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Vigor marca recital chopiniano


Joao Marcos Coelho
Especial para o Diário

12/09/1999 | 16:52


Na fria noite de sexta-feira passada, dia 10, menos de 100 pessoas dispuseram-se a assistir ao primeiro recital da ediçao 1999 da série Concertos Grande ABC. No programa, apenas peças de Chopin, o compositor mais popular entre os eruditos, de quem comemoramos 150 anos de morte, ocorrida em outubro de 1849. E, pilotando o Steinway & Sons, Fernando Lopes, um dos mais experientes e técnicos pianistas brasileiros.

Nao havia como fugir de duas sensaçoes contraditórias. De um lado, nao se entende como uma regiao onde há tantos professores(as) de piano particulares e escolas de música nao tenha arregimentado estudantes para conferir um programa tao conhecido e fundamental para o desenvolvimento de todo aprendiz de piano. Sem dúvida, o Grande ABC precisa aproveitar melhor as grandes oportunidades de se ouvir música da mais alta qualidade interpretada por um pianista com o nível de Lopes. Convênios com escolas, divulgaçao direta junto aos professores de música da regiao - açoes deste tipo devem ser empreendidas pela Associaçao Pró-Música do Grande ABC.

Mas, se de um lado era necessário lamentar o pouco público presente, do ponto de vista propriamente artístico as coisas caminharam muito bem. Lopes é um pianista tecnicamente perfeito, que coloca muito vigor em suas execuçoes. Construiu uma bela carreira alicerçada em recitais sempre marcados por programas complexos. Na noite de sexta-feira, no Teatro Lauro Gomes, em Sao Bernardo, a situaçao era bem esta. Além da difícil Sonata em si bemol menor opus 35 - aquela famosa que inclui a conhecidíssima Marcha Fúnebre no terceiro movimento -, ele enfrentou os 12 Estudos opus 10, o monumento que instaurou nao só as bases do piano romântico, mas da escritura pianística moderna.

Atlético - Lopes sempre enfatizou o lado atlético e muscular da atividade pianística. Por isso mesmo, é o músico perfeito para enfrentar grandes desafios, como as longas e difíceis obras de Brahms ou Liszt. No caso de Chopin, seu enfoque é bastante pessoal. Ou seja, o seu Chopin é vigoroso e atlético. Distante, portanto, das interpretaçoes padronizadas ao longo do tempo, que destacam a sutileza e mesmo o caráter feminino da personalidade chopiniana.

Por exemplo, na dinâmica de Lopes nao existe o pianíssimo. Seu espectro de volume de som vai do mezzopiano até o fortíssimo - o que às vezes nos deixa meio frustrados. Por outro lado, esse tipo de concepçao é particularmente adequado ao repertório oficial do programa - os Estudos e a Sonata.

Os problemas dessa concepçao de Lopes se acentuaram mesmo nos dois extras concedidos. Tanto o Noturno em ré bemol quanto o famosíssimo Scherzo nº 2 padeceram, nas maos de Lopes, de pouco contraste dinâmico. Eu iria até mais longe, discordando do modo como Lopes economiza o rubato (aqueles retardamentos e aceleraçoes de andamento que ficam a cargo da sensibilidade de cada pianista). O rubato é quem sabe uma das formas mais subjetivas de intervençao do intérprete na obra de Chopin.

Arthur Moreira Lima, outro brasileiro especialista na música romântica, sempre diz que para tocar Chopin ele usa toda a ginga que aprendeu desde criança com a música popular. Nao é preciso chegar a este exagero, nem considero que Moreira Lima coloque tamanho veneno em seu Chopin, mas um pouco de flexibilidade vai bem na química da interpretaçao de obras como os noturnos e os scherzi. Sobrou músculo, mas faltou um pouco de chama interior.



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