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Desafio de dependente químico da região é encontrar tratamento


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

12/06/2005 | 09:00


O primeiro grande desafio de um dependente químico que vive no Grande ABC é, antes mesmo de controlar o vício e a compulsão, conseguir tratamento gratuito e de qualidade. A maioria das cidades não tem centros de referência para tratar alcoolismo e drogadição. São poucos os serviços que atendem às novas normas do Ministério da Saúde e seguem a linha antimanicomial, contra o confinamento prolongado. Em meio às pilhas de projetos que não se concretizam, as estatísticas da OMS (Organização Mundial de Saúde) estimam que 10% da população mundial enfrenta o drama da dependência. Na região, seriam 250 mil pessoas, com poucas políticas públicas consistentes para um problema que, segundo especialistas, é um dos maiores da saúde pública.

Enquanto municípios como Santo André e Diadema há quase uma década adotaram o tipo de acolhimento considerado modelo pelo governo federal, com os Caps-AD (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), as outras cidades ainda patinam na implementação de centros de referência semelhantes. Nos demais municípios, a porta de entrada para o tratamento continua sendo as UBSs (Unidades Básicas de Saúde), que não têm equipes capacitadas para lidar com o problema. As unidades acabam sendo a porta de saída para dependentes. O amparo muitas vezes vem de grupos de assistência filantrópicos, como o AA (Alcoólicos Anônimos), além de entidades religiosas, que não têm atendimento emergencial.

São Bernardo, a maior cidade do Grande ABC e o terceiro maior orçamento do Estado, só começou a elaborar o projeto no final do ano passado, após o Ministério Público constatar negligência do município na oferta de tratamento a jovens dependentes. Mauá e São Caetano também prometem inaugurar centros de referência até o fim do ano. Ribeirão Pires conta com o serviço afastado e de difícil acesso, que dificulta o tratamento e inibe a procura.

Na luta pela reabilitação, Santo André oferece centro com internação, tratamento ambulatorial e de emergências num só centro, o Napsad (Núcleo de Atenção Psicossocial para o Abuso de Álcool e Outras Drogas), na região central. Pioneira na promoção do amplo atendimento aos dependentes, é exemplo quase isolado de eficiência na região e se transformou referência nacional – é o único que funciona 24 horas, com equipes multidisciplinares.

O Napsad conta com o hospital-dia, onde o paciente pode freqüentar diariamente oficinas de música, dança e artesanato, além dos grupos terapêuticos. Só volta para casa para dormir; até as cinco refeições são oferecidas no centro às cerca de 30 pessoas que hoje participam do tratamento diário. “O tratamento ambulatorial prestado pelo hospital-dia substitui aqueles períodos longos de internação, em que o paciente passava meses internado, longe de tudo, e voltava a beber ou a se drogar no dia seguinte à alta. Hoje, internação é indicada só para controlar crises, de abstinência e desintoxicação”, explica o coordenador de Saúde Mental de Santo André, o psicólogo Décio Castro Alves.

O centro presta hoje cerca de 2 mil atendimentos por mês, entre internações, grupos de apoio aos dependentes e aos familiares. Além de cultivar o livre arbítrio e a individualidade dos pacientes, o programa trabalha com a política de redução de danos. Porque nem todo paciente consegue atingir o nível de abstinência total, ou está disposto a isso. O psicólogo afirma que só dois dependentes em dez conseguem atingir o que chama de “ápice da pirâmide”. “No topo, só dois se tornam abstêmios totais. Os outros oito estão na base e precisam de tratamento. Tem gente que não quer parar de usar e devemos respeitar.”

A redução de danos mudou o olhar de especialistas a respeito da dependência química e tem sido aplicada como uma das táticas para humanizar o processo. Para o psiquiatra Marcos da Costa Leite, professor da Faculdade de Medicina do ABC, a prática tem valor “importantíssimo” por respeitar a escolha e os limites do paciente. “A redução de danos tira o julgamento moral da questão. E na maioria das vezes é um modo de o tratamento se aproximar do paciente muito resistente à reabilitação. Ele começa aos poucos a administrar a dependência e pode até chegar a abstinência total. É mais democrático.”

O psiquiatra, que já ocupou o cargo de subsecretário da Secretaria Nacional Antidrogas, acha que as opções de tratamento na região estão muito aquém da demanda e que os municípios despertaram tarde para o problema. “É como colocar fechadura na porta só depois que foi arrombada.” Ainda assim, Leite vê progressos após as cidades se comprometeram a instalar os Caps-AD (Centro de Atenção Piscossocial + Álcool e Drogas), no modelo do governo.

Em Diadema, o Espaço Fernando Ramos atende 200 pacientes por mês e oferece opções de acolhimento semelhantes ao de Santo André, com menos fôlego. O centro funciona das 8h às 17h e não tem hospital-dia, falta compensada com centros de convivência, três vezes por semana. Os adultos enfrentam fila de espera para tratamento ambulatorial, que pode chegar a 20 dias.



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Desafio de dependente químico da região é encontrar tratamento

Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

12/06/2005 | 09:00


O primeiro grande desafio de um dependente químico que vive no Grande ABC é, antes mesmo de controlar o vício e a compulsão, conseguir tratamento gratuito e de qualidade. A maioria das cidades não tem centros de referência para tratar alcoolismo e drogadição. São poucos os serviços que atendem às novas normas do Ministério da Saúde e seguem a linha antimanicomial, contra o confinamento prolongado. Em meio às pilhas de projetos que não se concretizam, as estatísticas da OMS (Organização Mundial de Saúde) estimam que 10% da população mundial enfrenta o drama da dependência. Na região, seriam 250 mil pessoas, com poucas políticas públicas consistentes para um problema que, segundo especialistas, é um dos maiores da saúde pública.

Enquanto municípios como Santo André e Diadema há quase uma década adotaram o tipo de acolhimento considerado modelo pelo governo federal, com os Caps-AD (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), as outras cidades ainda patinam na implementação de centros de referência semelhantes. Nos demais municípios, a porta de entrada para o tratamento continua sendo as UBSs (Unidades Básicas de Saúde), que não têm equipes capacitadas para lidar com o problema. As unidades acabam sendo a porta de saída para dependentes. O amparo muitas vezes vem de grupos de assistência filantrópicos, como o AA (Alcoólicos Anônimos), além de entidades religiosas, que não têm atendimento emergencial.

São Bernardo, a maior cidade do Grande ABC e o terceiro maior orçamento do Estado, só começou a elaborar o projeto no final do ano passado, após o Ministério Público constatar negligência do município na oferta de tratamento a jovens dependentes. Mauá e São Caetano também prometem inaugurar centros de referência até o fim do ano. Ribeirão Pires conta com o serviço afastado e de difícil acesso, que dificulta o tratamento e inibe a procura.

Na luta pela reabilitação, Santo André oferece centro com internação, tratamento ambulatorial e de emergências num só centro, o Napsad (Núcleo de Atenção Psicossocial para o Abuso de Álcool e Outras Drogas), na região central. Pioneira na promoção do amplo atendimento aos dependentes, é exemplo quase isolado de eficiência na região e se transformou referência nacional – é o único que funciona 24 horas, com equipes multidisciplinares.

O Napsad conta com o hospital-dia, onde o paciente pode freqüentar diariamente oficinas de música, dança e artesanato, além dos grupos terapêuticos. Só volta para casa para dormir; até as cinco refeições são oferecidas no centro às cerca de 30 pessoas que hoje participam do tratamento diário. “O tratamento ambulatorial prestado pelo hospital-dia substitui aqueles períodos longos de internação, em que o paciente passava meses internado, longe de tudo, e voltava a beber ou a se drogar no dia seguinte à alta. Hoje, internação é indicada só para controlar crises, de abstinência e desintoxicação”, explica o coordenador de Saúde Mental de Santo André, o psicólogo Décio Castro Alves.

O centro presta hoje cerca de 2 mil atendimentos por mês, entre internações, grupos de apoio aos dependentes e aos familiares. Além de cultivar o livre arbítrio e a individualidade dos pacientes, o programa trabalha com a política de redução de danos. Porque nem todo paciente consegue atingir o nível de abstinência total, ou está disposto a isso. O psicólogo afirma que só dois dependentes em dez conseguem atingir o que chama de “ápice da pirâmide”. “No topo, só dois se tornam abstêmios totais. Os outros oito estão na base e precisam de tratamento. Tem gente que não quer parar de usar e devemos respeitar.”

A redução de danos mudou o olhar de especialistas a respeito da dependência química e tem sido aplicada como uma das táticas para humanizar o processo. Para o psiquiatra Marcos da Costa Leite, professor da Faculdade de Medicina do ABC, a prática tem valor “importantíssimo” por respeitar a escolha e os limites do paciente. “A redução de danos tira o julgamento moral da questão. E na maioria das vezes é um modo de o tratamento se aproximar do paciente muito resistente à reabilitação. Ele começa aos poucos a administrar a dependência e pode até chegar a abstinência total. É mais democrático.”

O psiquiatra, que já ocupou o cargo de subsecretário da Secretaria Nacional Antidrogas, acha que as opções de tratamento na região estão muito aquém da demanda e que os municípios despertaram tarde para o problema. “É como colocar fechadura na porta só depois que foi arrombada.” Ainda assim, Leite vê progressos após as cidades se comprometeram a instalar os Caps-AD (Centro de Atenção Piscossocial + Álcool e Drogas), no modelo do governo.

Em Diadema, o Espaço Fernando Ramos atende 200 pacientes por mês e oferece opções de acolhimento semelhantes ao de Santo André, com menos fôlego. O centro funciona das 8h às 17h e não tem hospital-dia, falta compensada com centros de convivência, três vezes por semana. Os adultos enfrentam fila de espera para tratamento ambulatorial, que pode chegar a 20 dias.

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