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Navegadores Urbanos

Contudo, computadores não pensam. Um endereço errado ou percurso que obrigue o motorista a cruzar áreas de elevado risco podem gerar desde perda de tempo a tragédias


Creso Peixoto

17/06/2017 | 07:20


– Carlos, pergunte para alguém! Falara Cidinha, enquanto abaixava ligeiramente a cabeça para enxergar melhor através do para-brisa. Estavam praticamente perdidos nas ruas do bairro Ipiranga. Algumas pessoas passavam na rua, mas Carlos não parava.

– Eu conheço o caminho! Voz sem entonação, quase que automática. Nem ele demonstrava crer mesmo na afirmação.

Mais um quarteirão para dar volta. Tentar achar novamente o caminho do mar, a Via Anchieta. Vinham para a praia eventualmente, sem reserva de hotel ou qualquer planejamento. Bastava para quebrar a monotonia do intenso trabalho e a excessiva tranquilidade de distante cidade do Interior.

Os primeiros raios de sol já surgiam no horizonte paulistano. O filho, ainda criança, dormia no minúsculo banco traseiro do Prefect, de reluzentes metais cromados a contrastar com a sisuda lataria preta. Ao lado do Carlinhos, em vez de irmã que nasceria anos depois, um balde com água. O carro esquentava durante viagens longas. Dr. Carlos, quase num ritual, torcia um pano e aguardava a bomba de gasolina esfriar. Seguiam viagem. Um verdadeiro contraste no percurso da Via Anhanguera, onde a emoção do filho era com os solavancos a cada poucos metros. O pavimento de concreto tinha juntas que geravam curioso ruído. À época, prova de que o carro estava na espetacular velocidade máxima, 60 km/h.

Este cenário mudou dramaticamente em 50 anos. Os problemas atuais são congestionamentos, do risco de acidentes e assaltos. A tecnologia oferece o conhecido GPS, sigla estranha de sistema de posicionamento global. Na prática, um navegador. Basta digitar destino e seguir viagem. Voz e imagem orientam o motorista.

Contudo, computadores não pensam. Um endereço errado ou percurso que obrigue o motorista a cruzar áreas de elevado risco podem gerar desde perda de tempo a tragédias. Em Niterói, Rio de Janeiro, a mulher de um motorista é assassinada. Metralharam o carro. O motorista não percebera que cruzava uma comunidade onde o crime é o poder.

O surgimento mundial das rádios que falam sobre trânsito deu nova dinâmica ao setor. Informam onde evitar, mas não por onde seguir. Grandes cidades brasileiras, distintas de outras norte-americanas, não têm muitas vias alternativas. Saia da marginal congestionada para sofrer em infindáveis vias estreitas, com semáforos que parecem programados para irritar qualquer um.

A rápida obsolescência de programas e máquinas é a resposta do surgimento do Waze. Um programa disponível em smartphones, que parecem já compor a quarta parte do corpo para muitos. Mas o problema continua. Seus divertidos ícones parecem transformar a rua em parque de diversões e o caminho a seguir, uma lembrança de montanha russa.

O Moovit, um passo à frente. Navegador com foco na futura solução, transporte público.

O procedimento ideal é o planejamento antecipado. Indica-se o Google Maps para saber distância, um site de estimativa de custos de combustível e pedágio. Por exemplo, o mapeia.com.br. Caso não se conheça o destino, o Google Street permite ver o local, mesmo não sendo imagem recente, quando no local do prédio de destino tenha um canteiro de obras. Imprima o trajeto para evitar surpresas. Pronto. A tempo: não poste imagens ou informações em redes sociais. Podem reservar desagradáveis surpresas na volta, como uma casa assaltada. Afinal, bandidos também usam da informática.

Subitamente o menino acorda. O carro, parado em local estranho.
– Chegou em Santos?
– Não, meu amor! A mãe responde. O pai saíra do carro e observava o fim de uma rua. À frente, um abismo com lixão a distância.

Carlinhos fica nas pontas dos pés, entre os bancos e olha o pai. Seu olhar era de que talvez nunca mais visse o mar. Derruba uma lágrima enquanto a mãe o afaga. Um pedestre finalmente é perguntado. Indica o caminho. 



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Navegadores Urbanos

Contudo, computadores não pensam. Um endereço errado ou percurso que obrigue o motorista a cruzar áreas de elevado risco podem gerar desde perda de tempo a tragédias

Creso Peixoto

17/06/2017 | 07:20


– Carlos, pergunte para alguém! Falara Cidinha, enquanto abaixava ligeiramente a cabeça para enxergar melhor através do para-brisa. Estavam praticamente perdidos nas ruas do bairro Ipiranga. Algumas pessoas passavam na rua, mas Carlos não parava.

– Eu conheço o caminho! Voz sem entonação, quase que automática. Nem ele demonstrava crer mesmo na afirmação.

Mais um quarteirão para dar volta. Tentar achar novamente o caminho do mar, a Via Anchieta. Vinham para a praia eventualmente, sem reserva de hotel ou qualquer planejamento. Bastava para quebrar a monotonia do intenso trabalho e a excessiva tranquilidade de distante cidade do Interior.

Os primeiros raios de sol já surgiam no horizonte paulistano. O filho, ainda criança, dormia no minúsculo banco traseiro do Prefect, de reluzentes metais cromados a contrastar com a sisuda lataria preta. Ao lado do Carlinhos, em vez de irmã que nasceria anos depois, um balde com água. O carro esquentava durante viagens longas. Dr. Carlos, quase num ritual, torcia um pano e aguardava a bomba de gasolina esfriar. Seguiam viagem. Um verdadeiro contraste no percurso da Via Anhanguera, onde a emoção do filho era com os solavancos a cada poucos metros. O pavimento de concreto tinha juntas que geravam curioso ruído. À época, prova de que o carro estava na espetacular velocidade máxima, 60 km/h.

Este cenário mudou dramaticamente em 50 anos. Os problemas atuais são congestionamentos, do risco de acidentes e assaltos. A tecnologia oferece o conhecido GPS, sigla estranha de sistema de posicionamento global. Na prática, um navegador. Basta digitar destino e seguir viagem. Voz e imagem orientam o motorista.

Contudo, computadores não pensam. Um endereço errado ou percurso que obrigue o motorista a cruzar áreas de elevado risco podem gerar desde perda de tempo a tragédias. Em Niterói, Rio de Janeiro, a mulher de um motorista é assassinada. Metralharam o carro. O motorista não percebera que cruzava uma comunidade onde o crime é o poder.

O surgimento mundial das rádios que falam sobre trânsito deu nova dinâmica ao setor. Informam onde evitar, mas não por onde seguir. Grandes cidades brasileiras, distintas de outras norte-americanas, não têm muitas vias alternativas. Saia da marginal congestionada para sofrer em infindáveis vias estreitas, com semáforos que parecem programados para irritar qualquer um.

A rápida obsolescência de programas e máquinas é a resposta do surgimento do Waze. Um programa disponível em smartphones, que parecem já compor a quarta parte do corpo para muitos. Mas o problema continua. Seus divertidos ícones parecem transformar a rua em parque de diversões e o caminho a seguir, uma lembrança de montanha russa.

O Moovit, um passo à frente. Navegador com foco na futura solução, transporte público.

O procedimento ideal é o planejamento antecipado. Indica-se o Google Maps para saber distância, um site de estimativa de custos de combustível e pedágio. Por exemplo, o mapeia.com.br. Caso não se conheça o destino, o Google Street permite ver o local, mesmo não sendo imagem recente, quando no local do prédio de destino tenha um canteiro de obras. Imprima o trajeto para evitar surpresas. Pronto. A tempo: não poste imagens ou informações em redes sociais. Podem reservar desagradáveis surpresas na volta, como uma casa assaltada. Afinal, bandidos também usam da informática.

Subitamente o menino acorda. O carro, parado em local estranho.
– Chegou em Santos?
– Não, meu amor! A mãe responde. O pai saíra do carro e observava o fim de uma rua. À frente, um abismo com lixão a distância.

Carlinhos fica nas pontas dos pés, entre os bancos e olha o pai. Seu olhar era de que talvez nunca mais visse o mar. Derruba uma lágrima enquanto a mãe o afaga. Um pedestre finalmente é perguntado. Indica o caminho. 

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