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Poemas coreográficos de Ravel



04/11/2008 | 07:09


A história verídica de um jovem soldado alemão, participante da Batalha de Stalingrado durante a Segunda Guerra, teve um papel decisivo na coreografia inédita criada por Olaf Schmidt para a Cia. Sociedade Masculina. O pesado inverno, que castigou aliados e soviéticos e ajudou a disfarçar, debaixo da espessa neve, mais de 1 milhão de corpos mutilados no fim do ano de 1942, foi cenário de uma emboscada enfrentada por um parente muito próximo a Olaf. "A imagem dele cercado por tropas soviéticas, a tentativa em vão de fuga pelo chão congelado e a certeza de que dali ninguém sairia vivo inspirou toda a criação desse trabalho", conta o coreógrafo nascido em Berlim em 1963.

O trabalho em questão é La Valse, obra composta por Maurice Ravel em 1919 e que levou dez anos para ser encenada pela primeira vez. Definida pelo francês como Poema Coreográfico, foi apresentada à Sergei Diaghilev, fundador dos Balés Russos, com a intenção de que fosse montada por seu corpo de baile. Mas a profusão de texturas sonoras, muitas vezes ásperas, fruto do momento pós-Guerra, fez com que Diaghilev se recusasse a coreografá-la.

A idéia inicial de Ravel era prestar uma homenagem à valsa vienense, tendo iniciado a composição de La Valse em 1909. No entanto, a atmosfera romântica não demorou para se dissipar com o início da Primeira Guerra: Ravel teve de interromper sua produção por um ano, de 1916 a 1917, quando se alistou no Exército. E a continuação da composição jamais seria a mesma.

A coreógrafa bielo-russa Bronislava Nijinska, irmã mais nova do grande bailarino Vaslav Nijinsky, foi a primeira a se arriscar no desenho coreográfico para La Valse. Costumava dizer que ao ouvir músicas tocantes como essa conseguia vislumbrar mentalmente não só movimentos como toda uma narrativa. Ida Rubenstein foi chamada para abrilhantar a estréia na ópera de Paris, no dia 23 de maio de 1929.

Inicialmente pensada como uma dança para casais, La Valse ganha agora a interpretação de personagens masculinos, tão-somente. Os oito bailarinos integrantes da Cia. Sociedade Masculina agregam força física e um embate psicológico. Estão armados para o ataque, mas também para a defesa que transparece frágil e escorrega por entre as pernas, os braços e os dedos.

"Sempre me perguntam se a coreografia perderia um tanto dessa tensão se fosse encenada apenas por mulheres. O fato é que não existe essa competição de forças. A mulher teria uma outra interpretação, mas agregaria um outro poder. Assim como a sensualidade é relativa, a força também é. A beleza do movimento não está ligada ao sexo", opina Anselmo Zolla, diretor artístico da companhia, que estudou nove anos na Alemanha na década e lá conheceu Olaf.

Zolla ficou extasiado com uma montagem que assistiu do alemão em Kaiserslautern, onde Olaf dirigia uma companhia homônima à cidade. Era outra obra-prima de Ravel: Bolero, também coreografada pela primeira vez em 1928. "O que mais me impressionou é que a peça não tem tempo. Ela é ligada aos indivíduos que a constituem", diz o brasileiro.

"Olaf trouxe para o palco personagens que encontramos todos os dias na rua, mas que acabaram virando ‘rotina', passando despercebidos." Foi Bolero a peça-chave que acabou motivando o programa que a Cia. Sociedade Masculina apresenta, junto ao Studio 3 Cia. De Dança, hoje e amanhã no Festival Conexão Internacional de Dança, no Teatro Sérgio Cardoso (tel.: 3288-0136): Ravel, por Olaf Schmidt.

"Bolero fala da solidão do ser humano e de como ele se esconde atrás de sua armadura. Traz a dramaticidade da realidade que você vive e não vê", complementa Zolla. Na opinião de Olaf, o espetáculo cuja inspiração veio do filme O Baile, de Ettore Scola, é triste, ainda que o público caia na gargalhada. Dezesseis personagens estão à procura de um(a) parceiro(a) para toda a vida. No entanto, tudo o que encontram é a solidão. "São tantos os problemas individuais que eles não são capazes de sublimar para se entregar ao amor", define Olaf. Loosing Sight of the Shore completa o programa, ilustrado pelo segundo movimento do Concerto para Piano em Sol Maior, Adagio Assai, de Ravel, sobre os perigos da busca irrefreada do ideal.



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