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Andrea Bocelli volta ao pop romântico


João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

17/11/2001 | 16:37


A revista especializada em música de concerto BBC Music estampou o tenor italiano Andrea Bocelli na capa, no ano passado. Perde-se o amigo, desde que seja por uma causa justa: uma boa piada, por exemplo. O diretor de redação agradeceu com destaque a compreensão do cantor italiano que vem vendendo milhões de CDs em todo o mundo nos seguintes termos: “Ficamos sensibilizados pelo fato de Bocelli ter nos atendido, depois de exatos três anos de pedidos da revista para fazer uma foto de capa. Claro, ele nos concedeu 3 minutos – e precisamos nos esforçar bastante para conseguir um resultado satisfatório. Vocês, leitores, é que julgarão”.

Bem, só mesmo os três tenores – Domingo, Carreras e Pavarotti – venderam mais discos do que Bocelli, em termos absolutos. Mas o jovem cantor toscano cego deve ultrapassá-los em pouco tempo. A cartada mais recente é o CD Cieli di Toscana (Universal, R$ 27,90), que chegou às lojas de todo o país semana passada. “O que eu mais desejo”, afirma Bocelli, “o que espero conseguir, é me comunicar com o ouvinte; tocá-lo da mesma forma que fui tocado quando criança pelos meus cantores favoritos, que me fizeram chorar e me fizeram sonhar”.

Chorar certamente foi o que fizeram os críticos de música de todo o mundo quando ele se pôs a cantar árias líricas – seu último e decepcionante CD –, e mesmo quando o colocaram no palco em uma montagem. Mas, como a máquina de promoção das grandes gravadoras ainda funciona como um rolo compressor, sobretudo em cima das grandes publicações européias e norte-americanas, foram vendidas milhões de cópias.

Agora, ao menos, ele volta para o leito normal de sua carreira. Ou seja, é um cantor popular romântico que se beneficia de fatores extramusicais para acrescentar mais charme ainda a sua carreira. Tudo, porém, muito longe da declaração cretina da cantora norte-americana Celine Dion, segundo a qual “Se Deus canta, deve soar bastante como a voz de Andrea Bocelli”.

O romantismo choroso sempre teve bom espaço na música popular internacional (afinal, até aqui temos nosso Bocelli, o canoro Agnaldo Rayol, além daquela penca de românticos que dão urticária nas sensibilidades menos grosseiras). Por isso, Bocelli diz sem corar que a música pop “é a trilha sonora da vida de muitas pessoas. Tem a qualidade de possuir emoções fortes e poderosas que conseguem atingir uma enorme audiência. Então, para mim, o pop deve ser e continuar baseado na genuína inspiração que vem da experiência de vida, transportado, conduzido, do coração e da alma para a voz”.

Lindo, mas inócuo. E dá-lhe porções derramadas de música chorosa com milhões de violinos e orquestrações proibidas para diabéticos, de tão adocicadas. Assim, Francesco Sartori, autor de outro sucesso de Bocelli, Time to Say Goodbye, assina Mille Lune Mille Onde, Chiara e L’Incontro. Nessa última, aliás, uma pitada para alavancar ainda mais as vendas: Bono Vox foi recrutado para recitar a introdução escrita pelo próprio Bocelli.

O astro também assina letra e música de Il Diavolo e L’Angelo. E, não poderia faltar, há uma vampirização de um trecho da Cavalleria Rusticana, de Mascagni.

Vocês vão dizer que o escriba não tem contemplação com este gênio da música pop por preconceito. Juro que me despi de todos eles e me pus a escutar o toscano com a maior das disposições. Não dá mesmo. Ele tem uma voz pequena, mas interessante. Até respira com certa sabedoria, mas falta-lhe sutileza. Tudo é escancaradamente triste, escancaradamente romântico etc. Não é proibido gostar de Andrea Bocelli. Mas quem se encantar com o menestrel toscano não deve ficar restrito a ele. Pode aventurar-se a outros cantores mais interessantes – e sobretudo mais honestos com o público. Afinal, quando se fala de Bocelli, sabe-se que ele só está atrás de um punhado de dólares.



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Andrea Bocelli volta ao pop romântico

João Marcos Coelho
Especial para o Diário do Grande ABC

17/11/2001 | 16:37


A revista especializada em música de concerto BBC Music estampou o tenor italiano Andrea Bocelli na capa, no ano passado. Perde-se o amigo, desde que seja por uma causa justa: uma boa piada, por exemplo. O diretor de redação agradeceu com destaque a compreensão do cantor italiano que vem vendendo milhões de CDs em todo o mundo nos seguintes termos: “Ficamos sensibilizados pelo fato de Bocelli ter nos atendido, depois de exatos três anos de pedidos da revista para fazer uma foto de capa. Claro, ele nos concedeu 3 minutos – e precisamos nos esforçar bastante para conseguir um resultado satisfatório. Vocês, leitores, é que julgarão”.

Bem, só mesmo os três tenores – Domingo, Carreras e Pavarotti – venderam mais discos do que Bocelli, em termos absolutos. Mas o jovem cantor toscano cego deve ultrapassá-los em pouco tempo. A cartada mais recente é o CD Cieli di Toscana (Universal, R$ 27,90), que chegou às lojas de todo o país semana passada. “O que eu mais desejo”, afirma Bocelli, “o que espero conseguir, é me comunicar com o ouvinte; tocá-lo da mesma forma que fui tocado quando criança pelos meus cantores favoritos, que me fizeram chorar e me fizeram sonhar”.

Chorar certamente foi o que fizeram os críticos de música de todo o mundo quando ele se pôs a cantar árias líricas – seu último e decepcionante CD –, e mesmo quando o colocaram no palco em uma montagem. Mas, como a máquina de promoção das grandes gravadoras ainda funciona como um rolo compressor, sobretudo em cima das grandes publicações européias e norte-americanas, foram vendidas milhões de cópias.

Agora, ao menos, ele volta para o leito normal de sua carreira. Ou seja, é um cantor popular romântico que se beneficia de fatores extramusicais para acrescentar mais charme ainda a sua carreira. Tudo, porém, muito longe da declaração cretina da cantora norte-americana Celine Dion, segundo a qual “Se Deus canta, deve soar bastante como a voz de Andrea Bocelli”.

O romantismo choroso sempre teve bom espaço na música popular internacional (afinal, até aqui temos nosso Bocelli, o canoro Agnaldo Rayol, além daquela penca de românticos que dão urticária nas sensibilidades menos grosseiras). Por isso, Bocelli diz sem corar que a música pop “é a trilha sonora da vida de muitas pessoas. Tem a qualidade de possuir emoções fortes e poderosas que conseguem atingir uma enorme audiência. Então, para mim, o pop deve ser e continuar baseado na genuína inspiração que vem da experiência de vida, transportado, conduzido, do coração e da alma para a voz”.

Lindo, mas inócuo. E dá-lhe porções derramadas de música chorosa com milhões de violinos e orquestrações proibidas para diabéticos, de tão adocicadas. Assim, Francesco Sartori, autor de outro sucesso de Bocelli, Time to Say Goodbye, assina Mille Lune Mille Onde, Chiara e L’Incontro. Nessa última, aliás, uma pitada para alavancar ainda mais as vendas: Bono Vox foi recrutado para recitar a introdução escrita pelo próprio Bocelli.

O astro também assina letra e música de Il Diavolo e L’Angelo. E, não poderia faltar, há uma vampirização de um trecho da Cavalleria Rusticana, de Mascagni.

Vocês vão dizer que o escriba não tem contemplação com este gênio da música pop por preconceito. Juro que me despi de todos eles e me pus a escutar o toscano com a maior das disposições. Não dá mesmo. Ele tem uma voz pequena, mas interessante. Até respira com certa sabedoria, mas falta-lhe sutileza. Tudo é escancaradamente triste, escancaradamente romântico etc. Não é proibido gostar de Andrea Bocelli. Mas quem se encantar com o menestrel toscano não deve ficar restrito a ele. Pode aventurar-se a outros cantores mais interessantes – e sobretudo mais honestos com o público. Afinal, quando se fala de Bocelli, sabe-se que ele só está atrás de um punhado de dólares.

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