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Uma La minuta para Eliane Brum


Carlos Ferrari

29/06/2015 | 07:00


De início achei que não poderia ser assim. Deveria, como um prato especial, ser elaborada com um olhar de lupa para cada detalhe, e assim, eu, como um cozinheiro consciente do tamanho de minhas responsabilidades, trataria tal preparo com uma liturgia digna de tudo aquilo que se é pensado e feito para existir como tributo a um acontecimento grande ou um momento único. Diferente disto, conto-lhes que esta coluna chega até vocês sem qualquer disciplina ou grandes elaborações. Ainda fazendo analogia com o ato de cozinhar, creio que lhes entrego um delicioso, porém simples prato de la minuta, comidinha gostosa que sempre peço quando vou a Porto Alegre, e que acaba sendo ao fim das contas algo como nosso tradicional bife a cavalo. Creio que a mudança de rota se deu graças à minha ansiedade, unida ao turbilhão de reflexões e vontades que, como uma equipe de futebol limitada pela técnica, porém rica em raça, acabaram vencendo minhas intenções mais formalistas e burocráticas, me trazendo como que por um tsunami para frente deste computador logo após o fim do livro, pedindo para que teclasse de imediato palavras, frases e argumentos que pudessem compartilhar com alguma precisão a experiência única de ler A Menina Quebrada, de Eliane Brum.

Termino a leitura com a sensação de ter compartilhado por dias uma cuia de chimarrão, com a simpática gaúcha de Ijuí. Engraçado, porém longe de inédito, ter essa sensação sobre a personalidade de alguém que, como tantas outras pessoas presentes em meu dia a dia, nunca vi o rosto, mas neste caso também nunca ouvi a voz, aliás, creio que assim que terminar esse texto vou para o YouTube para conhecer o jeito de falar de minha nova amiga de palavras.

O livro que me refiro é uma rica coletânea de colunas publicadas pela autora ao longo de alguns anos, no blog da Revista Época. Esta característica me permitiu experimentar um novo jeito de ler, pois vez ou outra impactado diante da qualidade da escrita e da beleza das ideias, eu podia correr para a internet, dar um Google no título da coluna, chegar até o texto e, como em um passe de mágica, compartilhar aquele tesouro recém-descoberto com toda minha rede de ‘amigos tecida pela vida’ e pelo Facebook.

Não me lembro se compartilhei por lá, mas vale a pena ler e se emocionar com as histórias cruzadas e apartadas de Pedro e João, personagens reais de uma tragédia social, que oprime e exclui pessoas com orientações sexuais diferentes do padrão hétero: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/01/pedro-e-joao-historia-de-dois-meninos-gays-e-uma-infancia-devastada.html.

O livro traz com beleza e verdade as possibilidades e consequências de se envelhecer. Não se trata neste caso de uma verdade pregada como única, mas sim de uma verdade compartilhada por alguém que reflete sobre a possibilidade de ser velha, com base nos exemplos de outros, e no jeito de viver de si própria. Eliane clama pelo direito de ser chamada de velha, e concordando ou não com ela, o texto nos permite refletir o quanto podemos ser mais críticos e criteriosos, diante da liberdade que nos é dada frente ao mar de possibilidades que é a nossa Língua Portuguesa: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html.

Mais do que bons textos, A Menina Quebrada nos conecta o tempo todo a outros livros, filmes e produções artísticas, graças ao ímpeto característico da autora em compartilhar tudo aquilo que reconhece como bom.

Acredito que em alguma medida essa coluna configura-se em uma devolutiva ou, quem sabe, até a materialização de um aprendizado de minha parte com o exemplo proposto e praticado por ela ao longo de páginas e mais páginas, onde compartilhar bons conteúdos parece ser quase que uma profissão de fé, somada ao carinho com que Eliane nos brinda com seus textos.

Para finalizar, compartilho com vocês um texto que acabou contribuindo para que eu pudesse olhar diferente para uma foto que eu nunca vi. Pois é, deixa-me explicar melhor. Mesmo sendo cego, sempre me causou desconforto como militante que se percebe de esquerda, independentemente de questões partidárias, uma foto em que o ex-presidente Lula, ao cumprimentar Paulo Maluf, selava um compromisso entre os dois partidos em torno da busca pela eleição do atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. O texto fala por si, então me despeço deixando o link – http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/quem-esta-com-lula-e-maluf-na-foto-alem-de-haddad.html – e meus agradecimentos a Eliane Brum, que espero daqui a algum tempo reencontrar por meio de uma de suas muitas obras, ou quem sabe até conhecer e trocar ideias pessoalmente em algum canto deste Brasil, que, como ela mais ou menos definiu, ‘seja de Belém ou da periferia de São Paulo, nunca voltamos como lá chegamos’.

Carlos Ferrari é presidente da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), faz parte da diretoria executiva da ONCB (Organização Nacional de Cegos do Brasil) e é atual integrante do CNS (Conselho Nacional de Saúde). 



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Uma La minuta para Eliane Brum

Carlos Ferrari

29/06/2015 | 07:00


De início achei que não poderia ser assim. Deveria, como um prato especial, ser elaborada com um olhar de lupa para cada detalhe, e assim, eu, como um cozinheiro consciente do tamanho de minhas responsabilidades, trataria tal preparo com uma liturgia digna de tudo aquilo que se é pensado e feito para existir como tributo a um acontecimento grande ou um momento único. Diferente disto, conto-lhes que esta coluna chega até vocês sem qualquer disciplina ou grandes elaborações. Ainda fazendo analogia com o ato de cozinhar, creio que lhes entrego um delicioso, porém simples prato de la minuta, comidinha gostosa que sempre peço quando vou a Porto Alegre, e que acaba sendo ao fim das contas algo como nosso tradicional bife a cavalo. Creio que a mudança de rota se deu graças à minha ansiedade, unida ao turbilhão de reflexões e vontades que, como uma equipe de futebol limitada pela técnica, porém rica em raça, acabaram vencendo minhas intenções mais formalistas e burocráticas, me trazendo como que por um tsunami para frente deste computador logo após o fim do livro, pedindo para que teclasse de imediato palavras, frases e argumentos que pudessem compartilhar com alguma precisão a experiência única de ler A Menina Quebrada, de Eliane Brum.

Termino a leitura com a sensação de ter compartilhado por dias uma cuia de chimarrão, com a simpática gaúcha de Ijuí. Engraçado, porém longe de inédito, ter essa sensação sobre a personalidade de alguém que, como tantas outras pessoas presentes em meu dia a dia, nunca vi o rosto, mas neste caso também nunca ouvi a voz, aliás, creio que assim que terminar esse texto vou para o YouTube para conhecer o jeito de falar de minha nova amiga de palavras.

O livro que me refiro é uma rica coletânea de colunas publicadas pela autora ao longo de alguns anos, no blog da Revista Época. Esta característica me permitiu experimentar um novo jeito de ler, pois vez ou outra impactado diante da qualidade da escrita e da beleza das ideias, eu podia correr para a internet, dar um Google no título da coluna, chegar até o texto e, como em um passe de mágica, compartilhar aquele tesouro recém-descoberto com toda minha rede de ‘amigos tecida pela vida’ e pelo Facebook.

Não me lembro se compartilhei por lá, mas vale a pena ler e se emocionar com as histórias cruzadas e apartadas de Pedro e João, personagens reais de uma tragédia social, que oprime e exclui pessoas com orientações sexuais diferentes do padrão hétero: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/01/pedro-e-joao-historia-de-dois-meninos-gays-e-uma-infancia-devastada.html.

O livro traz com beleza e verdade as possibilidades e consequências de se envelhecer. Não se trata neste caso de uma verdade pregada como única, mas sim de uma verdade compartilhada por alguém que reflete sobre a possibilidade de ser velha, com base nos exemplos de outros, e no jeito de viver de si própria. Eliane clama pelo direito de ser chamada de velha, e concordando ou não com ela, o texto nos permite refletir o quanto podemos ser mais críticos e criteriosos, diante da liberdade que nos é dada frente ao mar de possibilidades que é a nossa Língua Portuguesa: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html.

Mais do que bons textos, A Menina Quebrada nos conecta o tempo todo a outros livros, filmes e produções artísticas, graças ao ímpeto característico da autora em compartilhar tudo aquilo que reconhece como bom.

Acredito que em alguma medida essa coluna configura-se em uma devolutiva ou, quem sabe, até a materialização de um aprendizado de minha parte com o exemplo proposto e praticado por ela ao longo de páginas e mais páginas, onde compartilhar bons conteúdos parece ser quase que uma profissão de fé, somada ao carinho com que Eliane nos brinda com seus textos.

Para finalizar, compartilho com vocês um texto que acabou contribuindo para que eu pudesse olhar diferente para uma foto que eu nunca vi. Pois é, deixa-me explicar melhor. Mesmo sendo cego, sempre me causou desconforto como militante que se percebe de esquerda, independentemente de questões partidárias, uma foto em que o ex-presidente Lula, ao cumprimentar Paulo Maluf, selava um compromisso entre os dois partidos em torno da busca pela eleição do atual prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad. O texto fala por si, então me despeço deixando o link – http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/06/quem-esta-com-lula-e-maluf-na-foto-alem-de-haddad.html – e meus agradecimentos a Eliane Brum, que espero daqui a algum tempo reencontrar por meio de uma de suas muitas obras, ou quem sabe até conhecer e trocar ideias pessoalmente em algum canto deste Brasil, que, como ela mais ou menos definiu, ‘seja de Belém ou da periferia de São Paulo, nunca voltamos como lá chegamos’.

Carlos Ferrari é presidente da Avape (Associação para Valorização de Pessoas com Deficiência), faz parte da diretoria executiva da ONCB (Organização Nacional de Cegos do Brasil) e é atual integrante do CNS (Conselho Nacional de Saúde). 

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