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João conta a história de Daniela


Do Diário do Grande ABC

12/06/2011 | 07:00


João Arruda, 18 anos, de Santo André: Sou sonhador; o mundo precisa de sonhos. Gosto de escrever sobre desejos ocultos que convertemos em sonhos à noite. O suspense me encanta e envolve o leitor com o texto, fazendo com que quem lê a história se coloque no lugar do personagem, vivendo a história. E a história é para ser vivida, não só lida.

 

Sobrevivente. Esta talvez seja a melhor descrição para Daniela, talvez não. Loira de cabelos enrolados, sem graça; mesmo os olhos verdes não lhe davam beleza. Magricela, lábios esbranquiçados e finos, andava como se nada mais existisse, como se o céu fosse seu objetivo. Andava admirando nuvens e estrelas. Parecia que não pertencia a este mundo e o mundo não lhe pertencia.

Morava em bairro nobre e sua escola era imponente e reconhecida. Era inteligentíssima, fora dos padrões das meninas de 14 anos como ela, mas o QI elevado não escondia sua alienação. A mãe compartilhava a atenção com outras duas filhas, igualmente loiras de olhos verdes, mas mais bonitas. Minto, a mãe não dava a mínima para ela. As irmãs, de 15 e 17, eram populares e chamavam mais atenção, deixando-a invisível.

Nunca se interessou por garotos nem eles por ela. Por brincadeira, falaram que o menino mais bonito da classe estava a fim dela. Claro que virou chacota da turma. Mesmo mantendo-se solitária, procurava manter-se bonita. Roubara o perfume das irmãs e um conjunto de maquiagem, embora não soubesse maquiar-se. Adorava o azul, era o céu condensado em uma ideia.

Um dia chuvoso, ao sair da escola, teve de ir a pé para casa; como sempre, a mãe esquecera dela. Daniela parecia fantasma vagando pela calçada. Os cabelos escorridos lembravam macarrão instantâneo; livros e cadernos, encharcados. Queria chegar em casa, onde não era bem-tratada.

Não entendia por que era rejeitada. Não ousava se voltar contra a mãe e as irmãs, mesmo a família não a suportando. Se não bastasse a idiotice de ficar olhando para o céu à noite, no quintal, Daniela tinha outras estranhezas, como a mania de organização. Bastava alguém mudar um objeto de lugar que ela o colocava de volta no exato espaço. E a fascinação pelo móbile da irmã, um Sistema Solar, no qual os planetas ficavam girando em volta do sol. Ao observar aquilo, sentia tranquilidade, podia fugir do mundo que a maltratava. Para ela, era prazeroso ver os objetos girarem; para a mãe, era sinal de completa psicose.

Caminhando, sentia-se cansada e triste, quando ouviu barulho estridente ao longe, como pneus girando em falso; barulho tão perturbador que ela desabou no choro. Quis fugir desse mundo, alcançar o azul do céu. O medo a percorria, precisava se proteger desse mundo que queria o seu mal. Encolheu-se no meio do dilúvio e não percebeu mais nada do que a perturbava. O som aquietou-se, a chuva cessou, o corpo ficou seco, quente e confortável. Só uma luz aproximando-se, levantou e foi em sua direção. Um baque, encontrou-se caída no chão e um líquido quente parecia sair das narinas e da cabeça, que parecia estar sendo martelada. O estômago retorceu-se em cólicas, e o pulmão não puxava mais ar. Vozes difusas ecoavam ao redor. Conseguia apenas ver um vulto enorme à frente; parecia uma caminhonete. Não conseguia mover-se. Repentinamente, sentiu a chuva se esvair. Brilhou um raio de sol entre as nuvens e o céu. O azul seria todo dela, finalmente teria paz. Não pertencia a este mundo; pertencia ao céu.

 

* Gostou dos textos de João Arruda? Você também pode mandar os seus. Envie contos, poesias,opiniões e até quadrinhos para o D+ (d+@dgabc.com.br). Em função do espaço, alguns são e ditados.



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João conta a história de Daniela

Do Diário do Grande ABC

12/06/2011 | 07:00


João Arruda, 18 anos, de Santo André: Sou sonhador; o mundo precisa de sonhos. Gosto de escrever sobre desejos ocultos que convertemos em sonhos à noite. O suspense me encanta e envolve o leitor com o texto, fazendo com que quem lê a história se coloque no lugar do personagem, vivendo a história. E a história é para ser vivida, não só lida.

 

Sobrevivente. Esta talvez seja a melhor descrição para Daniela, talvez não. Loira de cabelos enrolados, sem graça; mesmo os olhos verdes não lhe davam beleza. Magricela, lábios esbranquiçados e finos, andava como se nada mais existisse, como se o céu fosse seu objetivo. Andava admirando nuvens e estrelas. Parecia que não pertencia a este mundo e o mundo não lhe pertencia.

Morava em bairro nobre e sua escola era imponente e reconhecida. Era inteligentíssima, fora dos padrões das meninas de 14 anos como ela, mas o QI elevado não escondia sua alienação. A mãe compartilhava a atenção com outras duas filhas, igualmente loiras de olhos verdes, mas mais bonitas. Minto, a mãe não dava a mínima para ela. As irmãs, de 15 e 17, eram populares e chamavam mais atenção, deixando-a invisível.

Nunca se interessou por garotos nem eles por ela. Por brincadeira, falaram que o menino mais bonito da classe estava a fim dela. Claro que virou chacota da turma. Mesmo mantendo-se solitária, procurava manter-se bonita. Roubara o perfume das irmãs e um conjunto de maquiagem, embora não soubesse maquiar-se. Adorava o azul, era o céu condensado em uma ideia.

Um dia chuvoso, ao sair da escola, teve de ir a pé para casa; como sempre, a mãe esquecera dela. Daniela parecia fantasma vagando pela calçada. Os cabelos escorridos lembravam macarrão instantâneo; livros e cadernos, encharcados. Queria chegar em casa, onde não era bem-tratada.

Não entendia por que era rejeitada. Não ousava se voltar contra a mãe e as irmãs, mesmo a família não a suportando. Se não bastasse a idiotice de ficar olhando para o céu à noite, no quintal, Daniela tinha outras estranhezas, como a mania de organização. Bastava alguém mudar um objeto de lugar que ela o colocava de volta no exato espaço. E a fascinação pelo móbile da irmã, um Sistema Solar, no qual os planetas ficavam girando em volta do sol. Ao observar aquilo, sentia tranquilidade, podia fugir do mundo que a maltratava. Para ela, era prazeroso ver os objetos girarem; para a mãe, era sinal de completa psicose.

Caminhando, sentia-se cansada e triste, quando ouviu barulho estridente ao longe, como pneus girando em falso; barulho tão perturbador que ela desabou no choro. Quis fugir desse mundo, alcançar o azul do céu. O medo a percorria, precisava se proteger desse mundo que queria o seu mal. Encolheu-se no meio do dilúvio e não percebeu mais nada do que a perturbava. O som aquietou-se, a chuva cessou, o corpo ficou seco, quente e confortável. Só uma luz aproximando-se, levantou e foi em sua direção. Um baque, encontrou-se caída no chão e um líquido quente parecia sair das narinas e da cabeça, que parecia estar sendo martelada. O estômago retorceu-se em cólicas, e o pulmão não puxava mais ar. Vozes difusas ecoavam ao redor. Conseguia apenas ver um vulto enorme à frente; parecia uma caminhonete. Não conseguia mover-se. Repentinamente, sentiu a chuva se esvair. Brilhou um raio de sol entre as nuvens e o céu. O azul seria todo dela, finalmente teria paz. Não pertencia a este mundo; pertencia ao céu.

 

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