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Billie Holiday surge genial em álbum de corpo e alma


João Marcos Coelho
Especial para o Diário

16/03/2002 | 16:54


  Ela nasceu Eleanora Fagan Gough, mas tomou emprestado o primeiro nome de uma atriz do cinema mudo, Billie Dove, e o sobrenome do pai biológico, o guitarrista Clarence “Doc” Holiday. Começou suas experiências musicais ainda criança, cantando na igreja em Baltimore, mas não a protestante, ou as batistas, onde se forjaram nomes como Sarah Vaughan, Dinah Washington, Ella Fitzgerald ou Carmen McRae. Billie era de família católica. A família faltou-lhe, a rua foi sua escola e as drogas e a prostituição chegaram muito cedo, aos 13 anos.

Nesse amargo caldo de cultura floresceu aquela que provavelmente é a maior cantora popular do século XX. E a partir de critérios inesperados. Por exemplo: sua voz era pequenininha, timbre sujo e muitos portamentos. Nada educada, enfim. Do lado positivo, a clareza na dicção.

Ninguém cantou de modo mais articulado e claro os versos de canções que a celebrizaram, como Strange Fruit, a macabra canção que evoca os negros enforcados pelos brancos no sul do país. E a emoção expressa na voz, com uma intensidade tal que jogou a seus pés, por exemplo, um dos maiores músicos do jazz moderno, o saxofonista Lester Young. Obsessivamente apaixonado por ela, Lester jamais conseguiu materializar o amor que lhe votava, mas acompanhou-a em muitas de suas mais célebres gravações nos anos 40 e também deu-lhe o apelido que a imortalizou, Lady Day.

Body and Soul - Esse é o título de um CD relançado pela Universal em fabricação nacional, registrando Billie em sua última fase (R$ 20, em média). São oito músicas gravadas em janeiro de 1957, em Hollywood. Billie é acompanhada por um grupo de estrelas, além de três takes alternativos. O bom do CD é que ele pertence à celebrada série Verve Master Edition. Ou seja, foi realizado um meticuloso trabalho de limpeza do som, que dessa maneira chega cristalino aos ouvidos.

Nesta gravação, ela é acompanhada por outro saxofonista-tenor que também gostava dela e que, ao contrário de Lester, manteve um longo caso amoroso com a diva. O nome é Ben Webster, o mais sensual e criativo tenor dos anos 40 e 50. Completando o grupo, o trompetista Harry “Sweets” Edison, o pianista Jimmy Rowles (aquele mesmo que realizou uma série de gravações fundamentais na Capitol acompanhando Ella Fitzgerald), o guitarrista Barney Kessel, o contrabaixista Red Mitchell e os bateristas Larry Bunker e Alvin Stoller.

Imperdível o solo de Webster na faixa-título, assim como o solo de trompete com surdina de Edison. Três faixas são dedicadas a Gershwin: They Can’t Take That Away From Me, a divertida Let’s Call the Whole Thing Off e Embraceable You.

O ouro em pó, porém, está em Comes Love. A música havia sido gravada em 1939 por Judy Garland em estilo latino, cheirando a rumba. Passados 18 anos, Billie e seus parceiros retiraram a latinidad, voltaram ao 4/4 estrito do jazz e desaceleraram o andamento. O resultado é praticamente outra canção.

Na realidade, na primeira quinzena de janeiro de 1957, Billie gravou em Hollywood 18 músicas. Body and Soul foi lançada pelo produtor Norman Granz em LP naquele ano. É uma pena que no relançamento não se tenha pinçado outras jóias só disponíveis na caixa de dez CDs The Complete Billie Holiday on Verve – 1945-1959. Interessante ouvir One for My Baby (and One More For The Road) diferente da eternizada por Sinatra. Ou Day in, Day out e mesmo But Not For Me.

Bem, antologias são sempre fruto de gosto pessoal. No geral, Body and Soul é excepcional. Pelos músicos extraordinários e pela própria Billie, tão criticada nesta fase final de carreira (ela morreu em 1959). Seu poder de expressão permanece intacto. Só isso justifica o CD.



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Billie Holiday surge genial em álbum de corpo e alma

João Marcos Coelho
Especial para o Diário

16/03/2002 | 16:54


  Ela nasceu Eleanora Fagan Gough, mas tomou emprestado o primeiro nome de uma atriz do cinema mudo, Billie Dove, e o sobrenome do pai biológico, o guitarrista Clarence “Doc” Holiday. Começou suas experiências musicais ainda criança, cantando na igreja em Baltimore, mas não a protestante, ou as batistas, onde se forjaram nomes como Sarah Vaughan, Dinah Washington, Ella Fitzgerald ou Carmen McRae. Billie era de família católica. A família faltou-lhe, a rua foi sua escola e as drogas e a prostituição chegaram muito cedo, aos 13 anos.

Nesse amargo caldo de cultura floresceu aquela que provavelmente é a maior cantora popular do século XX. E a partir de critérios inesperados. Por exemplo: sua voz era pequenininha, timbre sujo e muitos portamentos. Nada educada, enfim. Do lado positivo, a clareza na dicção.

Ninguém cantou de modo mais articulado e claro os versos de canções que a celebrizaram, como Strange Fruit, a macabra canção que evoca os negros enforcados pelos brancos no sul do país. E a emoção expressa na voz, com uma intensidade tal que jogou a seus pés, por exemplo, um dos maiores músicos do jazz moderno, o saxofonista Lester Young. Obsessivamente apaixonado por ela, Lester jamais conseguiu materializar o amor que lhe votava, mas acompanhou-a em muitas de suas mais célebres gravações nos anos 40 e também deu-lhe o apelido que a imortalizou, Lady Day.

Body and Soul - Esse é o título de um CD relançado pela Universal em fabricação nacional, registrando Billie em sua última fase (R$ 20, em média). São oito músicas gravadas em janeiro de 1957, em Hollywood. Billie é acompanhada por um grupo de estrelas, além de três takes alternativos. O bom do CD é que ele pertence à celebrada série Verve Master Edition. Ou seja, foi realizado um meticuloso trabalho de limpeza do som, que dessa maneira chega cristalino aos ouvidos.

Nesta gravação, ela é acompanhada por outro saxofonista-tenor que também gostava dela e que, ao contrário de Lester, manteve um longo caso amoroso com a diva. O nome é Ben Webster, o mais sensual e criativo tenor dos anos 40 e 50. Completando o grupo, o trompetista Harry “Sweets” Edison, o pianista Jimmy Rowles (aquele mesmo que realizou uma série de gravações fundamentais na Capitol acompanhando Ella Fitzgerald), o guitarrista Barney Kessel, o contrabaixista Red Mitchell e os bateristas Larry Bunker e Alvin Stoller.

Imperdível o solo de Webster na faixa-título, assim como o solo de trompete com surdina de Edison. Três faixas são dedicadas a Gershwin: They Can’t Take That Away From Me, a divertida Let’s Call the Whole Thing Off e Embraceable You.

O ouro em pó, porém, está em Comes Love. A música havia sido gravada em 1939 por Judy Garland em estilo latino, cheirando a rumba. Passados 18 anos, Billie e seus parceiros retiraram a latinidad, voltaram ao 4/4 estrito do jazz e desaceleraram o andamento. O resultado é praticamente outra canção.

Na realidade, na primeira quinzena de janeiro de 1957, Billie gravou em Hollywood 18 músicas. Body and Soul foi lançada pelo produtor Norman Granz em LP naquele ano. É uma pena que no relançamento não se tenha pinçado outras jóias só disponíveis na caixa de dez CDs The Complete Billie Holiday on Verve – 1945-1959. Interessante ouvir One for My Baby (and One More For The Road) diferente da eternizada por Sinatra. Ou Day in, Day out e mesmo But Not For Me.

Bem, antologias são sempre fruto de gosto pessoal. No geral, Body and Soul é excepcional. Pelos músicos extraordinários e pela própria Billie, tão criticada nesta fase final de carreira (ela morreu em 1959). Seu poder de expressão permanece intacto. Só isso justifica o CD.

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