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Deus e o diabo na terra de ninguém


Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

27/01/2006 | 08:13


Deus e o diabo são vizinhos na periferia do Grande ABC. Parece até provocação, mas o problema é mesmo a falta de espaço. Botecos e igrejas convivem quase grudados uns nos outros, e fazem bastante barulho, tirando o sossego de quem prefere não se meter na briga. Mas é quase impossível não tomar partido; a escolha é natural, não requer sacrifício. Ou se vai na igreja, ou se vai para o botequim. Na periferia, os fiéis da cerveja e da palavra sagrada se dividem, mas não se perturbam nem se misturam. Existe um acordo implícito na conduta dos botequeiros e dos crentes, para que o respeito ao culto e à birita sejam preservados.

Antes de abrir o bar há oito meses numa das principais ruas do Parque São Bernardo, Rosa Miriam de Oliveira, 37 anos, teve uma conversa com o pastor da igreja evangélica que fica bem na frente de seu comércio. Nada de música alta no bar nos dias de culto, geralmente realizados à noite. O jeito é abaixar o som e desligar o ouvido. “Eles cantam os hinos, tocam os instrumentos e fazem bastante barulho. Meus clientes já se acostumaram. Às vezes, parece que estão rezando aqui dentro do bar. Mas eu respeito, não reclamo, não. Quem sou eu pra medir força com Deus?”, explica a dona do boteco.

Quem mora nos arredores faz cara feia quando é dia de culto, mas não tem coragem de questionar o pastor. Reclamam é com Miriam, nas noites em que o bar oferece música sertaneja ao vivo. Uma das freqüentadoras assíduas no boteco da amiga, Rita de Cássia Ferreira de Souza conta que os fiéis do outro lado da rua evitam até cumprimentá-la quando ela está sentada à porta do botequim. “Parece que têm medo, não sei. Já vi muito crente entortando o pescoço durante o culto pra ver o que a gente tá fazendo aqui no bar”, garante.

A dona-de-casa Maria Glória dos Santos mora na favela ao lado do Parque São Bernardo, a Vila São Pedro. Passa longe dos botecos; luz e treva não se misturam, ensina a evangélica de 58 anos. Se uns batem cartão nas mesas de sinuca, ela vai três vezes por semana ao culto da Igreja Internacional da Graça de Deus. “O que mais tem na favela é bar e igreja. Ouço comentário de que tem muito crente por aí. Mas é só olhar no boteco que tem muito mais gente. Eu não encho a paciência de ninguém, não tento converter. Só ajoelho e rezo, pedindo para que os maridos das minhas amigas saiam da perdição”, comenta.

Precisa de tanto bar e tanta igreja? Precisa. Todo mundo já tem a explicação na ponta da língua. A proliferação de ambos na periferia não é fenômeno, é necessidade. “A gente adoece o espírito no boteco. E, quando fica velho, vai na igreja para se curar. Brincadeira de lado, eu me divirto pra lembrar que Deus existe e olha por mim”, diz a filósofa do boteco da Miriam, Rita de Cássia.

Temendo o avanço dos botecos no bairro, a dona-de-casa Maria da Silva Pereira transformou a garagem de casa em ponto de oração para a Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Moradora do Jardim Maria Helena, em Diadema, ela abre o portão, coloca as cadeiras de plástico na calçada e liga as caixas de som no último volume. A intenção de tanto barulho ela não nega. “A gente quer é chamar a atenção da vizinhança mesmo. Que eles escutem a palavra. Deus tem uma para cada um de nós. Lá no botequim, é só conversa fiada. E tem que ter bastante igreja, porque tem muita gente perdida por aí. Se o bar abre a porta, nós também vamos abrir”, discursa a afiadíssima Maria.



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Deus e o diabo na terra de ninguém

Illenia Negrin
Do Diário do Grande ABC

27/01/2006 | 08:13


Deus e o diabo são vizinhos na periferia do Grande ABC. Parece até provocação, mas o problema é mesmo a falta de espaço. Botecos e igrejas convivem quase grudados uns nos outros, e fazem bastante barulho, tirando o sossego de quem prefere não se meter na briga. Mas é quase impossível não tomar partido; a escolha é natural, não requer sacrifício. Ou se vai na igreja, ou se vai para o botequim. Na periferia, os fiéis da cerveja e da palavra sagrada se dividem, mas não se perturbam nem se misturam. Existe um acordo implícito na conduta dos botequeiros e dos crentes, para que o respeito ao culto e à birita sejam preservados.

Antes de abrir o bar há oito meses numa das principais ruas do Parque São Bernardo, Rosa Miriam de Oliveira, 37 anos, teve uma conversa com o pastor da igreja evangélica que fica bem na frente de seu comércio. Nada de música alta no bar nos dias de culto, geralmente realizados à noite. O jeito é abaixar o som e desligar o ouvido. “Eles cantam os hinos, tocam os instrumentos e fazem bastante barulho. Meus clientes já se acostumaram. Às vezes, parece que estão rezando aqui dentro do bar. Mas eu respeito, não reclamo, não. Quem sou eu pra medir força com Deus?”, explica a dona do boteco.

Quem mora nos arredores faz cara feia quando é dia de culto, mas não tem coragem de questionar o pastor. Reclamam é com Miriam, nas noites em que o bar oferece música sertaneja ao vivo. Uma das freqüentadoras assíduas no boteco da amiga, Rita de Cássia Ferreira de Souza conta que os fiéis do outro lado da rua evitam até cumprimentá-la quando ela está sentada à porta do botequim. “Parece que têm medo, não sei. Já vi muito crente entortando o pescoço durante o culto pra ver o que a gente tá fazendo aqui no bar”, garante.

A dona-de-casa Maria Glória dos Santos mora na favela ao lado do Parque São Bernardo, a Vila São Pedro. Passa longe dos botecos; luz e treva não se misturam, ensina a evangélica de 58 anos. Se uns batem cartão nas mesas de sinuca, ela vai três vezes por semana ao culto da Igreja Internacional da Graça de Deus. “O que mais tem na favela é bar e igreja. Ouço comentário de que tem muito crente por aí. Mas é só olhar no boteco que tem muito mais gente. Eu não encho a paciência de ninguém, não tento converter. Só ajoelho e rezo, pedindo para que os maridos das minhas amigas saiam da perdição”, comenta.

Precisa de tanto bar e tanta igreja? Precisa. Todo mundo já tem a explicação na ponta da língua. A proliferação de ambos na periferia não é fenômeno, é necessidade. “A gente adoece o espírito no boteco. E, quando fica velho, vai na igreja para se curar. Brincadeira de lado, eu me divirto pra lembrar que Deus existe e olha por mim”, diz a filósofa do boteco da Miriam, Rita de Cássia.

Temendo o avanço dos botecos no bairro, a dona-de-casa Maria da Silva Pereira transformou a garagem de casa em ponto de oração para a Igreja Evangélica Assembléia de Deus. Moradora do Jardim Maria Helena, em Diadema, ela abre o portão, coloca as cadeiras de plástico na calçada e liga as caixas de som no último volume. A intenção de tanto barulho ela não nega. “A gente quer é chamar a atenção da vizinhança mesmo. Que eles escutem a palavra. Deus tem uma para cada um de nós. Lá no botequim, é só conversa fiada. E tem que ter bastante igreja, porque tem muita gente perdida por aí. Se o bar abre a porta, nós também vamos abrir”, discursa a afiadíssima Maria.

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