Fechar
Publicidade

Terça-Feira, 7 de Abril

|

Max º Min º
Clima da Região Trânsito Assine Clube do Assinante Diário Virtual Login

Setecidades

setecidades@dgabc.com.br | 4435-8319

Alunos conhecem o universo africano

Na Emeief Maria da Penha de Almeida Manfred, alunos descobrem diversidade cultural do país


Selma Viana
Do Diário do Grande ABC

01/12/2011 | 07:00


Era a primeira reunião pedagógica de 2011 na Emeief Profª Maria da Penha de Almeida Manfredi, na Vila Curuçá, em Santo André. Todo o corpo docente debatia o projeto a ser destacado na escola neste ano. A Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena caiu no debate. Havia dúvida sobre a relevância e os meios adequados de abordar o tema.

O debate virou o projeto coletivo Trabalhando a Cultura Africana na Escola e cada sala ficou responsável por desenvolver um tema: história, cantigas de roda, brinquedos e brincadeiras africanas, arte e culinária, palavras de origem africana, influências musicais e contos. "Foi um projeto fundamental para entender a diversidade cultural. Trabalhamos o conhecimento, o respeito e a preservação da cultura africana", avalia a diretora Edilene da Mota Dantas de Souza.

A classe da professora Maria da Glória Siqueira tinha como atribuição criar peça de teatro a partir de romance infantil que falasse da cultura afrodescendente. O livro escolhido foi Uana e Marrom de Terra, de Lia Zatz. É a história da menina negra que, internada no isolamento por causa de um sarampo, ganha de presente dos pais boneca com olhos pretos, iguaizinhos ao dela; cabelos escuros e bem enrolados, iguaizinhos ao dela e pele bem marrom, como sua pele, só que sem sarampo. A menina nunca teve boneca parecida com ela e tinha dúvidas se gostava. "Se ela achasse a boneca feia queria dizer que ela também seria feia. Eu entendi assim", analisa Pedro Henrique Silva Rosas, 8 anos.

A história continua. A personagem Uana fica insegura e acha que se levasse a boneca para brincar de casinha com as amigas ela só teria o papel de empregada. Escondeu o brinquedo embaixo do travesseiro e pensou seriamente em dar banho de cândida nele. Um dia, a boneca acorda linda, toda enfeitada e muito brava com Uana. "Bonita eu sempre fui, vem aqui que vou contar uma história". E o livro dá início à outra história, ou à lenda da Princesa Marrom da Terra, que deve ser continuada pelos alunos. "Eles tinham as referências de fábula como Branca de Neve. Então havia nos textos a bruxa, a princesa em perigo, o príncipe, os três porquinhos e outros. Cada dupla desenvolveu um texto. Aí juntamos trechos de cada um e criamos o texto coletivo, que seria representado na peça. O principal é que eles aprenderam que existe princesa também na África", detalha a professora.

"Eu gostei da parte em que a Uana estava pensando em jogar cândida na boneca e ela acaba sendo uma princesa. Foi a coisa mais alegre que já fiz", comemora Maria Eduarda Mazzia, 8 anos.

Na opinião de Maria da Glória, não deveria haver leis que obrigassem a implementação de políticas de inclusão, porque não deveria haver nenhum tipo de preconceito na sociedade.

Estender a mão ao próximo é lição de amor

Uma das brincadeiras que Pedro Augusto da Silva, 10 anos, mais gosta na hora do recreio é o tradicional pique-esconde, uma das mais praticadas pelas crianças. A preferência não seria de se estranhar se Pedro não tivesse limitação física que até pouco tempo o fazia usar andador e muletas. Mas em vez de recorrer a apoios mecânicos, ele prefere o suporte dos amigos da turma que lhe estendem o braço quando precisa, apesar dele mesmo estar cada vez mais independente.

Esse é exemplo do resultado prático do projeto Valores, desenvolvido pela professora Meire de Fátima Furtado, da Emeief Madre Teresa de Calcutá, no bairro João Ramalho, em Santo André. O objetivo é resgatar conceitos que remetam à solidariedade, amizade, respeito, ética, justiça, verdade, liberdade, cooperação, preservação e tantos outros valores que tiraram o homem do mundo das cavernas e o tornaram um ser sociável e civilizado.

Influenciada por educadores como Içami Tiba, Meire acredita que conscientizar as crianças desde cedo para a importância da convivência em grupo e sistematicamente reforçar esses valores contribuem para o aumento da tolerância e consequentemente a diminuição da agressividade e da violência ainda muito presentes em salas de aulas, principalmente entre os adolescentes. "Além disso, eles se tornam agentes multiplicadores, influenciando a família e a comunidade", afirma.

Aos 9 anos, Leonardo Penha Sutil pode ser modelo desse papel multiplicador. "Eu brigava com a minha irmã de 3 anos, mas agora eu a entendo", diz ele, que conhece bem o conceito de solidariedade e cooperação. Sendo apontado pelo colega Pedro como um dos grandes amigos, Leonardo também é muito elogiado pelas professoras que se encantam ao vê-lo como passou a ser mais cuidadoso com a irmã, que também requer atenção especial devido a limitações físicas.

E é o mesmo Leonardo que incorpora o filósofo Sócrates para uma das atividades do projeto, que discutiu por meio de uma encenação questões como respeito e verdade. Recontando a histórias das Três Peneiras, ele chama a atenção dos colegas sobre a importância da conscientização sobre o que vão falar sobre alguém ou sobre algo. "É preciso passar pelas três peneiras da verdade, da bondade e da necessidade", diz ele, que acrescenta ser desnecessário levar adiante qualquer comentário que não passe por esses filtros.

Interdisciplinar, o projeto englobou várias áreas do conhecimento e usou diversos recursos, como muita pesquisa na internet, exibição de filmes, leitura de livros e a criação de uma caixa de valores, disponível para toda escola, onde foram depositados materiais referentes aos valores que vinham sendo discutidos em turma. (Mirela Tavares)



Comentários

Atenção! Os comentários do site são via Facebook. Lembre-se de que o comentário é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do jornal. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e sua conta poderá ser banida.

Alunos conhecem o universo africano

Na Emeief Maria da Penha de Almeida Manfred, alunos descobrem diversidade cultural do país

Selma Viana
Do Diário do Grande ABC

01/12/2011 | 07:00


Era a primeira reunião pedagógica de 2011 na Emeief Profª Maria da Penha de Almeida Manfredi, na Vila Curuçá, em Santo André. Todo o corpo docente debatia o projeto a ser destacado na escola neste ano. A Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena caiu no debate. Havia dúvida sobre a relevância e os meios adequados de abordar o tema.

O debate virou o projeto coletivo Trabalhando a Cultura Africana na Escola e cada sala ficou responsável por desenvolver um tema: história, cantigas de roda, brinquedos e brincadeiras africanas, arte e culinária, palavras de origem africana, influências musicais e contos. "Foi um projeto fundamental para entender a diversidade cultural. Trabalhamos o conhecimento, o respeito e a preservação da cultura africana", avalia a diretora Edilene da Mota Dantas de Souza.

A classe da professora Maria da Glória Siqueira tinha como atribuição criar peça de teatro a partir de romance infantil que falasse da cultura afrodescendente. O livro escolhido foi Uana e Marrom de Terra, de Lia Zatz. É a história da menina negra que, internada no isolamento por causa de um sarampo, ganha de presente dos pais boneca com olhos pretos, iguaizinhos ao dela; cabelos escuros e bem enrolados, iguaizinhos ao dela e pele bem marrom, como sua pele, só que sem sarampo. A menina nunca teve boneca parecida com ela e tinha dúvidas se gostava. "Se ela achasse a boneca feia queria dizer que ela também seria feia. Eu entendi assim", analisa Pedro Henrique Silva Rosas, 8 anos.

A história continua. A personagem Uana fica insegura e acha que se levasse a boneca para brincar de casinha com as amigas ela só teria o papel de empregada. Escondeu o brinquedo embaixo do travesseiro e pensou seriamente em dar banho de cândida nele. Um dia, a boneca acorda linda, toda enfeitada e muito brava com Uana. "Bonita eu sempre fui, vem aqui que vou contar uma história". E o livro dá início à outra história, ou à lenda da Princesa Marrom da Terra, que deve ser continuada pelos alunos. "Eles tinham as referências de fábula como Branca de Neve. Então havia nos textos a bruxa, a princesa em perigo, o príncipe, os três porquinhos e outros. Cada dupla desenvolveu um texto. Aí juntamos trechos de cada um e criamos o texto coletivo, que seria representado na peça. O principal é que eles aprenderam que existe princesa também na África", detalha a professora.

"Eu gostei da parte em que a Uana estava pensando em jogar cândida na boneca e ela acaba sendo uma princesa. Foi a coisa mais alegre que já fiz", comemora Maria Eduarda Mazzia, 8 anos.

Na opinião de Maria da Glória, não deveria haver leis que obrigassem a implementação de políticas de inclusão, porque não deveria haver nenhum tipo de preconceito na sociedade.

Estender a mão ao próximo é lição de amor

Uma das brincadeiras que Pedro Augusto da Silva, 10 anos, mais gosta na hora do recreio é o tradicional pique-esconde, uma das mais praticadas pelas crianças. A preferência não seria de se estranhar se Pedro não tivesse limitação física que até pouco tempo o fazia usar andador e muletas. Mas em vez de recorrer a apoios mecânicos, ele prefere o suporte dos amigos da turma que lhe estendem o braço quando precisa, apesar dele mesmo estar cada vez mais independente.

Esse é exemplo do resultado prático do projeto Valores, desenvolvido pela professora Meire de Fátima Furtado, da Emeief Madre Teresa de Calcutá, no bairro João Ramalho, em Santo André. O objetivo é resgatar conceitos que remetam à solidariedade, amizade, respeito, ética, justiça, verdade, liberdade, cooperação, preservação e tantos outros valores que tiraram o homem do mundo das cavernas e o tornaram um ser sociável e civilizado.

Influenciada por educadores como Içami Tiba, Meire acredita que conscientizar as crianças desde cedo para a importância da convivência em grupo e sistematicamente reforçar esses valores contribuem para o aumento da tolerância e consequentemente a diminuição da agressividade e da violência ainda muito presentes em salas de aulas, principalmente entre os adolescentes. "Além disso, eles se tornam agentes multiplicadores, influenciando a família e a comunidade", afirma.

Aos 9 anos, Leonardo Penha Sutil pode ser modelo desse papel multiplicador. "Eu brigava com a minha irmã de 3 anos, mas agora eu a entendo", diz ele, que conhece bem o conceito de solidariedade e cooperação. Sendo apontado pelo colega Pedro como um dos grandes amigos, Leonardo também é muito elogiado pelas professoras que se encantam ao vê-lo como passou a ser mais cuidadoso com a irmã, que também requer atenção especial devido a limitações físicas.

E é o mesmo Leonardo que incorpora o filósofo Sócrates para uma das atividades do projeto, que discutiu por meio de uma encenação questões como respeito e verdade. Recontando a histórias das Três Peneiras, ele chama a atenção dos colegas sobre a importância da conscientização sobre o que vão falar sobre alguém ou sobre algo. "É preciso passar pelas três peneiras da verdade, da bondade e da necessidade", diz ele, que acrescenta ser desnecessário levar adiante qualquer comentário que não passe por esses filtros.

Interdisciplinar, o projeto englobou várias áreas do conhecimento e usou diversos recursos, como muita pesquisa na internet, exibição de filmes, leitura de livros e a criação de uma caixa de valores, disponível para toda escola, onde foram depositados materiais referentes aos valores que vinham sendo discutidos em turma. (Mirela Tavares)

Ao acessar você concorda com a nossa Política de Privacidade.


Para continuar, faça o seu login:


  • Aceito receber novidades e ofertas do Diário do Grande ABC e parceiros por
    correio eletrônico, mala direta, SMS ou outros meios de comunicação.


Ou acesse todo o conteúdo de forma ilimitada:

Veja como ter acesso a todo o conteúdo de forma ilimitada:

Copyright © 1995-2017 - Todos direitos reservados

;