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Almirante Negro volta a navegar


Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

22/11/2008 | 07:01


Já cantada em samba, a história de uma rebeldia contra violência da elite que terminou em exílio moral e psicológico chega ao quadrinho. As rubras cascatas que jorravam das costas dos negros entre cantos e chibatas têm suas cores dramaticamente reinterpretadas em preto-e-branco, como as peles e os uniformes de seus protagonistas no livro em quadrinhos Chibata! (Conrad, 224 págs, R$ 39,90), escrito por Olinto Gadelha Neto e desenhado por Hemeterio, ambos de Fortaleza.

Há exatos 98 anos ocorreu a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, e há 39 morria João Cândido Felisberto (1880-1969), seu líder, considerado desde 1910 um traidor pela Marinha e renegado ao rodapé da História. Foi anistiado post mortem apenas há quatro meses pelo governo federal.

Em 1910, João Cândido ficou conhecido como Almirante Negro e sua história foi cantada no samba Mestre-sala dos Mares, lançado em 1974 por Aldir Blanc e João Bosco. As primeiras versões da letra não passaram na censura. Em depoimento ao site DHNet (sobre direitos humanos e cultura) Blanc afirmou ter ouvido ameaças veladas da Marinha, que não ia admitir loas a um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais. "Minha ida ao Departamento de Censura me marcou bastante. ‘Vocês não estão entendendo... Estão trocando palavras como revolta, sangue etc, e não é aí que a coisa tá pegando', diziam. Perguntei educadamente se poderia esclarecer. Ouvi, estarrecido, em voz baixa, gutural, cheia de mistério, como uma dica perigosa: ‘O problema é essa história de negro, negro, negro...'."

Há um componente de intolerância nesse episódio, que derruba a máscara da democracia racial brasileira. Naquela época, havia apenas 22 anos sem escravidão no País. O preto-e-branco, as hachuras e o claro-escuro no traço da obra, que remetem a Edward Gorey e a Frank Miller, traduzem essa luta inglória em uma narrativa que navega do passado ao presente com uma dualidade de luz e trevas. Sem anjos ou demônios, narra a vida de João Cândido e seus companheiros, mirando as reações aos abusos, desprezando a versão oficial da Marinha e escancarando a outra face de uma história raras vezes contada.

Os autores foram atraídos primeiro pela música e depois pelo pouco que se sabe sobre ela. "João Cândido não é um herói convencional, e sempre houve uma forte campanha institucional trabalhando para cercear a divulgação dos fatos relacionados com a revolta. Isso é injusto perante a enormidade da causa pelas quais lutaram aqueles marinheiros", disse Gadelha.

Para o desenhista , a anistia aprovada em maio no Congresso e sancionada pelo presidente Lula recupera em parte a trajetória de João Cândido. "Pelo menos reparou uma injustiça histórica. Lutar pela liberdade nunca é batalha vã. João Cândido sofreu perdas irreparáveis, mas sua luta foi coroada de êxito. Ao comandar uma esquadra, foi aclamado pelos seus e pelo povo como o Almirante Negro, sua patente informal por toda vida", afirma Hemeterio.

 



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Almirante Negro volta a navegar

Alessandro Soares
Do Diário do Grande ABC

22/11/2008 | 07:01


Já cantada em samba, a história de uma rebeldia contra violência da elite que terminou em exílio moral e psicológico chega ao quadrinho. As rubras cascatas que jorravam das costas dos negros entre cantos e chibatas têm suas cores dramaticamente reinterpretadas em preto-e-branco, como as peles e os uniformes de seus protagonistas no livro em quadrinhos Chibata! (Conrad, 224 págs, R$ 39,90), escrito por Olinto Gadelha Neto e desenhado por Hemeterio, ambos de Fortaleza.

Há exatos 98 anos ocorreu a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, e há 39 morria João Cândido Felisberto (1880-1969), seu líder, considerado desde 1910 um traidor pela Marinha e renegado ao rodapé da História. Foi anistiado post mortem apenas há quatro meses pelo governo federal.

Em 1910, João Cândido ficou conhecido como Almirante Negro e sua história foi cantada no samba Mestre-sala dos Mares, lançado em 1974 por Aldir Blanc e João Bosco. As primeiras versões da letra não passaram na censura. Em depoimento ao site DHNet (sobre direitos humanos e cultura) Blanc afirmou ter ouvido ameaças veladas da Marinha, que não ia admitir loas a um marinheiro que quebrou a hierarquia e matou oficiais. "Minha ida ao Departamento de Censura me marcou bastante. ‘Vocês não estão entendendo... Estão trocando palavras como revolta, sangue etc, e não é aí que a coisa tá pegando', diziam. Perguntei educadamente se poderia esclarecer. Ouvi, estarrecido, em voz baixa, gutural, cheia de mistério, como uma dica perigosa: ‘O problema é essa história de negro, negro, negro...'."

Há um componente de intolerância nesse episódio, que derruba a máscara da democracia racial brasileira. Naquela época, havia apenas 22 anos sem escravidão no País. O preto-e-branco, as hachuras e o claro-escuro no traço da obra, que remetem a Edward Gorey e a Frank Miller, traduzem essa luta inglória em uma narrativa que navega do passado ao presente com uma dualidade de luz e trevas. Sem anjos ou demônios, narra a vida de João Cândido e seus companheiros, mirando as reações aos abusos, desprezando a versão oficial da Marinha e escancarando a outra face de uma história raras vezes contada.

Os autores foram atraídos primeiro pela música e depois pelo pouco que se sabe sobre ela. "João Cândido não é um herói convencional, e sempre houve uma forte campanha institucional trabalhando para cercear a divulgação dos fatos relacionados com a revolta. Isso é injusto perante a enormidade da causa pelas quais lutaram aqueles marinheiros", disse Gadelha.

Para o desenhista , a anistia aprovada em maio no Congresso e sancionada pelo presidente Lula recupera em parte a trajetória de João Cândido. "Pelo menos reparou uma injustiça histórica. Lutar pela liberdade nunca é batalha vã. João Cândido sofreu perdas irreparáveis, mas sua luta foi coroada de êxito. Ao comandar uma esquadra, foi aclamado pelos seus e pelo povo como o Almirante Negro, sua patente informal por toda vida", afirma Hemeterio.

 

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