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Todo dia era dia de índio


Rodolfo de Souza

26/07/2020 | 00:01


O ancestral do índio reinava soberano neste lindo e rico território quando o homem branco aqui chegou. Chegou e trouxe consigo presentes de grego, doenças e a igreja. Ou talvez a igreja o tenha trazido, não sei bem. Afinal, era ela que exercia o comando em nome de Deus, dobrando até mesmo os joelhos dos reis. Tempos antigos, aqueles em que se amarrava cachorro com linguiça.

Falo de uma época longínqua em que a grande Nação brasileira, que ainda não havia sido batizada com nome tão varonil, era povoada por várias outras nações que nem sempre cultivavam grande apreço umas pelas outras. Adoravam, pois sim, uma contendazinha, uma peleja cuja vitória era quase sempre celebrada com um jantar à base de carne inimiga. Iguaria indispensável!

Todavia, apesar de tanta fartura, era da natureza que retiravam o seu sustento. Possivelmente as diversas tribos tivessem em comum o sentimento de amor por ela e por toda a riqueza que dela provinha.

Entretanto, os milhões de indígenas que aqui moravam viram o homem de além-mar trazer novidades, dentre as quais uma arma diferente, que cuspia fogo ao invés de setas. Era, pois, bem mais atraente aos olhos dos bravos guerreiros, que logo foram seduzidos pelo seu brilho. Também amaram bobagens como o espelho, que era facilmente encontrado nos lagos espalhados por toda a sua terra.

E não demorou para que lhes fossem apresentados os padres, que vieram para lhes ensinar coisas que eles não queriam aprender, mas que, mesmo assim, lhes foram empurradas goela abaixo, gerações após gerações.

E os séculos passaram rápido como o vento, e o índio viu seu povo minguar e dar lugar ao homem branco, devorador contumaz da natureza, meio de vida da gente natural do lugar. O mesmo branco que, com o passar de tanto tempo, não aprendeu que o grande capital tem um poder limitado, e que sem a produtividade e o cuidado com o meio ambiente, há de falir, levando consigo todo apego, toda a idolatria que hoje o corrompe e promove o sofrimento dos menos favorecidos. Sem contar que ainda carrega na estrutura genética o ensejo pela escravidão do mais fraco. Mecanismo barato de produção, que sem dúvida aumenta a lucratividade.

Hoje, dos primeiros que aqui chegaram, restou somente o afã que acompanha o homem desde que se organizara em comunidade, lá nos primórdios da civilização. Refiro-me, claro, ao domínio do semelhante e de tudo o que lhe pertence. Talvez os índios também tenham vivido o seu momento de conquistas. É possível até que em suas guerras cultivassem o mesmo anseio. Afinal, eram homens. Só tinham um jeito diferente de lidar com as coisas. 

Mas nos dias atuais, depois de dizimada a maior parte das nações indígenas, poucos sobraram para contar a história.

Na Amazônia brasileira os que restaram lutam agora desesperadamente para se manterem índios, cultivando em paz a sua terra, tocando as suas tradições. Mas o homem branco permanece o mesmo que aqui aportou um dia para tirar deles aquilo que eles tinham de mais sagrado: sua terra. 

Mas quem, afinal, pode deter a voracidade do madeireiro que consome impiedosamente a floresta? Ou o do garimpeiro, que destrói a mata e envenena a terra? Ou o do poder político e do grande capital que fomentam tudo isso? Quem pode, todos sabemos, não se mexe.

E a grande mata continua a ser consumida pela falta de escrúpulos do homem branco, que odeia a vida. E o habitante primeiro destas paragens vê seu povo e sua querida natureza desaparecerem bem diante de seus olhos, sem que nada possa fazer. Talvez até sonhe em partir um dia para um lugar, lá no meio dos deuses, onde haja florestas em abundância, fora do alcance da mão daninha e de seu poder destruidor. Lugar em que tudo aspire somente à criação.



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Todo dia era dia de índio

Rodolfo de Souza

26/07/2020 | 00:01


O ancestral do índio reinava soberano neste lindo e rico território quando o homem branco aqui chegou. Chegou e trouxe consigo presentes de grego, doenças e a igreja. Ou talvez a igreja o tenha trazido, não sei bem. Afinal, era ela que exercia o comando em nome de Deus, dobrando até mesmo os joelhos dos reis. Tempos antigos, aqueles em que se amarrava cachorro com linguiça.

Falo de uma época longínqua em que a grande Nação brasileira, que ainda não havia sido batizada com nome tão varonil, era povoada por várias outras nações que nem sempre cultivavam grande apreço umas pelas outras. Adoravam, pois sim, uma contendazinha, uma peleja cuja vitória era quase sempre celebrada com um jantar à base de carne inimiga. Iguaria indispensável!

Todavia, apesar de tanta fartura, era da natureza que retiravam o seu sustento. Possivelmente as diversas tribos tivessem em comum o sentimento de amor por ela e por toda a riqueza que dela provinha.

Entretanto, os milhões de indígenas que aqui moravam viram o homem de além-mar trazer novidades, dentre as quais uma arma diferente, que cuspia fogo ao invés de setas. Era, pois, bem mais atraente aos olhos dos bravos guerreiros, que logo foram seduzidos pelo seu brilho. Também amaram bobagens como o espelho, que era facilmente encontrado nos lagos espalhados por toda a sua terra.

E não demorou para que lhes fossem apresentados os padres, que vieram para lhes ensinar coisas que eles não queriam aprender, mas que, mesmo assim, lhes foram empurradas goela abaixo, gerações após gerações.

E os séculos passaram rápido como o vento, e o índio viu seu povo minguar e dar lugar ao homem branco, devorador contumaz da natureza, meio de vida da gente natural do lugar. O mesmo branco que, com o passar de tanto tempo, não aprendeu que o grande capital tem um poder limitado, e que sem a produtividade e o cuidado com o meio ambiente, há de falir, levando consigo todo apego, toda a idolatria que hoje o corrompe e promove o sofrimento dos menos favorecidos. Sem contar que ainda carrega na estrutura genética o ensejo pela escravidão do mais fraco. Mecanismo barato de produção, que sem dúvida aumenta a lucratividade.

Hoje, dos primeiros que aqui chegaram, restou somente o afã que acompanha o homem desde que se organizara em comunidade, lá nos primórdios da civilização. Refiro-me, claro, ao domínio do semelhante e de tudo o que lhe pertence. Talvez os índios também tenham vivido o seu momento de conquistas. É possível até que em suas guerras cultivassem o mesmo anseio. Afinal, eram homens. Só tinham um jeito diferente de lidar com as coisas. 

Mas nos dias atuais, depois de dizimada a maior parte das nações indígenas, poucos sobraram para contar a história.

Na Amazônia brasileira os que restaram lutam agora desesperadamente para se manterem índios, cultivando em paz a sua terra, tocando as suas tradições. Mas o homem branco permanece o mesmo que aqui aportou um dia para tirar deles aquilo que eles tinham de mais sagrado: sua terra. 

Mas quem, afinal, pode deter a voracidade do madeireiro que consome impiedosamente a floresta? Ou o do garimpeiro, que destrói a mata e envenena a terra? Ou o do poder político e do grande capital que fomentam tudo isso? Quem pode, todos sabemos, não se mexe.

E a grande mata continua a ser consumida pela falta de escrúpulos do homem branco, que odeia a vida. E o habitante primeiro destas paragens vê seu povo e sua querida natureza desaparecerem bem diante de seus olhos, sem que nada possa fazer. Talvez até sonhe em partir um dia para um lugar, lá no meio dos deuses, onde haja florestas em abundância, fora do alcance da mão daninha e de seu poder destruidor. Lugar em que tudo aspire somente à criação.

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