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Jeremias, último dos bons


Melina Dias
Do Diário do Grande ABC

04/02/2007 | 20:02


Após 40 anos ele está de volta. Jeremias, O Bom, personagem criado por Ziraldo em 1965, ganha reedição de luxo (Ed. Melhoramentos, 143 págs., R$ 39) e vira uma espécie de padrinho de um novo espaço dedicado aos cartunistas em São Paulo, um bar que leva seu nome.

Jeremias é um dos mais quixotescos personagens de Ziraldo. Começou a ser publicado no Jornal do Brasil, mas provou ser bom, e nada bobo, quando migrou para a revista O Cruzeiro a partir de 1969, em plena ditadura.

As charges sobre suas aparentes boas ações ganharam contornos políticos. Jeremias começou a andar em “más companhias”, estudantes, religiosos progressistas, negros. Também surgiu em alguns protestos às avessas, tirando o sarro dos milicos.

Reza a lenda que os editores da revista demoraram um tempo a perceber o que estava acontecendo. O que não foi um fato isolado, muitos demoraram a perceber o que era considerado subversivo àquela época. E tantos outros se aproveitaram disso para prejudicar desafetos.

Ziraldo teve de tirar Jeremias de campo, mas conta que continuou a ajudar amigos a fugir da repressão. “Os editores da velha revista custaram a descobrir as jogadas de Jeremias e, assim que o fizeram, nos mandaram embora de vez. Foi quando achei que devia registrar a passagem do personagem pelo mundo nas páginas permanentes de um livro. Decidiu-se que as charges contra os movimentos da renovada ditadura não saíssem no livro. Vai ser fácil identificá-las nesta edição”, observa o autor.

Assim, boa parte das charges com viés engajado ficou na gaveta. Todo esse material consta nesta nova edição com capa dura.

Fora a contextualização política, o personagem se sustenta. Sem pieguice, ele levanta uma rara discussão no setor da arte seqüencial adulta sobre valores como solidariedade, respeito, tolerância e, principalmente, sensibilidade.

Ziraldo o criou para ser uma antítese do personagem mas famoso do humor brasileiro nos anos 60, o Amigo da Onça, um cara que virou sinônimo de oportunismo e deslealdade.

“Nove meses passaram tranqüilos. E o bom Jeremias nasceu. Não havia o parto sem dor. Jeremias, porém, não doeu”, escreve Ziraldo sobre a gênese do personagem, no início da edição.

Jeremias enxerga os problemas e necessidades do outro de uma forma patológica. Vai até parar no psiquiatra. Tira as próprias roupas para agasalhar um mendigo. Fica diabético de tanto comprar dropes dos meninos de rua. Leva a mãe para uma jantar de gala, com direito a nascer do sol na praia. Põe toalhas quentes nas brigas conjugais dos amigos e (pasmem) sempre vai para o gol nas peladas para evitar discussões na turma.

“Jeremias, em sua presente encarnação, está no papel difícil de homem da classe média espremido entre os bacanas e a ralé. Jeremias é um santo de gravata, o que é duríssimo (...). Mesmo porque se o Jeremias um dia perder a calma será um deus-nos-acuda”, escreve Antonio Callado no prefácio.

E se ações e pensamentos positivos atraem coisas boas, parece que Jeremias também fez bem a seu criador. Como ele conta, a publicação deste e de outro livro (Flicts, um grande sucesso editorial infantil) mudou a vida do autor no final dos anos 60.

Ziraldo nasceu em Caratinga (MG), em 1932. Começou sua carreira nos anos 50 em jornais e revistas. Autor de livros infantis, ilustrador e cartunista, teve suas obras traduzidas para diversos idiomas, entre eles inglês, espanhol, alemão, francês e italiano. Seu maior sucesso, O Menino Maluquinho, com mais de 80 edições e 2,5 milhões de exemplares vendidos também foi parar nos cinemas em longa de 1994.

Também acaba de ser relançado outro antigo título de Ziraldo, A Turma do Pererê – 365 Dias na Mata do Fundão (Globo, R$ 28).


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