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Em respeito ao gênio


João Marcos Coelho
Especial para o Diário

21/12/2006 | 21:03


De um filme sobre o maior dos compositores da história da música clássica, espera-se sempre muito. Pois este O Segredo de Beethoven que estréia nesta sexta-feira no circuito comercial não só preenche as expectativas como supera tudo que se poderia imaginar. Sobretudo do ponto de vista musical. Mas cinematograficamente o filme também é um triunfo. Pela primeira vez se vê na telona um excepcional Ed Harris encarnando um Beethoven muito próximo do que ele foi, em carne e osso (ao contrário do caricato Beethoven de Gary Oldman, de anos atrás, em Amada Imortal). Até a tediosa Diane Kruger (chatíssima como Helena de Tróia) realiza uma performance inesperadamente consistente como a inventada estudante de composição que se emprega como copista na casa de Beethoven, quatro dias antes da estréia da Nona Sinfonia (de fato, Beethoven tinha um secretário pessoal, Anton Schindler, que foi seu primeiro biógrafo).

Tudo gira em torno da estréia da Nona Sinfonia de Beethoven. O concerto aconteceu em Viena, no dia 7 de maio de 1824. Beethoven estava com 53 anos e já era uma glória mundial – mas considerado fora de moda, meio esquisito por causa de sua surdez. A esta última atribuíram-se as estranhezas das suas obras-primas finais, aí incluídos a Nona Sinfonia, os últimos quartetos de cordas e as três sonatas finais para piano.

Momento capital - O maior mérito dos roteiristas Spehen J. Rivele e Christopher Wilkinson foi transformar em bom cinema um dos momentos capitais da história da música: o compositor deixa de ser empregado das cortes e dos nobres e mero artesão, e se assume como artista. Até então, o compositor fazia música como o artesão que fabrica sapatos – ambos devem sempre ser confortáveis para os pés e os ouvidos dos patrões. Não podiam incomodar em instante algum. Beethoven foi o primeiro a assumir-se como artista. Em vez de escrever música fácil, tratou de arranjar um punhado de nobres para financiar sua profissão de compositor. E pautou-se somente por sua imaginação, ou, como gostava de afirmar, “sou proprietário de um cérebro”.

A música despregava-se da condição de papel de parede sonoro para assumir o primeiro plano como obra de arte. Evidentemente, os choques com o público começavam também ali a aflorar – até o divórcio hoje declarado entre criação contemporânea e o grande público. Isso é apresentado de modo claro no ótimo episódio do namorado da copista, engenheiro que projeta uma ponte para um concurso. Num acesso de fúria, o celebrado compositor, que não havia gostado do burocrático projeto do jovem, sussurra à copista que vai ajudá-lo. E quando se pensa que ele vai interceder pelo engenheiro, Beethoven arrebenta toda a maquete a golpes de bengala. Magistral.

Com sutileza tão grande quanto a interpretação magistral de Ed Harris, a diretora polonesa Agnieszka Holland conduz a trama para o clímax do concerto da Nona Sinfonia. Ainda bem que o romance virtual entre a copista e o compositor não se realiza. Seria óbvio demais. A grossura de Beethoven, seus maus-modos; o mau-caratismo do sobrinho Karl que ele tanto amava; a estranheza que seus últimos quartetos e sonatas para piano provocavam no público. Tudo isso é correto do ponto de vista histórico. Só Anna Holtz, a copista, jamais existiu (uma pena, porque Beethoven teria vivido melhor seus últimos anos com uma mulher tão bela como Diane Kruger).

Ter escolhido a Nona como fio condutor também ajuda. Como se sabe, a Sony definiu o tempo que deveria conter um compact-disc, o popular CD hoje em extinção, em função da duração da Nona Sinfonia (pouco mais de uma hora). Ela é a obra mais conhecida e decisiva da história da música. Nela Beethoven injetava música vocal pela primeira vez numa obra orquestral. Mais: transformou a sinfonia na atração principal de um concerto. Só para lembrar: Mozart, pouco tempo antes, na mesma Viena, usava as sinfonias para chamar a atenção do público de que o concerto havia começado. Sua sinfonia Linz, por exemplo, foi tocada picadinho na estréia: os dois primeiros movimentos, o Adágio e o Andante, foram tocados no início de um concerto; e depois do intervalo, o Minueto e o Presto final da mesma sinfonia serviram para avisar do recomeço do concerto. As sinfonias de Haydn (104), e muitas das iniciais de Mozart (41), raramente ultrapassavam os 15 ou 20 minutos. Só as derradeiras de Mozart ultrapassavam meia hora.

Ora, a Nona tinha mais de 60 minutos, mas não foi a única obra tocada naquele concerto de maio de 1824. A primeira peça foi Consagração da Casa, de 1815; depois o Agnus Dei da Missa Solemnis disfarçada como “Hino”, porque a censura austríaca não permitia que se tocasse música religiosa fora das igrejas; e terminou com a Nona.

Hoffmann, um dos primeiros críticos musicais da história, presenciou a estréia de várias sinfonias de Beethoven. É dele a expressão de que a música de Beethoven não é deste mundo. De fato – e o filme realça isso bem –, a glória do compositor (apesar de surdo, ainda ativo aos 53 anos, uma idade provecta numa cidade onde o vienense médio vivia no máximo até os 36 anos) ajudou-o a impor a música nova. Uma música que, de fato, aos seus contemporâneos, não parecia mesmo daquele mundo.

Os momentos mais belos do filme, curiosamente, não são os da execução naturalmente emocionante da Nona Sinfonia. Em vez disso, a diretora Agniezka Holland explora muito bem as circunstâncias de composição da Grande Fuga, uma das obras mais geniais, enigmáticas e contundentes de Beethoven; e, principalmente, a cena do compositor, em meados de 1825, recém-saído de uma doença intestinal grave e ainda acamado, ditando à bela copista de 22 anos o Molto Adagio de seu Quarteto opus 132, que intitulou Canto de Agradecimento à Divindade por um Convalescente, no Modo Lídio. Não foi assim que ele compôs o Adágio, mas de todo modo é comovente licença poética do filme.

O SEGREDO DE BEETHOVEN (Copying Beethoven, EUA/Alemanha, 2006). Dir.: Agnieska Holland. Com Ed Harris, Diane Kruger. Estréia nesta sexta-feira no Cine Bombril 2, Espaço Unibanco 1, Reserva Cultural 1, Sala Uol e Unibanco Arteplex 6. Duração: 104 minutos. Classificação etária: 10 anos.



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Em respeito ao gênio

João Marcos Coelho
Especial para o Diário

21/12/2006 | 21:03


De um filme sobre o maior dos compositores da história da música clássica, espera-se sempre muito. Pois este O Segredo de Beethoven que estréia nesta sexta-feira no circuito comercial não só preenche as expectativas como supera tudo que se poderia imaginar. Sobretudo do ponto de vista musical. Mas cinematograficamente o filme também é um triunfo. Pela primeira vez se vê na telona um excepcional Ed Harris encarnando um Beethoven muito próximo do que ele foi, em carne e osso (ao contrário do caricato Beethoven de Gary Oldman, de anos atrás, em Amada Imortal). Até a tediosa Diane Kruger (chatíssima como Helena de Tróia) realiza uma performance inesperadamente consistente como a inventada estudante de composição que se emprega como copista na casa de Beethoven, quatro dias antes da estréia da Nona Sinfonia (de fato, Beethoven tinha um secretário pessoal, Anton Schindler, que foi seu primeiro biógrafo).

Tudo gira em torno da estréia da Nona Sinfonia de Beethoven. O concerto aconteceu em Viena, no dia 7 de maio de 1824. Beethoven estava com 53 anos e já era uma glória mundial – mas considerado fora de moda, meio esquisito por causa de sua surdez. A esta última atribuíram-se as estranhezas das suas obras-primas finais, aí incluídos a Nona Sinfonia, os últimos quartetos de cordas e as três sonatas finais para piano.

Momento capital - O maior mérito dos roteiristas Spehen J. Rivele e Christopher Wilkinson foi transformar em bom cinema um dos momentos capitais da história da música: o compositor deixa de ser empregado das cortes e dos nobres e mero artesão, e se assume como artista. Até então, o compositor fazia música como o artesão que fabrica sapatos – ambos devem sempre ser confortáveis para os pés e os ouvidos dos patrões. Não podiam incomodar em instante algum. Beethoven foi o primeiro a assumir-se como artista. Em vez de escrever música fácil, tratou de arranjar um punhado de nobres para financiar sua profissão de compositor. E pautou-se somente por sua imaginação, ou, como gostava de afirmar, “sou proprietário de um cérebro”.

A música despregava-se da condição de papel de parede sonoro para assumir o primeiro plano como obra de arte. Evidentemente, os choques com o público começavam também ali a aflorar – até o divórcio hoje declarado entre criação contemporânea e o grande público. Isso é apresentado de modo claro no ótimo episódio do namorado da copista, engenheiro que projeta uma ponte para um concurso. Num acesso de fúria, o celebrado compositor, que não havia gostado do burocrático projeto do jovem, sussurra à copista que vai ajudá-lo. E quando se pensa que ele vai interceder pelo engenheiro, Beethoven arrebenta toda a maquete a golpes de bengala. Magistral.

Com sutileza tão grande quanto a interpretação magistral de Ed Harris, a diretora polonesa Agnieszka Holland conduz a trama para o clímax do concerto da Nona Sinfonia. Ainda bem que o romance virtual entre a copista e o compositor não se realiza. Seria óbvio demais. A grossura de Beethoven, seus maus-modos; o mau-caratismo do sobrinho Karl que ele tanto amava; a estranheza que seus últimos quartetos e sonatas para piano provocavam no público. Tudo isso é correto do ponto de vista histórico. Só Anna Holtz, a copista, jamais existiu (uma pena, porque Beethoven teria vivido melhor seus últimos anos com uma mulher tão bela como Diane Kruger).

Ter escolhido a Nona como fio condutor também ajuda. Como se sabe, a Sony definiu o tempo que deveria conter um compact-disc, o popular CD hoje em extinção, em função da duração da Nona Sinfonia (pouco mais de uma hora). Ela é a obra mais conhecida e decisiva da história da música. Nela Beethoven injetava música vocal pela primeira vez numa obra orquestral. Mais: transformou a sinfonia na atração principal de um concerto. Só para lembrar: Mozart, pouco tempo antes, na mesma Viena, usava as sinfonias para chamar a atenção do público de que o concerto havia começado. Sua sinfonia Linz, por exemplo, foi tocada picadinho na estréia: os dois primeiros movimentos, o Adágio e o Andante, foram tocados no início de um concerto; e depois do intervalo, o Minueto e o Presto final da mesma sinfonia serviram para avisar do recomeço do concerto. As sinfonias de Haydn (104), e muitas das iniciais de Mozart (41), raramente ultrapassavam os 15 ou 20 minutos. Só as derradeiras de Mozart ultrapassavam meia hora.

Ora, a Nona tinha mais de 60 minutos, mas não foi a única obra tocada naquele concerto de maio de 1824. A primeira peça foi Consagração da Casa, de 1815; depois o Agnus Dei da Missa Solemnis disfarçada como “Hino”, porque a censura austríaca não permitia que se tocasse música religiosa fora das igrejas; e terminou com a Nona.

Hoffmann, um dos primeiros críticos musicais da história, presenciou a estréia de várias sinfonias de Beethoven. É dele a expressão de que a música de Beethoven não é deste mundo. De fato – e o filme realça isso bem –, a glória do compositor (apesar de surdo, ainda ativo aos 53 anos, uma idade provecta numa cidade onde o vienense médio vivia no máximo até os 36 anos) ajudou-o a impor a música nova. Uma música que, de fato, aos seus contemporâneos, não parecia mesmo daquele mundo.

Os momentos mais belos do filme, curiosamente, não são os da execução naturalmente emocionante da Nona Sinfonia. Em vez disso, a diretora Agniezka Holland explora muito bem as circunstâncias de composição da Grande Fuga, uma das obras mais geniais, enigmáticas e contundentes de Beethoven; e, principalmente, a cena do compositor, em meados de 1825, recém-saído de uma doença intestinal grave e ainda acamado, ditando à bela copista de 22 anos o Molto Adagio de seu Quarteto opus 132, que intitulou Canto de Agradecimento à Divindade por um Convalescente, no Modo Lídio. Não foi assim que ele compôs o Adágio, mas de todo modo é comovente licença poética do filme.

O SEGREDO DE BEETHOVEN (Copying Beethoven, EUA/Alemanha, 2006). Dir.: Agnieska Holland. Com Ed Harris, Diane Kruger. Estréia nesta sexta-feira no Cine Bombril 2, Espaço Unibanco 1, Reserva Cultural 1, Sala Uol e Unibanco Arteplex 6. Duração: 104 minutos. Classificação etária: 10 anos.

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