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Região ultrapassa 5.000 mortes por Covid-19

DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Em um ano, doença faz mais vítimas do que 18 anos de homicídios dolosos e seria capaz de dizimar um bairro inteiro


Aline Melo
Do Diário do Grande ABC

18/03/2021 | 07:00


Imagine se no período de um ano todos os habitantes do bairro Humaitá, em Santo André, ou quase todos do bairro Fundação, em São Caetano, morressem. Ou se todos os homicídios dolosos (quando há intenção de matar) já ocorridos na região nos últimos 18 anos acontecessem em um espaço de tempo de pouco mais de 365 dias. Esse é o efeito devastador que a Covid causou no Grande ABC, que ontem atingiu a marca de 5.051 perdas. A região contabiliza 143.040 casos confirmados da doença.

Desde que a pandemia começou na região, em 15 de março de 2020, foi preciso pouco mais de três meses para que fosse atingido o primeiro milhar de mortes, em 23 de junho de 2020. Para 2.000 óbitos, no entanto, levou menos de dois meses e, em 19 de agosto de 2020, o Grande ABC chegou a 2.005 vítimas fatais. O espaço de tempo para o terceiro milhar foi de três meses e em 28 de novembro de 2020 a região atingia a marca de 3.003 óbitos. Noventa dias depois, em 27 de janeiro de 2021, a região totalizava 4.005 perdas. E agora, em menos de três meses, as sete cidades acumulam mais um milhar de óbitos e passam de 5.000 mortes.

Até o momento, 3,53 % das pessoas que oficialmente foram diagnosticadas com Covid-19 faleceram e a infectologista do Grupo Pardini, Melissa Valentini, explicou que o novo coronavírus não é dos tipos mais letais de vírus. No entanto, o grande número de pacientes infectados repercute na alta quantidade de pessoas doentes e de mortes. “Como a gente faz poucos diagnósticos e não testamos todo mundo, a taxa de mortalidade acaba sendo maior do que se todas as pessoas contaminadas fossem efetivamente testadas”, explicou. O surgimento de subtipos do coronavírus, mais transmissíveis, tem causado um avanço acelerado dos casos e, em consequência, poderia aumentar a letalidade, pondera a especialista.

Segundo Melissa, os tipos mais infectantes do vírus têm motivado as autoridades sanitárias da Europa a recomendarem o uso de máscaras mais eficientes, com maior capacidade de vedação, como as cirúrgicas. O infectologista e docente da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) Renato Grimbaum alertou que um estudo inglês mostrou que o subtipo identificado na Inglaterra resultou em aumento de 64% na letalidade.

Pandemia também deixa sequelas sociais, afirmam especialistas

O cientista social e doutorando em políticas publicas na UFABC (Universidade Federal do ABC) Marcio Kontopp destacou que os efeitos da pandemia se dão de forma desigual e segmentada, refletindo as próprias desigualdades regionais. Os dados comprovam isso e as regiões de maior vulnerabilidade em Santo André e São Bernardo, como a Vila Luzita e o Montanhão, concentram a maior parte dos infectados. “Apesar de ser uma situação global, o impacto se dá de maneira desigual”, ponderou.

Do ponto de vista social, o cientista lembrou que muitos médicos morreram em decorrência da doença e, por mais que pareça uma análise fria, são profissionais com ao menos 15 anos de formação e isso, futuramente, pode significar um deficit na capacidade de atendimento da população, especialmente nas redes públicas. “Na educação, as desigualdades se acentuaram e se as escolas particulares praticamente não pararam, pesquisas mostram que na rede estadual de São Paulo menos da metade dos alunos conseguiu acessar os conteúdos”, afirmou.

Para Kontopp, a implementação de políticas de distribuição de renda, como foi feito com o pagamento do auxílio emergencial no ano passado, é fundamental para tentar mitigar os efeitos da pandemia. “Temos menos geração de emprego, menos geração de renda e, de alguma maneira, precisamos pensar nisso”, concluiu.

LUTO
As doenças mentais podem vir a ser a chamada quarta onda da Covid, alerta o psicólogo clínico e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em Campinas, Marcelo Santos. O especialista explica que o medo da morte passou a ser uma constante na vida das pessoas e que, embora haja grandes chances de cura da doença – mesmo que apenas recentemente um medicamento tenha sido registrado e oficialmente considerado para o tratamento –, para algumas pessoas, saber que o familiar ou amigo está contaminado é o mesmo que atribuir a uma sentença de morte.

A pandemia também afetou as chamadas fases do luto, que vão desde a negação, passando pelo isolamento de quem perde alguém, pelo sentimento de raiva, de profunda tristeza e a ideia de que talvez a morte possa ter abreviado algum sofrimento. “As pessoas não têm tempo de se isolar, porque são bombardeadas o tempo todo pela notícia das mortes de outras pessoas. A raiva vem em doses maiores, da doença, de quem não usa máscara e pode contaminar os outros. E a tristeza pode se agravar para estados profundos de depressão”, citou.

Para o docente, o poder público já devia ter começado a pensar em ofertar atendimento psicológico para as pessoas que estão sofrendo com as perdas de amigos e parentes, a fim de evitar uma verdadeira nova epidemia de quadros depressivos. “Hoje existem iniciativas isoladas, mas precisa ser pensado de uma forma ampla.”

Crianças têm sido vítimas duplamente

Se no início da pandemia a Covid era conhecida como uma doença grave para idosos, na segunda onda que atinge o Brasil e em meio ao surgimento de novos subtipos do coronavírus, as crianças também têm se infectado com maior frequência e gravidade. O Diário mostrou na edição de 16 de março que a contaminação de pessoas até 12 anos aumentou quatro vezes na região desde o primeiro caso, em 15 de março de 2020. Para o advogado, especialista em direitos da infância e juventude e integrante do Instituto Nacional do Direito da Criança e do Adolescente Ariel de Castro Alves, crianças e adolescentes são vítimas duplamente, porque também é grande o número de órfãos.

Alves pontuou que há um ano escreveu um artigo, publicado em diversos veículos de comunicação, onde alertava para o aumento da vulnerabilidade de crianças e adolescentes que perderam pais, mães, avós e responsáveis, vítimas da Covid. “Boa parte das famílias brasileiras é sustentada por mulheres. Milhares de crianças sequer possuem os nomes dos pais nas certidões de nascimento. A vulnerabilidade das famílias já é grande e se agrava com a pandemia e com as mortes”, pontuou.

Para o advogado, as prefeituras já deviam estar realizando buscas ativas com base nas informações dos atestados de óbitos, que apontam quantos dependentes o falecido deixou. “Nada tem sido feito. As famílias que acabam se organizando”, explicou. Alves defendeu a concessão de auxílio financeiro para os familiares que ficarem com crianças e adolescentes, cujos pais faleceram em decorrência da doença.

O Diário questionou as prefeituras do Grande ABC sobre a existência de programas que visem identificar e fornecer auxílio a crianças e adolescentes que perderam os responsáveis, vítimas da Covid. São Bernardo afirmou que não houve aumento da demanda de acolhimentos emergenciais devido à pandemia causada pelo coronavírus, no entanto, a rede municipal conta com serviço referenciado especializado, que é o Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social ), para onde são encaminhados todos os casos em que é identificada situação de risco social ou violação de direito de crianças e adolescentes pelos serviços diversos da Prefeitura.

São Caetano informou que na cidade houve três casos de menores de 18 anos que perderam pai ou mãe pela Covid. As equipes de assistentes sociais fazem a triagem e avaliam a possibilidade de encaminhar a criança para atendimento especializado na Usca (Unidade de Saúde da Criança e do Adolescente). O ambulatório possui equipe especializada que ajudará a criança ou jovem a enfrentar o impacto emocional da perda dos familiares.

Diadema informou que a Secretaria da Saúde, que detém as informações sobre óbitos, tem feito o registro e a identificação das vítimas e das famílias da pandemia. Que a assistência social tem programas voltados às pessoas em situação de vulnerabilidade, mas, no momento, ainda não iniciou ação específica para esse público. Ribeirão informou que ainda não houve casos de crianças ou adolescentes que ficaram sem os responsáveis por conta da Covid, mas que, se isso ocorrer, os serviços como conselho tutelar e Creas (Centro de Referência de Assistência Social) seriam acionados para acompanhar os casos, verificar vinculo familiares em extensões (tios, avós etc) e dar o devido suporte tanto social quanto trabalho em rede com as demais secretarias. As outras prefeituras não responderam até o fechamento desta edição.



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