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Poeta Rafael Alberti morre aos 96 anos na Espanha


Do Diário do Grande ABC

28/10/1999 | 11:28


O poeta espanhol Rafael Alberti, 96 anos, morreu na noite desta quarta-feira. Ele será incinerado sexta-feira (29), no cemitério de Chiclana de la Frontera e suas cinzas serao espalhadas na baía de Cádiz (Sul), anunciou a prefeitura de El Puerto de Santa Maria.

Alberti morreu em consequência de uma parada cardio-respiratória. Ele estava em casa, em El Puerto de Santa Maria.

O corpo foi levado ao cemitério de Chiclana para a incineraçao, que acontecerá às 14h locais (10h de Brasília), nesta sexta-feira. A data para a dispersao das cinzas ainda nao foi determinada.

O Conselho municipal de El Puerto de Santa Maria, cidade natal do poeta, se reunirá nesta quinta-feira em sessao extraordinária, para decretar três dias de luto oficial.

Com a morte do escritor gaditano Rafael Alberti, desaparece nao apenas o último representante da Geraçao de 1927, um dos movimentos poéticos mais importantes de toda a literatura espanhola, como também uma testemunha fundamental da história da Espanha.

Nascido em 16 de dezembro de 1902, no Porto de Santa María (província andaluza de Cádiz, sul da Espanha), Alberti logo se mudou com sua família para Madri. O mar sempre esteve muito presente em sua vida e em sua obra, e o livro que o revelou para o mundo, ``Marinero en tierra'', e o levou a ganhar, em 1925, o Prêmio Nacional de Literatura, é um longo canto de amor ao mar.

Militante do Partido Comunista desde 1933, Alberti nunca abandonou seu passado político - ``Nao me arrepento de nada. Nao sou um ex-comunista'', declarou, ao completar 90 anos -, o que o obrigou a viver fora da Espanha desde o final da Guerra Civil, em 1939, até depois da morte de Franco, ocorrida em 1975. Durante o conflito, Alberti foi secretário da Aliança de Intelectuais Antifascistas e recebeu, em Madri, muitos dos personagens míticos que passaram pela Espanha como demonstraçao de seu compromisso com a República: Robert Capa, Ernest Hemingway, Elsa Triolet e Louis Aragon ou o prêmio Nobel chileno Pablo Neruda.

De seus anos de guerra em Madri destaca-se um episódio que entrou para o folclore, o de que Alberti teria salvo os quadros mais importantes do Museu do Prado - entre eles ``As meninas'', de Velázquez - durante um bombardeio.

Em 27 de abril de 1977, voltou a Madri depois de um longo exílio, primeiro na Argentina (1940-1962), e depois em Roma (1962-1977). Foi recebido por uma multidao no aeroporto de Barajas. ``Fui embora da Espanha com o punho fechado e volto com a mao aberta, como sinal de paz e reconciliaçao de todos os espanhóis'', declarou na ocasiao.

Quando foi investido ``doutor honoris causa'' pela Universidade Complutense de Madri, 1992, Alberti assegurou que era estranho receber esta distinçao já que vivia matando aula na escola. Mais do que uma relaçao puramente acadêmica, Alberti cultivou uma amizade pessoal com algumas das maiores figuras da cultura espanhola do século XX - de Federico García Lorca a Pablo Picasso, passando por Luis Buñuel ou Salvador Dalí, além de todos os membros da Geraçao de 27.

Os principais poemas de Alberti - ``Marinero en tierra'' (1925),``Sobre los angeles'' (1929), ``A la pintura'' (1948) o ``Roma peligro para caminantes'' (1968) - nao só sao estudados em todos os colégios espanhóis, mas muitos de seus versoes, cantados pelos mais variados artistas, fazem parte da tradiçao oral da cultura espanhola.

Pintor, além de poeta, Alberti foi autor de obras teatrais: ``El hombre deshabitado'' (1930), ``El adefesio'' (1944) ou ``Noche de guerra en el Museo del Prado'' (1954) - e de dois livros de memórias, fundamentais para se conhecer o passado recente da Espanha, ``La arboleda perdida'' (1959 e 1987).

Sempre usando uma camisa florida - inclusive nos atos mais solenes, como a entrega do prêmio Cervantes, em 1983 -, vigoroso e enérgico até seus últimos dias, Alberti era um clássico muito antes de sua morte. ``Tú sabes bien que en mí no muere la esperanza/Que los años en mí no son hojas, son flores/que nunca soy pasado sino siempre futuro'', escreveu, em um poema dedicado a sua segunda esposa, María Asunción Mateo, 44 anos mais jovem do que ele, com quem se casou depois do falecimento, em 1988, de sua primeira mulher, a escritora María Teresa León.

Com sua morte, uma parte da história da Espanha também desaparece. É o adeus ao poeta que cantou a vida, o amor, a luta pela liberdade, e, principalmente, o mar, que, em sua obra, simbolizou todas essas coisas. ``Si mi voz muriera en tierra/llevadla al nivel del mar/y dejadla en la ribera'', diz um de seus mais célebres poemas. Alberti nasceu e morreu ao som das ondas, como era seu desejo.



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Poeta Rafael Alberti morre aos 96 anos na Espanha

Do Diário do Grande ABC

28/10/1999 | 11:28


O poeta espanhol Rafael Alberti, 96 anos, morreu na noite desta quarta-feira. Ele será incinerado sexta-feira (29), no cemitério de Chiclana de la Frontera e suas cinzas serao espalhadas na baía de Cádiz (Sul), anunciou a prefeitura de El Puerto de Santa Maria.

Alberti morreu em consequência de uma parada cardio-respiratória. Ele estava em casa, em El Puerto de Santa Maria.

O corpo foi levado ao cemitério de Chiclana para a incineraçao, que acontecerá às 14h locais (10h de Brasília), nesta sexta-feira. A data para a dispersao das cinzas ainda nao foi determinada.

O Conselho municipal de El Puerto de Santa Maria, cidade natal do poeta, se reunirá nesta quinta-feira em sessao extraordinária, para decretar três dias de luto oficial.

Com a morte do escritor gaditano Rafael Alberti, desaparece nao apenas o último representante da Geraçao de 1927, um dos movimentos poéticos mais importantes de toda a literatura espanhola, como também uma testemunha fundamental da história da Espanha.

Nascido em 16 de dezembro de 1902, no Porto de Santa María (província andaluza de Cádiz, sul da Espanha), Alberti logo se mudou com sua família para Madri. O mar sempre esteve muito presente em sua vida e em sua obra, e o livro que o revelou para o mundo, ``Marinero en tierra'', e o levou a ganhar, em 1925, o Prêmio Nacional de Literatura, é um longo canto de amor ao mar.

Militante do Partido Comunista desde 1933, Alberti nunca abandonou seu passado político - ``Nao me arrepento de nada. Nao sou um ex-comunista'', declarou, ao completar 90 anos -, o que o obrigou a viver fora da Espanha desde o final da Guerra Civil, em 1939, até depois da morte de Franco, ocorrida em 1975. Durante o conflito, Alberti foi secretário da Aliança de Intelectuais Antifascistas e recebeu, em Madri, muitos dos personagens míticos que passaram pela Espanha como demonstraçao de seu compromisso com a República: Robert Capa, Ernest Hemingway, Elsa Triolet e Louis Aragon ou o prêmio Nobel chileno Pablo Neruda.

De seus anos de guerra em Madri destaca-se um episódio que entrou para o folclore, o de que Alberti teria salvo os quadros mais importantes do Museu do Prado - entre eles ``As meninas'', de Velázquez - durante um bombardeio.

Em 27 de abril de 1977, voltou a Madri depois de um longo exílio, primeiro na Argentina (1940-1962), e depois em Roma (1962-1977). Foi recebido por uma multidao no aeroporto de Barajas. ``Fui embora da Espanha com o punho fechado e volto com a mao aberta, como sinal de paz e reconciliaçao de todos os espanhóis'', declarou na ocasiao.

Quando foi investido ``doutor honoris causa'' pela Universidade Complutense de Madri, 1992, Alberti assegurou que era estranho receber esta distinçao já que vivia matando aula na escola. Mais do que uma relaçao puramente acadêmica, Alberti cultivou uma amizade pessoal com algumas das maiores figuras da cultura espanhola do século XX - de Federico García Lorca a Pablo Picasso, passando por Luis Buñuel ou Salvador Dalí, além de todos os membros da Geraçao de 27.

Os principais poemas de Alberti - ``Marinero en tierra'' (1925),``Sobre los angeles'' (1929), ``A la pintura'' (1948) o ``Roma peligro para caminantes'' (1968) - nao só sao estudados em todos os colégios espanhóis, mas muitos de seus versoes, cantados pelos mais variados artistas, fazem parte da tradiçao oral da cultura espanhola.

Pintor, além de poeta, Alberti foi autor de obras teatrais: ``El hombre deshabitado'' (1930), ``El adefesio'' (1944) ou ``Noche de guerra en el Museo del Prado'' (1954) - e de dois livros de memórias, fundamentais para se conhecer o passado recente da Espanha, ``La arboleda perdida'' (1959 e 1987).

Sempre usando uma camisa florida - inclusive nos atos mais solenes, como a entrega do prêmio Cervantes, em 1983 -, vigoroso e enérgico até seus últimos dias, Alberti era um clássico muito antes de sua morte. ``Tú sabes bien que en mí no muere la esperanza/Que los años en mí no son hojas, son flores/que nunca soy pasado sino siempre futuro'', escreveu, em um poema dedicado a sua segunda esposa, María Asunción Mateo, 44 anos mais jovem do que ele, com quem se casou depois do falecimento, em 1988, de sua primeira mulher, a escritora María Teresa León.

Com sua morte, uma parte da história da Espanha também desaparece. É o adeus ao poeta que cantou a vida, o amor, a luta pela liberdade, e, principalmente, o mar, que, em sua obra, simbolizou todas essas coisas. ``Si mi voz muriera en tierra/llevadla al nivel del mar/y dejadla en la ribera'', diz um de seus mais célebres poemas. Alberti nasceu e morreu ao som das ondas, como era seu desejo.

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