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Setor audiovisual tem déficit de R$ 240 milhoes


Do Diário do Grande ABC

07/08/1999 | 17:35


A balança comercial brasileira registra um déficit no setor audiovisual de R$ 240 milhoes, segundo o Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica. A relaçao entre importaçao e exportaçao de filmes é mesmo desigual. O número assusta, mas perturba principalmente ao se constatar que pelo menos 25% de tudo que é investido atualmente na produçao de longas-metragens no país sao gastos lá fora em estúdios habilitados a sonorizar e realizar efeitos especiais de qualidade. A derrama vem preocupando cineastas e produtores. Na última reuniao no BNDES, no Rio, com o ministro da Cultura, Francisco Weffort, chegou-se a incluir um item de fomento à chamada indústria do cinema na pauta de reivindicaçoes. ``Todo o trabalho de finalizaçao tem que ser realizado no exterior por questoes técnicas. Ganhamos dinheiro do governo para produzir e temos que ir gastar lá fora. Isso é uma vergonha'', disse o produtor Luiz Carlos Barreto.

Os representantes da chamada indústria cinematográfica, embora tenham investido como nunca nos últimos anos, se ressentem de que nao encontram garantias de continuidade na produçao. ``Você consegue me responder se vai ter cinema brasileiro ano que vem? Se tivesse certeza, entraria com um pedido de financiamento no BNDES para comprar mais equipamento'', diz José Luis Sasso, dono do estúdio de som mais procurado do país. Na fila por uma vaga na modesta casa do bairro da Lapa, em Sao Paulo, estao pelo menos oito longas-metragens, entre eles "Através da janela", de Tatá Amaral, "Negociaçao mortal", de Marcelo Taranto, "Gêmeas", de Andrucha Waddington, e "Lavoura arcaica", de Luiz Fernando Carvalho. A espera pode demorar até quatro meses. Tempo gasto, por exemplo, por Mauá, o imperador e o rei, de Sérgio Rezende, recém-mixado ali. ``Tem diretor que ainda nem começou a rodar e já liga para fazer reserva. Tolerância, da Casa de Cinema de Porto Alegre, é um'', conta. Apesar da demanda, o autodidata Sasso, há quase 30 anos no ramo, garante que a hora nao é de arriscar novos investimentos.

O pedido feito para abertura de linhas de crédito específicas para a indústria do cinema é bem-vindo, mas nao sensibiliza os investidores. ``O financiamento é a parte mais fácil. Você compra o equipamento. Mas quem vai usar?'', pergunta o coordenador geral dos Estúdios Mega, José Rubens, que, apesar da tradiçao como estúdio fonográfico, vem investindo pesado nos últimos anos na compra de equipamentos para ediçao de imagens para o cinema. Apesar das novas frentes de trabalho na empresa, 90% do movimento ainda vêm da publicidade e da televisao.

A carga tributária para importar equipamentos é apontada como a outra grande inimiga do crescimento do setor. ``O custo de compra é acrescido em até 70% só com gastos de ICMS, ISS e impostos alfandegários'', conta Sasso. ``Existe um consenso de que lá fora tudo é mais barato. Nossos preços sao mais caros por conta das importaçoes. Em Los Angeles, você chuta uma pedra e saem quatro, cinco telecines'', se defende José Rubens. A idéia de que se economiza finalizando lá fora é contestada por Barreto. ``Você tem que levar toneladas de material. Bancar passagens e diárias de hotel para a equipe. Isso tudo é um custo. Além de ser um incômodo'', reclama.

A falta de competitividade no setor é outro entrave para a melhoria dos serviços e, principalmente, do atendimento. Na Líder Cine Laboratórios, uma das maiores empresas de copiagem do Rio, que vem renovando toda a sua maquinaria, a reportagem nao conseguiu sequer ser recebida. ``Uma vez em Los Angeles fui dizer que tinha gostado do casaco de couro do cara, ele tirou e me deu. Ele disse que tinha mais 15 estúdios iguais ao dele naquela rua e que se eu tinha gostado do casaco esse podia ser o diferencial. Lá eles fazem o melhor para te agradar'', conta o diretor Zelito Vianna, exemplificando os benefícios que uma saudável competiçao pode trazer. Zelito sabe o que diz. Para colocar o melhor som em Villa-Lobos, teve de alugar o auditório da Uerj. ``Nao existe no Brasil um estúdio que comporte uma orquestra média por inteiro. As salas de mixagem nao têm a dimensao de um cinema, o que dificulta uma avaliaçao'', diz.

Esmero com sonoridade é coisa recente no cinema brasileiro. A maioria das salas de exibiçao sequer está adaptada para receber tanta eficiência. Mas qualquer produtor sabe atualmente que nao há como trabalhar mais sem um dolby estéreo básico. O público chia. Sasso lembra que No coraçao dos deuses, de Geraldo Moraes, foi o primeiro filme a ser mixado digitalmente no Brasil e ainda nem chegou às telas. Depois vieram Simao, o fantasma trapalhao, Zoando na TV, O primeiro dia, Por trás do pano e Dois córregos. Mas poucos estúdios estao gabaritados para o trabalho.

Já na pós-produçao de imagem, a situaçao é um pouco melhor. A disseminaçao no Brasil de equipamentos de ediçao nao linear, como o Avid Film Composer - Oscar de conquista tecnológica deste ano mais uma vez -, vem facilitando em muito a montagem para o cinema. Mas ainda é comum assistir a problemas de sincronismo entre fala e gesticulaçao labial nos filmes brasileiros - som e imagem que nao caminham juntos. Cut lists (listagem dos frames que serao usados no filme) e recursos de ajustes, conhecidos como pull down (processo de compensaçao de quadros) e drop frames (de equivalência sonora), ajudam, mas para Zelito o problema é eterno. ``Nao há como fazer tudo no computador. Você tem 24 quadros por segundo no cinema contra 29,97 da televisao. Tem que voltar à película para os acertos'', diz.

Para quem lida com os sistemas de ediçao no computador, a máxima reflete desinformaçao. ``A quantidade de produçoes no Brasil ainda nao é suficiente para aprimorar a técnica. É preciso ter todo dia gente resolvendo esse tipo de coisa'', diz José Rubens. ``A tecnologia veio meio rápido e para completar nosso cinema ficou parado um bom tempo'', completa Maria Clara Fernandez, do atendimento da Mega em Sao Paulo, há 17 anos no ramo.

A falta de formaçao de mao-de-obra técnica para pós-produçao em cinema é outro problema. A figura do coordenador de pós-produçao, coisa banal lá fora, só vem tomando força por aqui nos últimos cinco anos. É raro ainda um especialista em finalizaçao ser chamado para acompanhar todo o processo desde o início, planejando as melhores formas de captaçao de imagem e som a fim de facilitar a ediçao final do material. Toda especializaçao do setor também é basicamente treinada fora. Geralmente pelas próprias empresas fornecedoras do equipamento. Há quem acredite que esse é o principal problema da chamada indústria do cinema. ``A falta de equipamentos de pós-produçao aqui nao é o pior. A Varig pode ser uma boa finalizadora. Pior é nao encontrar ninguém que saiba orientar sobre um problema. Sem formaçao de mao-de-obra nunca vamos ter a tecnologia'', diz Marcelo Dantas, da produtora Magneto.



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Setor audiovisual tem déficit de R$ 240 milhoes

Do Diário do Grande ABC

07/08/1999 | 17:35


A balança comercial brasileira registra um déficit no setor audiovisual de R$ 240 milhoes, segundo o Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica. A relaçao entre importaçao e exportaçao de filmes é mesmo desigual. O número assusta, mas perturba principalmente ao se constatar que pelo menos 25% de tudo que é investido atualmente na produçao de longas-metragens no país sao gastos lá fora em estúdios habilitados a sonorizar e realizar efeitos especiais de qualidade. A derrama vem preocupando cineastas e produtores. Na última reuniao no BNDES, no Rio, com o ministro da Cultura, Francisco Weffort, chegou-se a incluir um item de fomento à chamada indústria do cinema na pauta de reivindicaçoes. ``Todo o trabalho de finalizaçao tem que ser realizado no exterior por questoes técnicas. Ganhamos dinheiro do governo para produzir e temos que ir gastar lá fora. Isso é uma vergonha'', disse o produtor Luiz Carlos Barreto.

Os representantes da chamada indústria cinematográfica, embora tenham investido como nunca nos últimos anos, se ressentem de que nao encontram garantias de continuidade na produçao. ``Você consegue me responder se vai ter cinema brasileiro ano que vem? Se tivesse certeza, entraria com um pedido de financiamento no BNDES para comprar mais equipamento'', diz José Luis Sasso, dono do estúdio de som mais procurado do país. Na fila por uma vaga na modesta casa do bairro da Lapa, em Sao Paulo, estao pelo menos oito longas-metragens, entre eles "Através da janela", de Tatá Amaral, "Negociaçao mortal", de Marcelo Taranto, "Gêmeas", de Andrucha Waddington, e "Lavoura arcaica", de Luiz Fernando Carvalho. A espera pode demorar até quatro meses. Tempo gasto, por exemplo, por Mauá, o imperador e o rei, de Sérgio Rezende, recém-mixado ali. ``Tem diretor que ainda nem começou a rodar e já liga para fazer reserva. Tolerância, da Casa de Cinema de Porto Alegre, é um'', conta. Apesar da demanda, o autodidata Sasso, há quase 30 anos no ramo, garante que a hora nao é de arriscar novos investimentos.

O pedido feito para abertura de linhas de crédito específicas para a indústria do cinema é bem-vindo, mas nao sensibiliza os investidores. ``O financiamento é a parte mais fácil. Você compra o equipamento. Mas quem vai usar?'', pergunta o coordenador geral dos Estúdios Mega, José Rubens, que, apesar da tradiçao como estúdio fonográfico, vem investindo pesado nos últimos anos na compra de equipamentos para ediçao de imagens para o cinema. Apesar das novas frentes de trabalho na empresa, 90% do movimento ainda vêm da publicidade e da televisao.

A carga tributária para importar equipamentos é apontada como a outra grande inimiga do crescimento do setor. ``O custo de compra é acrescido em até 70% só com gastos de ICMS, ISS e impostos alfandegários'', conta Sasso. ``Existe um consenso de que lá fora tudo é mais barato. Nossos preços sao mais caros por conta das importaçoes. Em Los Angeles, você chuta uma pedra e saem quatro, cinco telecines'', se defende José Rubens. A idéia de que se economiza finalizando lá fora é contestada por Barreto. ``Você tem que levar toneladas de material. Bancar passagens e diárias de hotel para a equipe. Isso tudo é um custo. Além de ser um incômodo'', reclama.

A falta de competitividade no setor é outro entrave para a melhoria dos serviços e, principalmente, do atendimento. Na Líder Cine Laboratórios, uma das maiores empresas de copiagem do Rio, que vem renovando toda a sua maquinaria, a reportagem nao conseguiu sequer ser recebida. ``Uma vez em Los Angeles fui dizer que tinha gostado do casaco de couro do cara, ele tirou e me deu. Ele disse que tinha mais 15 estúdios iguais ao dele naquela rua e que se eu tinha gostado do casaco esse podia ser o diferencial. Lá eles fazem o melhor para te agradar'', conta o diretor Zelito Vianna, exemplificando os benefícios que uma saudável competiçao pode trazer. Zelito sabe o que diz. Para colocar o melhor som em Villa-Lobos, teve de alugar o auditório da Uerj. ``Nao existe no Brasil um estúdio que comporte uma orquestra média por inteiro. As salas de mixagem nao têm a dimensao de um cinema, o que dificulta uma avaliaçao'', diz.

Esmero com sonoridade é coisa recente no cinema brasileiro. A maioria das salas de exibiçao sequer está adaptada para receber tanta eficiência. Mas qualquer produtor sabe atualmente que nao há como trabalhar mais sem um dolby estéreo básico. O público chia. Sasso lembra que No coraçao dos deuses, de Geraldo Moraes, foi o primeiro filme a ser mixado digitalmente no Brasil e ainda nem chegou às telas. Depois vieram Simao, o fantasma trapalhao, Zoando na TV, O primeiro dia, Por trás do pano e Dois córregos. Mas poucos estúdios estao gabaritados para o trabalho.

Já na pós-produçao de imagem, a situaçao é um pouco melhor. A disseminaçao no Brasil de equipamentos de ediçao nao linear, como o Avid Film Composer - Oscar de conquista tecnológica deste ano mais uma vez -, vem facilitando em muito a montagem para o cinema. Mas ainda é comum assistir a problemas de sincronismo entre fala e gesticulaçao labial nos filmes brasileiros - som e imagem que nao caminham juntos. Cut lists (listagem dos frames que serao usados no filme) e recursos de ajustes, conhecidos como pull down (processo de compensaçao de quadros) e drop frames (de equivalência sonora), ajudam, mas para Zelito o problema é eterno. ``Nao há como fazer tudo no computador. Você tem 24 quadros por segundo no cinema contra 29,97 da televisao. Tem que voltar à película para os acertos'', diz.

Para quem lida com os sistemas de ediçao no computador, a máxima reflete desinformaçao. ``A quantidade de produçoes no Brasil ainda nao é suficiente para aprimorar a técnica. É preciso ter todo dia gente resolvendo esse tipo de coisa'', diz José Rubens. ``A tecnologia veio meio rápido e para completar nosso cinema ficou parado um bom tempo'', completa Maria Clara Fernandez, do atendimento da Mega em Sao Paulo, há 17 anos no ramo.

A falta de formaçao de mao-de-obra técnica para pós-produçao em cinema é outro problema. A figura do coordenador de pós-produçao, coisa banal lá fora, só vem tomando força por aqui nos últimos cinco anos. É raro ainda um especialista em finalizaçao ser chamado para acompanhar todo o processo desde o início, planejando as melhores formas de captaçao de imagem e som a fim de facilitar a ediçao final do material. Toda especializaçao do setor também é basicamente treinada fora. Geralmente pelas próprias empresas fornecedoras do equipamento. Há quem acredite que esse é o principal problema da chamada indústria do cinema. ``A falta de equipamentos de pós-produçao aqui nao é o pior. A Varig pode ser uma boa finalizadora. Pior é nao encontrar ninguém que saiba orientar sobre um problema. Sem formaçao de mao-de-obra nunca vamos ter a tecnologia'', diz Marcelo Dantas, da produtora Magneto.

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