa já morta. Dias antes do exame para ver se tínhamos compatibilidade, ligaram do Hospital do Rim (localizado na Capital) e disseram que havia um órgão. Foi uma emoção muito grande, não consigo explicar”.

 

Agora, a comerciante faz acompanhamento médico a cada três meses e deve tomar remédios antirrejeição por toda a vida.

 



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Diagnóstico tardio
prejudica transplante

Médicos têm dificuldade em identificar a morte encefálica,
isto é, a perda definitiva e irreversível das funções cerebrais

Angela Martins

25/03/2012 | 07:00


As estratégias para diminuir a fila de espera por transplante vão além da rápida comunicação de óbito e cirurgia. Um dos principais problemas enfrentados hoje pelas equipes que fazem a captação de órgãos é o diagnóstico de morte encefálica – perda definitiva e irreversível das funções cerebrais. Apenas pacientes nessas condições podem ser doadores.

 

De acordo com a coordenadora do Spot (Serviço de Captação de Órgãos e Tecidos para Transplante) da Unifesp, Ana Paula Batista, muitas vezes o tempo levado para identificar o quadro significa a perda de órgãos para transplante. O serviço é responsável pelo trabalho em unidades de saúde de São Bernardo e São Caetano.

“O número de notificações por parte dos médicos aumentou nos últimos dois anos, mas ainda é preciso melhorar. Desde 2010 temos ministrado cursos para ajudar médicos a identificar os principais sintomas da morte encefálica, exatamente para reverter esse problema”, explica.

 

Em 2011, o Spot recebeu 40 notificações de possíveis doadores em São Bernardo e São Caetano. Apenas nove foram considerados viáveis. Em 2010, o número de notificações foi ligeiramente maior: 45. Destes, 15 doadores foram considerados aptos para transplante.

 

O Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, responsável pela captação de órgãos em outros hospitais da região, não respondeu aos questionamentos do Diário sobre o número de notificações e doadores viáveis.

Segundo o presidente da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), José Medina Pestana, os números do Grande ABC são baixos, mas isso não acontece apenas na região. “É uma situação que precisa ser trabalhada em todo Brasil, de maneira gradativa. Em média, o número de doadores cresce 10% no País, por ano. No entanto, é possível aumentar ainda mais”, diz.

 

Após o diagnóstico de morte encefálica feito pelo médico, é aberto protocolo e são realizados dois exames clínicos e um complementar para confirmar o quadro do paciente. Este processo dura cerca de seis horas. A família é acionada para responder se concorda ou não com a doação. “Em geral, o índice de recusa tem se mantido baixo, em torno de 20%”, revela Ana Paula.

 

 

De maneira geral, todos os hospitais do Grande ABC estão aptos para manter um paciente com morte encefálica estável até a retirada dos órgãos. “Entretanto, o quadro é imprevisível e depende muito das condições gerais do organismo. Os médicos podem conseguir mantê-lo por horas, dias ou semanas, mas quanto antes for feita a cirurgia para retirada dos órgãos para transplante mais chances temos de sucesso”, conclui Ana Paula.

 

EM ALTA

O número de transplantes de órgãos em todo Estado passou de 360 em 2012 para 420 em 2011. Destaque também para o crescimento de 20,3% de transplantes de rim no primeiro bimestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2011. Outro aumento foi registrado no número de transplantes de pulmão, que passou de três no primeiro bimestre do ano passado para 13 neste ano. Houve, ainda, em janeiro e fevereiro, 16 de coração, 14 de pâncreas e 105 de fígado.

O Estado de São Paulo registra taxa de doação de 21,2 por milhão de habitantes. Na Grande São Paulo essa taxa é de 31,8, comparável ao da Espanha, país considerado referência em doação de órgãos.

 

Região faz cirurgias de córnea e rim

Desde julho de 2011, o Hospital Estadual Mário Covas está autorizado a realizar transplantes de córnea. Atualmente, até quatro cirurgias por semana são realizadas no complexo hospitalar. É o único serviço público do Grande ABC a realizar o procedimento.

 

Já o Hospital de Ensino Anchieta, de São Bernardo, está credenciado para transplantes de rim e também retirada de órgãos.

 

Em 2011, foram feitos três transplantes renais, todos de doadores vivos. Não houve nenhum caso registrado em janeiro de 2012. A primeira cirurgia de retirada de órgão realizada no hospital foi feita em janeiro de 2010, em uma paciente de 76 anos que faleceu no Pronto-Socorro Central, sendo que foram aproveitados córnea e fígado para a realização do transplante no Hospital São Paulo. O procedimento foi realizado pela equipe de cirurgiões da Unifesp. Foram feitas sete captações de órgãos em 2010, com a retirada de coração, fígado, córnea e rins.

 

De acordo com a Prefeitura de São Bernardo, o Hospital de Ensino Anchieta recebe os munícipes encaminhados principalmente pelo Pronto-Socorro Central, estabelecimento que recebe todos os pacientes que requisitam atendimento, independentemente de seu local de residência.

O Hospital Assunção e o Hospital São Bernardo também encaminharam pacientes. A fila de espera é controlada pela Opos (Organização de Procura de Órgãos), que é um organismo ligado à Secretaria de Saúde do Estado.

 

Grande ABC tem 712 pessoas à espera de doador

Atualmente, 712 moradores do Grande ABC aguardam na fila por transplante. Em todo Estado, esse número chega a 12.213. Somente na espera por um rim são 635 pessoas na região. “Não existe tempo médio de espera, cada caso é diferente. O rim, por exemplo, pode vir de um doador vivo e, em geral, tem 80% de aproveitamento. Mas o pulmão não chega a 2%, por conta da fragilidade do órgão e das condições gerais do organismo do doador”, explica o coordenador da Central de Transplantes do Estado, Luiz Augusto Pereira.

 

Em 2011, foram realizados 418 transplantes em pacientes do Grande ABC. O número foi ligeiramente maior em 2010, quando foram realizadas 445 cirurgias. Naquele ano, a comerciante Inácia Antunes Nascimento de Paula, 51 anos, moradora de Diadema conseguiu se submeter a transplante de rim após espera de três anos e meio. “Apesar de fazer hemodiálise três vezes por semana, nunca parei de trabalhar e não perdi as esperanças. Minha fé me manteve de pé, à espera do doador”, relata.

 

Quando um sobrinho se ofereceu para doar o rim, Inácia não gostou da ideia. “Achava perigoso, preferia que fosse de uma pessoa já morta. Dias antes do exame para ver se tínhamos compatibilidade, ligaram do Hospital do Rim (localizado na Capital) e disseram que havia um órgão. Foi uma emoção muito grande, não consigo explicar”.

 

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