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Vila Guiomar tem a avó mais descolada do Brasil

Claudinei Plaza/DGABC Diário do Grande ABC - Notícias e informações do Grande ABC: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra

Judith Caggiano, 83 anos, tem 68 tatuagens e 25 piercings espalhados pelo corpo e chama a atenção por onde passa


Vanessa de Oliveira
Do Diário do Grande ABC

30/08/2014 | 07:00


Moradora há 57 anos da Vila Guiomar, em Santo André, Judith Caggiano, 83 anos, é figura conhecida não só no bairro, mas em todo o Brasil. As 68 tatuagens que tem pelo corpo (a primeira feita aos 72 anos) lhe renderam inúmeras entrevistas a sites e revistas, aparições em programas de televisão e o título de vovó mais descolada do País.

Mas nem sempre foi assim. Por 51 anos, Judith manteve um casamento no qual a rigidez do marido imperava. “Ele me vigiava dia e noite, não deixava nem eu ir à casa dos nossos filhos. Era um excelente pai e todas as pessoas do nosso convívio o adoravam, mas o problema era eu”, conta.

O casamento, no entanto, terminou quando ela tinha 69 anos, no “até que a morte nos separe”. O marido morreu em decorrência de uma insuficiência respiratória.

Passado o luto, chegava o momento de Judith conhecer o mundo. Durante uma viagem ao Paraná, na casa de familiares, alguns garotos faziam tatuagem com uma máquina improvisada. “Pedi para eles fazerem uma tatuagem para mim, na nuca, mas não sabia que furava. Quando começaram, pensei: a cabeça vai cair agora”, lembra. Foram cinco horas para a conclusão de um tribal, que ela chama de ‘minha libertação’. “Para mim, demorou um mês.”

Ao chegar em casa, os três filhos viram o desenho e ficaram surpresos. “Eles esfregavam água para ver se saía”, recorda. Além das tatoos, ela tem ainda 25 piercings. Três deles não revela onde estão de jeito nenhum. “Coloque onde você quiser”, fala, misteriosa.

Apesar da dor na primeira experiência, criou coragem e fez três estrelas, cada uma homenageando um filho. Vieram outras 11 para contemplar os cinco netos e seis bisnetos.

Judith também começou a frequentar baladas. A primeira foi na companhia da neta. “Achei tão bom que ela ficava correndo atrás de mim para a gente ir embora, mas eu me escondia. Tinha uma cruz que acendia. Quando via que ela tinha me achado, apagava e, na escuridão, como ela iria me achar?”, questiona.

Agora, frequenta casas noturnas sozinha. Sem carro, vai a pé até a Rua das Figueiras. Rodeada pelos jovens, ela é mais que uma boa companhia; é uma conselheira. “Falo para eles que precisam ser educados, respeitar os outros, saber viver e não ser atrevidos.”

Judith só chega em casa ao nascer do sol e engana-se quem pensa que, no dia seguinte, aproveita para descansar. “Chego às 6h da balada, durmo três horas e vou à missa. Saindo da igreja, sigo para um bar que toca chorinho.”

A jovem senhora esbanja saúde e vitalidade. A receita, não é médica. “Encaro a vida com alegria e tenho fé em Deus, o que torna tudo mais fácil.”

Sósia do ET é garçom em lanchonete

A Vila Guiomar é mesmo um bairro de gente famosa. A semelhança de Márcio Aparecido Rodrigues, 44 anos, com Cláudio Chirinian, que interpretou o personagem ET, da dupla ET e Rodolfo, o tornou conhecido nas redondezas. Ele, inclusive, traja vestuário semelhante ao que usava o original: calça social preta, smoking branco e gravata borboleta.

“Todos diziam que eu parecia com ele. Trabalhei dois anos e meio em uma rádio da região e me deram a roupa”, conta. Na emissora, ele atuava nas ruas, entregando brindes promocionais aos motoristas.

Rodrigues chegou a conhecer o humorista, que morreu em fevereiro de 2010, vítima de parada cardíaca em decorrência de um choque séptico, broncopneumonia e insuficiência renal. O encontro, porém, não foi tão amistoso.

“O pessoal da rádio me levou para conhecê-lo, mas ele não quis dar a mão para me cumprimentar. Ficou com ciúmes, achou que eu tomaria o lugar dele.”

Há nove anos ele trabalha em uma lanchonete próxima de sua casa. Lá, faz de tudo um pouco. “Lavo louça, descasco batatas, faço limpeza”, lista. O uniforme, claro, continua sendo a roupa que o faz famoso e que, segundo ele, atrai as mulheres. “Quando estou vestido assim, elas vêm mais atrás de mim”, fala, orgulhoso.

Apesar disso, ele não namora. “Estou ficando”, diz, com um sorriso.

Rodrigues é sempre requisitado para eventos e o contato com o público lhe agrada. “Gosto muito de lidar com as pessoas.”

Ele gostaria de expandir a fama que tem no bairro. “Tenho muita vontade de atuar na televisão. Queria ficar conhecido em todo o lugar, no mundo inteiro.”

Arte de morador leva colorido para as ruas

O artista visual Guilherme Augusto Ferrari Melo, mais conhecido como Gafi, é o responsável por dar à Vila Guiomar um colorido especial. Vielas laterais de alguns prédios ganharam grafites, dando ainda mais vida à região.

O contato com a arte de rua teve início entre os anos de 2004 e 2005. Nesse período, havia em Santo André um grupo que desenvolvia grandes eventos e murais de grafite, surgindo aí o interesse de Gafi pela área e também pelas artes plásticas, curso no qual se formou em 2009.

“Comecei a perceber que a Vila Guiomar tinha muito mais a me oferecer. Na faculdade já explorava essas ideias de não pintar só muros , mas só em 2011 comecei realmente a ter certeza do que queria.”

Inicialmente, os trabalhos artísticos eram feitos na garagem do avô, mas o espaço ficou insuficiente para a produção. “Foi quando, com a ajuda e incentivo do meu avô materno, o senhor Ferrari, aluguei a garagem ao lado da dele (na Rua Seis) e montei um ateliê. Comecei a recolher restos de madeiras, fragmentos de portas das garagens e outros materiais encontrados no entorno para usar como material”, lembra.

No espaço, costuma receber a visita de crianças, curiosas por sua atuação. “Mostra o que faço e a importância do grande quintal que temos. Toda vez que vou pintar algum muro, acabo tendo um envolvimento natural com as crianças, que estão sempre dispostas a ajudar e a aprender.”

Para Gafi, o grafite e as artes plásticas vão além da profissão. “É um estilo de vida. Se hoje consegui alcançar meus objetivos, devo tudo ao que aprendi na rua.”

Gafi ressalta que pretende levar ainda mais alegria ao bairro, com a ajuda de parceiros. “Em breve pretendo montar um mutirão com moradores e amigos para renovar todas as pinturas já feitas e, quem sabe, conseguir mais muros pela Vila Guiomar.”

Conjunto é referência na história do bairro e de Santo André

O conjunto habitacional IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriais), na Vila Guiomar, tem 72 anos de história e é um retrato do crescimento da industrialização no Grande ABC na década de 1940. Na época, havia em Santo André 443 estabelecimentos industriais que empregavam 27.775 pessoas. A cidade concentrava mais da metade dos operários da região (46 mil) e também do total de empresas (741). A necessidade de abrigar os trabalhadores do município impulsionou a segunda etapa do conjunto de prédios na Vila Guiomar, localizados a menos de um quilômetro do Centro.

Prédios de três andares e construídos no estilo chamado de caixote, por causa do comprimento, sobre pilotis (colunas ou pilares estruturais que sustentam uma construção, deixando livre o pavimento térreo) e dispostos em uma área com amplos espaços vazios, deram ar de modernidade ao bairro na época. Ao todo, são 14 condomínios.

O Conjunto IAPI também foi palco da primeira grande invasão do Grande ABC. Depois de mais de dez anos em construção, os futuros moradores se viram diante de apartamentos prontos, mas sem condições de uso por falta de ligação de água e esgoto por parte da Prefeitura. Após consulta com diretores do IAPI no Rio de Janeiro, os moradores resolveram invadir os prédios para forçar a administração municipal a ligar as redes de água e esgoto.

Vizinhos da área desejam a preservação da obra, a fim de manter viva para as gerações futuras a história de um projeto de construção para trabalhadores que deu certo. 



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Vila Guiomar tem a avó mais descolada do Brasil

Judith Caggiano, 83 anos, tem 68 tatuagens e 25 piercings espalhados pelo corpo e chama a atenção por onde passa

Vanessa de Oliveira
Do Diário do Grande ABC

30/08/2014 | 07:00


Moradora há 57 anos da Vila Guiomar, em Santo André, Judith Caggiano, 83 anos, é figura conhecida não só no bairro, mas em todo o Brasil. As 68 tatuagens que tem pelo corpo (a primeira feita aos 72 anos) lhe renderam inúmeras entrevistas a sites e revistas, aparições em programas de televisão e o título de vovó mais descolada do País.

Mas nem sempre foi assim. Por 51 anos, Judith manteve um casamento no qual a rigidez do marido imperava. “Ele me vigiava dia e noite, não deixava nem eu ir à casa dos nossos filhos. Era um excelente pai e todas as pessoas do nosso convívio o adoravam, mas o problema era eu”, conta.

O casamento, no entanto, terminou quando ela tinha 69 anos, no “até que a morte nos separe”. O marido morreu em decorrência de uma insuficiência respiratória.

Passado o luto, chegava o momento de Judith conhecer o mundo. Durante uma viagem ao Paraná, na casa de familiares, alguns garotos faziam tatuagem com uma máquina improvisada. “Pedi para eles fazerem uma tatuagem para mim, na nuca, mas não sabia que furava. Quando começaram, pensei: a cabeça vai cair agora”, lembra. Foram cinco horas para a conclusão de um tribal, que ela chama de ‘minha libertação’. “Para mim, demorou um mês.”

Ao chegar em casa, os três filhos viram o desenho e ficaram surpresos. “Eles esfregavam água para ver se saía”, recorda. Além das tatoos, ela tem ainda 25 piercings. Três deles não revela onde estão de jeito nenhum. “Coloque onde você quiser”, fala, misteriosa.

Apesar da dor na primeira experiência, criou coragem e fez três estrelas, cada uma homenageando um filho. Vieram outras 11 para contemplar os cinco netos e seis bisnetos.

Judith também começou a frequentar baladas. A primeira foi na companhia da neta. “Achei tão bom que ela ficava correndo atrás de mim para a gente ir embora, mas eu me escondia. Tinha uma cruz que acendia. Quando via que ela tinha me achado, apagava e, na escuridão, como ela iria me achar?”, questiona.

Agora, frequenta casas noturnas sozinha. Sem carro, vai a pé até a Rua das Figueiras. Rodeada pelos jovens, ela é mais que uma boa companhia; é uma conselheira. “Falo para eles que precisam ser educados, respeitar os outros, saber viver e não ser atrevidos.”

Judith só chega em casa ao nascer do sol e engana-se quem pensa que, no dia seguinte, aproveita para descansar. “Chego às 6h da balada, durmo três horas e vou à missa. Saindo da igreja, sigo para um bar que toca chorinho.”

A jovem senhora esbanja saúde e vitalidade. A receita, não é médica. “Encaro a vida com alegria e tenho fé em Deus, o que torna tudo mais fácil.”

Sósia do ET é garçom em lanchonete

A Vila Guiomar é mesmo um bairro de gente famosa. A semelhança de Márcio Aparecido Rodrigues, 44 anos, com Cláudio Chirinian, que interpretou o personagem ET, da dupla ET e Rodolfo, o tornou conhecido nas redondezas. Ele, inclusive, traja vestuário semelhante ao que usava o original: calça social preta, smoking branco e gravata borboleta.

“Todos diziam que eu parecia com ele. Trabalhei dois anos e meio em uma rádio da região e me deram a roupa”, conta. Na emissora, ele atuava nas ruas, entregando brindes promocionais aos motoristas.

Rodrigues chegou a conhecer o humorista, que morreu em fevereiro de 2010, vítima de parada cardíaca em decorrência de um choque séptico, broncopneumonia e insuficiência renal. O encontro, porém, não foi tão amistoso.

“O pessoal da rádio me levou para conhecê-lo, mas ele não quis dar a mão para me cumprimentar. Ficou com ciúmes, achou que eu tomaria o lugar dele.”

Há nove anos ele trabalha em uma lanchonete próxima de sua casa. Lá, faz de tudo um pouco. “Lavo louça, descasco batatas, faço limpeza”, lista. O uniforme, claro, continua sendo a roupa que o faz famoso e que, segundo ele, atrai as mulheres. “Quando estou vestido assim, elas vêm mais atrás de mim”, fala, orgulhoso.

Apesar disso, ele não namora. “Estou ficando”, diz, com um sorriso.

Rodrigues é sempre requisitado para eventos e o contato com o público lhe agrada. “Gosto muito de lidar com as pessoas.”

Ele gostaria de expandir a fama que tem no bairro. “Tenho muita vontade de atuar na televisão. Queria ficar conhecido em todo o lugar, no mundo inteiro.”

Arte de morador leva colorido para as ruas

O artista visual Guilherme Augusto Ferrari Melo, mais conhecido como Gafi, é o responsável por dar à Vila Guiomar um colorido especial. Vielas laterais de alguns prédios ganharam grafites, dando ainda mais vida à região.

O contato com a arte de rua teve início entre os anos de 2004 e 2005. Nesse período, havia em Santo André um grupo que desenvolvia grandes eventos e murais de grafite, surgindo aí o interesse de Gafi pela área e também pelas artes plásticas, curso no qual se formou em 2009.

“Comecei a perceber que a Vila Guiomar tinha muito mais a me oferecer. Na faculdade já explorava essas ideias de não pintar só muros , mas só em 2011 comecei realmente a ter certeza do que queria.”

Inicialmente, os trabalhos artísticos eram feitos na garagem do avô, mas o espaço ficou insuficiente para a produção. “Foi quando, com a ajuda e incentivo do meu avô materno, o senhor Ferrari, aluguei a garagem ao lado da dele (na Rua Seis) e montei um ateliê. Comecei a recolher restos de madeiras, fragmentos de portas das garagens e outros materiais encontrados no entorno para usar como material”, lembra.

No espaço, costuma receber a visita de crianças, curiosas por sua atuação. “Mostra o que faço e a importância do grande quintal que temos. Toda vez que vou pintar algum muro, acabo tendo um envolvimento natural com as crianças, que estão sempre dispostas a ajudar e a aprender.”

Para Gafi, o grafite e as artes plásticas vão além da profissão. “É um estilo de vida. Se hoje consegui alcançar meus objetivos, devo tudo ao que aprendi na rua.”

Gafi ressalta que pretende levar ainda mais alegria ao bairro, com a ajuda de parceiros. “Em breve pretendo montar um mutirão com moradores e amigos para renovar todas as pinturas já feitas e, quem sabe, conseguir mais muros pela Vila Guiomar.”

Conjunto é referência na história do bairro e de Santo André

O conjunto habitacional IAPI (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriais), na Vila Guiomar, tem 72 anos de história e é um retrato do crescimento da industrialização no Grande ABC na década de 1940. Na época, havia em Santo André 443 estabelecimentos industriais que empregavam 27.775 pessoas. A cidade concentrava mais da metade dos operários da região (46 mil) e também do total de empresas (741). A necessidade de abrigar os trabalhadores do município impulsionou a segunda etapa do conjunto de prédios na Vila Guiomar, localizados a menos de um quilômetro do Centro.

Prédios de três andares e construídos no estilo chamado de caixote, por causa do comprimento, sobre pilotis (colunas ou pilares estruturais que sustentam uma construção, deixando livre o pavimento térreo) e dispostos em uma área com amplos espaços vazios, deram ar de modernidade ao bairro na época. Ao todo, são 14 condomínios.

O Conjunto IAPI também foi palco da primeira grande invasão do Grande ABC. Depois de mais de dez anos em construção, os futuros moradores se viram diante de apartamentos prontos, mas sem condições de uso por falta de ligação de água e esgoto por parte da Prefeitura. Após consulta com diretores do IAPI no Rio de Janeiro, os moradores resolveram invadir os prédios para forçar a administração municipal a ligar as redes de água e esgoto.

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