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Nakao imortaliza o efêmero


Rosângela Espinossi
Do Diário do Grande ABC

29/01/2005 | 16:23


Em 17 de junho de 2004, o estilista Jum Nakao deixou 1,2 mil pessoas boquiabertas ao apresentar seu desfile na edição primavera-verão da São Paulo Fashion Week. Naquele dia, o inquieto criador levou à passarela modelos de colantes pretos e peruca de Playmobil tendo por cima trabalhadíssimos e únicos vestidos de papel vegetal branco, cuja silhueta era inspirada em roupas do século XIX. Para o público, foram 15 minutos de contemplação e êxtase, observando as modelos entrarem com tais peças que mais lembravam obras de arte, dobradura, origamis. Jornalistas presentes já elaboravam as referências dos desfiles, anotando suas observações. E, no meio de conjecturas sobre como e onde guardar peças tão elaboradas, a estupefação. A trilha e as músicas mudam e as modelos, diante da platéia atônita, rasgam e picam os vestidos...

Não era o fim, mas o ponto de intersecção entre o início da elaboração da não-coleção, cuja concepção se iniciara 180 dias antes, e o ponto de partida para dar continuidade à idéia, cujo clímax ocorreu com a destruição das peças, que haviam consumido 700 horas de trabalho, 500 kg de papel e a mão-de-obra de 150 profissionais. Os vestidos já não existem, seus retalhos e fragmentos foram recolhidos como suvenires de uma viagem (ainda que imaginária e etérea) pelo público presente. A perpetuação deste trabalho, no entanto, acaba de ser lançada no livro e documentário A Costura do Invisível, editado pela editora Senac (R$ 150).

Numa belíssima edição, o livro de 202 páginas traz fotos, imagens e fragmentos de toda a elaboração da performance, além da explicação de Jum Nakao sobre suas inquietações de fazedor de moda. O DVD que acompanha o livro mostra desde o início a elaboração das peças, sua confecção, seu transporte até a sala de desfile, as provas de roupa, a colocação das peças nas modelos já maquiadas e as estratégias para guardar segredo absoluto do desfecho.

Os pensamentos de Jum Nakao, ancorados em frases de escritores e intelectuais, nos levam a refletir o caráter efêmero da moda, numa sociedade de consumo voraz como a que vivemos e que, a cada dia, também nos consome um pouquinho. Dão-nos também pistas sobre os pensamentos de um artista e os caminhos que percorre antes de finalizar uma obra. “Meus amigos sugeriram um instante de leveza, uma desconexão com a racionalidade. (...) Naquele instante mergulhei nessa viagem, totalmente desvencilhado dos limites, das regras, das convenções. Lá encontrei uma idéia bruta que emergiu como a síntese pura da metáfora necessária: uma coleção de papel.”

Ao folhear o livro ou ao ver o documentário, o leitor/espectador começa a freqüentar esse universo dos bastidores da moda com aquela sensação incômoda de já saber o fim do filme: a destruição de tudo o que vai sendo detalhadamente construído e planejado em absoluto sigilo. “A desinformação era necessária. Uma conspiração para gerar uma falsa verdade”, explica o artista/estilista. Até mesmo as modelos foram, digamos assim, “enganadas”. Jum e equipe disseram a elas que estavam provando apenas os moldes de papel, pois as roupas propriamente ditas ainda não estavam prontas. O segredo da destruição foi revelado alguns minutos antes do desfile. Depois do ensaio geral, nos bastidores, o estilista contou que elas tinham de destruir tudo quando a música e a luz mudassem. Um expressão de dó e susto na cara delas ainda não transformadas em “fadinhas Playmobil”, na definição do criador, é nítida no documentário.

Mesmo tão efêmera e arrasadora, a coleção agora volta em outro papel (do livro) e digitalizada, para sua perpetuação. E as peças das coleções apresentadas pelos outros estilistas no mesmo junho de 2004? Ainda passeiam pelas araras das lojas ou já estão perdidas numa “gaveta qualquer”. Sua destruição também é eminente, mas não tão chocante quanto à detonada por Jum Nakao em alguns segundos, agora imortalizada em A Costura do Invisível.



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