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Crianças ganham espaço no tráfico


Gabriel Batista
Do Diário do Grande ABC

12/06/2005 | 08:56


O tráfico de drogas no Grande ABC recruta cada vez mais crianças de 8 a 12 anos para trabalhar nas bocas de venda de maconha, crack e cocaína. Geralmente, ocupam as funções de aviãozinho e olheiro, cargos criados no crime organizado respectivamente para quem transporta entorpecentes ou cuida dos arredores da boca. Mas também há casos de meninos que vendem a droga. Essa tendência começou a ser percebida há cerca de um ano pela polícia, conselhos tutelares, promotores do Ministério Público e entidades de apoio a favelas da região.

A conselheira tutelar de Santo André Maria do Socorro da Silva afirma que hoje o órgão atende de dois a três casos por mês de crianças envolvidas diretamente com o tráfico. Um ano em meio atrás, não chegavam histórias semelhantes ao Conselho Tutelar da cidade. “Essas crianças ganham mais do que o pai e a mãe juntos”, diz a conselheira. Uma criança ou um adolescente atuante no tráfico pode ganhar até R$ 750 por semana (R$ 3 mil por mês).

O tráfico não aceita qualquer criança. Como todo empreendimento estruturado, o crime organizado tem prazos, metas, salários fixos, turnos a serem cumpridos e avaliação de cada funcionário. Tudo isso na informalidade, é lógico. Para movimentar todo esse esquema, gerentes e donos dos pontos de venda selecionam garotos, na visão dos traficantes, responsáveis e com estrutura familiar. Não querem rapazes viciados em drogas porque esses podem se envolver em roubos banais e trazer problemas para as bocas.

“Os traficantes não querem o chamado nóia (menino descontrolado pela dependência)”, diz a coordenadora do Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo, Sidnéia Bueno. “Se um garoto começa a consumir drogas, é instantaneamente descartado pelo tráfico”, afirma a conselheira tutelar Maria do Socorro da Silva, de Santo André. O tráfico tem mecanismos para substituir no mesmo dia um integrante detido pela polícia ou dispensado pelos gerentes do crime.

Em São Bernardo, o Conselho Tutelar também observou a precocidade para o tráfico, embora não disponha de levantamento estatístico. “Percebi que cresceu o número de crianças, principalmente com 11 e 12 anos, que participam do tráfico no último ano”, diz o conselheiro Sérgio Linhares Hora.

Não há vagas para todas as crianças que querem trabalhar para o crime organizado. Estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), feito há dois anos no Rio de Janeiro, verificou que a maioria das crianças tem vontade de servir de aviãozinho. Porém, a indústria da droga só consegue absorver uma minoria. A pesquisa também revelou que uma criança vive em média dois anos e meio após entrar no tráfico.

“O garoto faz 8, 10 ou 12 anos quer um videogame, uma bicicleta, andar mais bem arrumado. Só vai perceber que comprometeu sua vida quando chega aos 15 ou 16 anos. Mas aí, não tem mais volta”, diz Pedro Américo Furtado de Oliveira, o coordenador no Brasil do Programa da OIT para Eliminação do Trabalho Infantil.

O coordenador da OIT diz que São Paulo não está copiando o modelo carioca, mas que o uso de crianças no tráfico pode surgir em qualquer espaço de pobreza dominante. As necessidades de consumo desses meninos casam com o crime organizado. Crianças são mão-de-obra mais barata e não têm muita noção de perigo.

Para o promotor de Justiça Eder Segura, coordenador do Grupo de Atuação Especial noCombate ao Crime Organizado, os traficantes têm optado por usar crianças com menos de 12 anos porque eles não podem ser internados na Febem (Fundação do Bem-Estar do Menor). “São entregues aos pais e, no dia seguinte, voltam para a boca.” Dessa forma, os traficantes também economizam em suborno para policiais corruptos.

Um levantamento da Febem sobre o crime praticado pelos internos (13 a 17 anos) em todo o Estado revelou que quadruplicou o número de adolescentes detidos por participação no tráfico de drogas nos últimos cinco anos. Passaram de 165, em 2000, a 715, em 2004. O transporte ou venda de entorpecentes é hoje a segunda maior causa de internação na Febem, atrás apenas do roubo qualificado.

A pressão do cargo de olheiro ou aviãozinho deixa essas crianças em estado de paranóia. A coordenadora do Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo, Sidnéia Bueno, conta que os garotos acompanhados pela entidade – os que estão envolvidos com a venda de drogas – acreditam que o partido (maneira como se referem à facção criminosa PCC) está em todos os lugares e tem ligação com quase todas as pessoas. Essas crianças têm poucos amigos e não falam sobre o trabalho a ninguém.

A pedido do Diário, a polícia indicou os principais pontos de vendas de droga no Grande ABC (veja quadro acima). Quase todas as biqueiras – nome dado pelos criminosos às bocas – vendem maconha, cocaína e crack. Quando só comercializa um tipo de entorpecente é porque os outros estão em falta na determinada área. Um papelote de cocaína com 1g é vendido a R$ 10; a pedra de crack, por R$ 5; e 5g de maconha, por R$ 5. O quilo de cocaína na Grande São Paulo custa US$ 5 mil. Na Europa, US$ 36 mil.



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Crianças ganham espaço no tráfico

Gabriel Batista
Do Diário do Grande ABC

12/06/2005 | 08:56


O tráfico de drogas no Grande ABC recruta cada vez mais crianças de 8 a 12 anos para trabalhar nas bocas de venda de maconha, crack e cocaína. Geralmente, ocupam as funções de aviãozinho e olheiro, cargos criados no crime organizado respectivamente para quem transporta entorpecentes ou cuida dos arredores da boca. Mas também há casos de meninos que vendem a droga. Essa tendência começou a ser percebida há cerca de um ano pela polícia, conselhos tutelares, promotores do Ministério Público e entidades de apoio a favelas da região.

A conselheira tutelar de Santo André Maria do Socorro da Silva afirma que hoje o órgão atende de dois a três casos por mês de crianças envolvidas diretamente com o tráfico. Um ano em meio atrás, não chegavam histórias semelhantes ao Conselho Tutelar da cidade. “Essas crianças ganham mais do que o pai e a mãe juntos”, diz a conselheira. Uma criança ou um adolescente atuante no tráfico pode ganhar até R$ 750 por semana (R$ 3 mil por mês).

O tráfico não aceita qualquer criança. Como todo empreendimento estruturado, o crime organizado tem prazos, metas, salários fixos, turnos a serem cumpridos e avaliação de cada funcionário. Tudo isso na informalidade, é lógico. Para movimentar todo esse esquema, gerentes e donos dos pontos de venda selecionam garotos, na visão dos traficantes, responsáveis e com estrutura familiar. Não querem rapazes viciados em drogas porque esses podem se envolver em roubos banais e trazer problemas para as bocas.

“Os traficantes não querem o chamado nóia (menino descontrolado pela dependência)”, diz a coordenadora do Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo, Sidnéia Bueno. “Se um garoto começa a consumir drogas, é instantaneamente descartado pelo tráfico”, afirma a conselheira tutelar Maria do Socorro da Silva, de Santo André. O tráfico tem mecanismos para substituir no mesmo dia um integrante detido pela polícia ou dispensado pelos gerentes do crime.

Em São Bernardo, o Conselho Tutelar também observou a precocidade para o tráfico, embora não disponha de levantamento estatístico. “Percebi que cresceu o número de crianças, principalmente com 11 e 12 anos, que participam do tráfico no último ano”, diz o conselheiro Sérgio Linhares Hora.

Não há vagas para todas as crianças que querem trabalhar para o crime organizado. Estudo da OIT (Organização Internacional do Trabalho), feito há dois anos no Rio de Janeiro, verificou que a maioria das crianças tem vontade de servir de aviãozinho. Porém, a indústria da droga só consegue absorver uma minoria. A pesquisa também revelou que uma criança vive em média dois anos e meio após entrar no tráfico.

“O garoto faz 8, 10 ou 12 anos quer um videogame, uma bicicleta, andar mais bem arrumado. Só vai perceber que comprometeu sua vida quando chega aos 15 ou 16 anos. Mas aí, não tem mais volta”, diz Pedro Américo Furtado de Oliveira, o coordenador no Brasil do Programa da OIT para Eliminação do Trabalho Infantil.

O coordenador da OIT diz que São Paulo não está copiando o modelo carioca, mas que o uso de crianças no tráfico pode surgir em qualquer espaço de pobreza dominante. As necessidades de consumo desses meninos casam com o crime organizado. Crianças são mão-de-obra mais barata e não têm muita noção de perigo.

Para o promotor de Justiça Eder Segura, coordenador do Grupo de Atuação Especial noCombate ao Crime Organizado, os traficantes têm optado por usar crianças com menos de 12 anos porque eles não podem ser internados na Febem (Fundação do Bem-Estar do Menor). “São entregues aos pais e, no dia seguinte, voltam para a boca.” Dessa forma, os traficantes também economizam em suborno para policiais corruptos.

Um levantamento da Febem sobre o crime praticado pelos internos (13 a 17 anos) em todo o Estado revelou que quadruplicou o número de adolescentes detidos por participação no tráfico de drogas nos últimos cinco anos. Passaram de 165, em 2000, a 715, em 2004. O transporte ou venda de entorpecentes é hoje a segunda maior causa de internação na Febem, atrás apenas do roubo qualificado.

A pressão do cargo de olheiro ou aviãozinho deixa essas crianças em estado de paranóia. A coordenadora do Projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo, Sidnéia Bueno, conta que os garotos acompanhados pela entidade – os que estão envolvidos com a venda de drogas – acreditam que o partido (maneira como se referem à facção criminosa PCC) está em todos os lugares e tem ligação com quase todas as pessoas. Essas crianças têm poucos amigos e não falam sobre o trabalho a ninguém.

A pedido do Diário, a polícia indicou os principais pontos de vendas de droga no Grande ABC (veja quadro acima). Quase todas as biqueiras – nome dado pelos criminosos às bocas – vendem maconha, cocaína e crack. Quando só comercializa um tipo de entorpecente é porque os outros estão em falta na determinada área. Um papelote de cocaína com 1g é vendido a R$ 10; a pedra de crack, por R$ 5; e 5g de maconha, por R$ 5. O quilo de cocaína na Grande São Paulo custa US$ 5 mil. Na Europa, US$ 36 mil.

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